Castlevania e a condição humana… com vampiros!

Imagem: Netflix/Divulgação (Reprodução)

No último dia 07,, estreou na Netflix a tão aguardada adaptação de Castlevania. E depois de me deliciar com os quatro episódios que formam a sua primeira temporada, nada mais justo do que reunir algumas notas para discutir com vocês. O serviço de streaming mais uma vez surpreendeu ao entregar uma adaptação de uma das franquias mais lendárias da Konami, trazendo um gostinho de “quero mais” deliciosamente sangrento.

A premissa da série parece bem simples, e o fato de serem apenas quatro episódios de vinte e poucos minutos cada não parece tão atrativo a primeira vista. Afinal, tão poucos episódios, tão pouco tempo… não parece com um projeto muito sólido. Contudo, é nessa despretensão que a série ganha seus pontos inicias.

A primeira temporada foi pretendida para ser um único filme, antes da Netflix decidir trazer a adaptação para seu catálogo, o que, de certa forma, dá a essa temporada um tom de introdução, de grande prévia para algo maior que está por vir. Essa opção por poucos episódios em tempos de cancelamentos duros e aumento de preços, parece ser acertado, mais ainda porque esse momento inicial é exatamente o que parece ser: uma introdução. Mas não uma introdução leviana ou um grande recap entre temporadas. A série toma esses episódios como um teste e o gosto do público enquanto relativiza questões de bem e mal olhando muito mais para a condição humana do que parece ser possível.

Tomando livremente o jogo Castlevania III: Dracula’s Curse (de 1990) como base, a trama usa de referências veladas, brinca com a atmosfera dos jogos e retrata os personagens consagrados – Trevor Belmont, Sypha, Alucard e claro, um famigerado e vingativo Conde Drácula – sem, contudo, deixar de trazer nuances verdadeiramente contemporâneas para a história, desviando nosso olhar do vilão para nos levar a refletir sobre o grande “mal” do fanatismo humano.

Essa é outra questão interessante. Tenha você jogado Castlevania ou não – fato que não atrapalha na apreciação da série – a imagem que se tem do Conde Drácula é de um grande mal, um torturador insano que aterrorizou a Europa na Idade Média. Essa imagem não é desfeita, mas ela também não é o assunto principal. Isso fica claro quando, durante o primeiro episódio, vemos toda a humanização do Conde através de sua relação com Lisa só para depois testemunharmos a vingança dele contra a humanidade – quando o Clero acusa Lisa de bruxaria e a queima viva. Sim, é um clichê humanizar o vilão, mais ainda quando ao fazê-lo, estamos apontando para a figura do Bispo que, com seus valores e discurso, assume o papel de vilão ideológico na trama.  Mesmo assim, a série soube empregar essas nuances muito bem, considerando seu tempo reduzido.

Imagem: Captura de Tela/Netflix (Reprodução)

A série segue uma linearidade bem simples (outra vantagem da trama) e, com uma animação de uma beleza singular, combina nuances da franquia com a boa e velha agressividade sangrenta que os fãs de outros animes – como Attack on Titan – já estão acostumados. Decapitações, desmembramentos, umas entranhas aqui e ali… nada demais. Até porque, o massacre não é o foco da trama. As sequências de ação e a trilha sonora também não deixam a desejar e, quando combinados com uma escrita que não deixa detalhes ao acaso e utiliza completamente todos os recursos que insere, resulta em quatro excelentes episódios. Toda a condensação das questões de moralidade e fanatismo, além da própria jornada do herói de Trevor – com direito a uma luta de chicote ESPETACULAR – foi feita de maneira exemplar na progressão dos episódios.

Contudo, como toda adaptação, existem problemas. A quantidade de episódios é uma questão delicada. Os quatro episódios iniciais são sim muito bons e cumprem seu papel, apresentando tudo o que precisamos saber e parando num momento bom o bastante para ser uma finale. Infelizmente, não nos foi oferecido nada para imaginar o que acontecerá em seguida. Não sabemos como Alucard integrará a parceria já instável de Trevor e Sypha. Não sabemos quais serão as consequências dele ter sido acordado – será que Drácula sabe? – nem que rumo ele dará as aventuras. No meio a tantas questões, deixar a continuação, mesmo que com mais episódios, somente para 2018 não é muito interessante. E mesmo que essa demora no modelo episódico seja tradicional quando o assunto é Netflix, submeter uma animação à prova do “vale a pena esperar?” pode não ser uma boa ideia.

Seja como for, essa primeira temporada de Castlevania é uma boa hora de diversão. A trama tem potencial para ser algo memorável no futuro e, mesmo desconsiderando esse futuro, a série representa um bom retorno à franquia e traz para a TV uma adaptação feita para agradar aos fãs do jogo, aos fãs de anime e basicamente todo mundo que goste de uma boa aventura.

Castlevania - 1ª Temporada

Nota da Temporada - 9

9

Resenha da primeira temporada de Castlevania, adaptação original da Netflix.

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About Richard Gonçalves

Richard Gonçalves
Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.