Jessica Jones: se redescobrindo do princípio ao fim, para um novo começo

Imagem: Netflix/Divulgação

“If you say ‘with great power comes great responsability’ I swear I’m gonna vomite in you”

Que temporada espetacular! Com um saldo muito positivo, um final que deixa espaço suficiente para mais – embora não seja preciso – e uma maravilhosa coleção de referências visuais e textuais, Marvel’s Jessica Jones fez mais uma vez. Nos entregou 13 episódios que condensaram grandes atuações, várias tramas eletrizantes, mais sobre todos os personagens do poderíamos querer… ufa, quase dá para perder o fôlego… e isso é muito bom.

Não me entendam mal! As produções da parceria Marvel-Netflix todas definiram a barra de qualidade num ponto bem alto. As aventuras de Frank Castle nos lembraram disso alguns meses atrás. Contudo, sejam as de menor qualidade (leia-se Luke Cage e Iron Fist) ou até as queridinhas (leia-se Daredevil 1, Jessica Jones 1 e até Marvel’s Defenders) têm momentos de alto e baixo em sua trama. Devido a linearidade pretendida para essas histórias e a maneira com que elas são conduzidas, a curva dramática não é bem acentuada, deixando muito espaço para fillers. E aqui, mesmo que hajam alguns momentos… alongados, Marvel’s Jessica Jones conseguiu um feito glorioso. Criar uma temporada sem folga.

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Vimos de um tudo nessa temporada, começando pela paranoia de não conseguir lembrar do passado. Antes da aparição dele mais a frente – sim, ele realmente está aqui, de uma forma ou de outra ele sempre estará – é essa paranoia que adéqua o clima de maneira a escalar a tensão e o medo constantemente, como à figura de Kilgrave fazia.

A narração de Jessica deu uma fluidez muito inusitada à temporada.

Seja para transmitir um ensinamento interessante, destilar algum sarcasmo ou até mesmo para mostrar a cacofonia dos pensamentos dela, foi uma boa adição. Foi na narração que vimos um outro nuance inusitado e maravilhoso. A voz de Kilgrave a guiando… Afinal, amarras tão fundas não podem ser desfeitas. Mas esse é um, dentre vários excelentes detalhes que mostraram não só o amadurecimento, mas o crescimento do texto da série num nível que faria deste um bom ponto para concluir.

Outro desses fatores, a linearidade, é aplicada aqui a todas as tramas. Hogarth, por exemplo, passa por uma mistura de estágios do luto com jornada do herói. Ela começa negando e ficando com raiva e depois, como se impulsionada por uma vontade de viver maior do que qualquer outra coisa, ela faz das pistas dadas por Inez sua cruzada particular.

O mesmo pode ser dito sobre Oscar, Malcolm e Trish.

Mesmo que algumas pontas tenham ficado soltas justamente pela densidade dada às tramas desses personagens – algo similar ao que foi inicialmente feito com Claire Temple em sua passagem por… todas as séries até aqui – cada um deles recebeu mais densidade psicológica e narrativa do que se espera de alguém que não é personagem-título. Mais ainda quando os desenrolares deles não dependem exclusivamente de Jessica.

A relação de Jessica com Oscar e Vido, que acaba sendo talvez o plot twist mais surpreendente ao fim da temporada, é uma ótima amostra disso. Começou como uma guerra com o zelador latino e bonito, algo que seria somente a fonte de um bom alívio cômico e talvez um fator para acrescentar pressão à jornada do herói e evoluiu de uma maneira inusitada, ao ponto da nossa heroína escolher essa família, cheia de seus próprios problemas, como o lugar para recomeçar.

Foi o mesmo com a relação de Jones com Malcolm. Os ensinamentos dela rapidamente escalonaram de uma dinâmica de alívio cômico para algo mais elaborado. E podemos sentir esse avanço ao longo da primeira metade da temporada. Claro, essa evolução é acelerada um pouco por força de roteiro, mas é tangível que a parceria entre eles – que foi deixada evidente na finale passada – foi vivida em plenitude. E mesmo que essa parceria tenha chegado ao fim, por erros dele, teve bem mais força na trama do que era esperado.

E Trish? O que dizer sobre Trish Walker?

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De amiga dedicada a em espiral para um colapso criado por tanta coisa que simplesmente não dá para descrever, a nossa ex queridinha… partiu nossos corações. Na verdade, amei e odeie Trish quase que em todos os episódios, a alternância disso foi bem intensa. Ela também protagoniza uma ponta solta e um excelente cliffhanger – além de, claro, SPOILER, matar a mãe da nossa heroína. Resta saber agora se a série explicara o que Griffin roubou do computador de Trish (e porque ele não fez nada com isso) e qual a extensão das “habilidades” que ela adquiriu, ao custo de tanto.

Talvez por isso, “AKA I Want Your Cray Cray”, o já clássico episódio de flashback dessa temporada (2×07), se encarrega de mostrar que nem sempre houve paz entre Trish e Jessica e que embora elas tenham enfrentado muito juntas, não sei se poderão superar isso.

Talvez o melhor retorno até aqui, um que chocou os fãs devido ao final que ele teve, foi o de David Tennant.

Ainda mais impactante, ainda mais poderoso do que da primeira vez, essa foi uma chegada impagável. Os comentários dele… o cinismo, o sarcasmo… como eu senti falta disso! Seja em momentos gloriosos como “Murdering me was as poethic as justice will ever get!” ou nas várias cenas em que ele não só existe, como se multiplica constantemente na cabeça dela trouxeram de volta todo o peso do que o personagem significou na feitura de quem Jessica Jones é.

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Confesso que pensei que não veria muito mais de Hogarth nessa temporada. Ela teve que lidar com a bomba que é, mais ainda para alguém, ter ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica).  Vimos ela processar isso com comentários como “If I believed in God, I would say her sense of humor is sick.”. As falas de Hogarth, embora perdidas no meio da confusão em que ela se encontra foram sutis e pontuais. Xingar, diminuir… as maneiras de oprimir que são tão sutis quanto o próprio comentário não passaram despercebidas aqui.

E depois de ser enganada e roubada e ter a sua esperança feita em pedaços, achei que seria o suficiente, até mesmo para ela. Contudo, ainda tinha mais no estoque. E, como não fosse suficiente iniciar o que claramente era uma busca por vingança que culminou noutra amostra do cinismo frio e calculista dela, Hogarth fez isso vestindo a versão mais próxima de alta costura e sem couro dos trajes de Trinity em Matrix, isso para não mencionar a virada de mesa maravilhosa que ela deu nos sócios. You go Carie-Ann!

A relação com o detetive Costa foi outra surpresa interessante. Para um Investigador Particular, que não é bem visto pela polícia, mais ainda alguém tão intenso quanto Jessica, foi uma dinâmica intrigante.

Obviamente, não poderíamos passar sem discutir Alisa. Talvez uma vilã diferente do esperado, que acabou por desviar a atenção daquilo que o inimigo pode fazer – já que basicamente as habilidades dela são as da nossa heroína – e deixou espaço para uma densidade psicológica para ela.

Isso nos permitiu ver, por exemplo, a ironia na repetição da trama que gerou problemas na temporada passada – mulher com poderes controlada e usada como arma por um maníaco – foi estendida além de Jessica. Na verdade, até mesmo a dinâmica de violência e abuso e aproveitamento de fragilidade emocional foi repetida aqui. Era a mesma relação que o Dr. Karl tinha com sua paciente.

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Assim com Kilgrave, Alisa também causou danos irreparáveis a Jessica em momentos que podiam ter definido a vida dela de maneiras diferentes… a maneira com que ela matou Stirling mostra, assim como foi com Elektra, que há mais do que somente amor ou obsessão. Que Alisa foi danificada muito além do físico em níveis de onde talvez não exista reparação. O fruto disso, os momentos mãe e filha foram ao mesmo tempo maravilhosos e depressivos. Tentar colocar tudo o que esteve reprimido por anos para fora em poucos minutos certamente era um momento de tensão necessário para nossa heroína, e teve seus highlights humorísticos.

É preciso um monstro para deter um monstro. Nunca isso foi tão claro. Contudo, o detalhe antes não acentuado aqui quando enfrentamos Kilgrave parece ter sido a base para construir um novo dia.

Como um todo, Marvel’s Jessica Jones conseguiu continuar sendo uma série excelente. Não só por manter tudo aquilo que já amamos na temporada anterior, mas por, a sua maneira, subverter e melhorar a atmosfera procedural, dividindo-a e estendendo-a. O arco central da trama, sobre Jessica e sua mãe e o segredo da IGH são o macro, mas individualmente, quase que como se bebendo um pouco de outras produções (tanto do MCU como fora dele) a série transformou cada episódio individualmente em também um procedural individual, com suas próprias tramas e suas nuances particulares.

Ainda é a mesma série que amamos. As tramas ainda são envolventes, ainda há muita intensidade e paixão no que é feito. Envolto numa maravilhosa trilha sonora, numa fotografia que trouxe tudo o que já vimos na temporada passada e aprimorou, essa segunda temporada foi, do início ao fim, intensa e maravilhosa. E no fim, é exatamente o que importa. Foi exatamente isso que o final nos entregou, um novo começo. Uma redescoberta de nossos personagens e o começo de suas novas jornadas. E talvez, só talvez, isso seja suficiente.

  • Alias Investigations Work Notes: O elenco teve algumas adições interessantes nessa temporada. Além de J.R. Ramirez (que fez algumas participações, inclusive em 24 Horas) como Oscar, tivemos Janet McTeer (que antes de ser Alisa Jones, narrou Malévola, fez participações em Battle Creek, The Honourable Woman, The White Queen e várias outras produções inglesas), Leah Gibson (que acrescentou Inez ao currículo junto com Planeta dos Macacos, Watchmen e The Returned) e Callum Keith Rennie (que pode até ter sido um Dr. Karl bem doente, mas que brilhou em The Man in the High Castle, Warcraft, Impulse, Californication, Longmire e até The Firm).
  • Alias Investigations Work Notes, 02: É interessante notar que essa trama de retorno dos pais já foi usada noutro segmento da parcela televisiva do MCU. Em Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D., os pais de Daisy retornam para causar muitos problemas ao longo da Season 2.
  • Alias Investigations Work Notes, 03: A clássica aparição de Stan Lee nessa temporada também não faltou. No fundo do ônibus que está a frente de Jessica quando ela está saindo para tentar encontrar Vido há uma propaganda do que parecem ser advogados, nele, há uma foto gigante do tio Stan sorrindo como sempre.
  • Alias Investigations Work Notes, 04: Até mesmo nas cenas de sexo, sempre há um easter egg para o expectador. Afinal, o roxo, que foi tão presente na paleta da temporada passada, é não só uma referência à Kilgrave, mas ao próprio clima noir pré-estabelecido pela a série.
  • Alias Investigations Work Notes, 05: Levou alguns minutos para o paralelo se formar na minha cabeça, mas acho que nesse momento, Trish chegou mais perto de ser Karen Page do que eu gostaria. Não necessariamente a Karen da série, mas aquela que nos quadrinhos vendeu a identidade do Demolidor para o Rei do Crime por um pouco mais de drogas. E agora que ela tem poderes, isso tem muito potencial.

Jessica Jones, Segunda Temporada

Nota da Temporada: - 9.5

9.5

Review da segunda temporada de Marvel's Jessica Jones, da Netflix.

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About Richard Gonçalves

Richard Gonçalves
Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.