Deadwood – O Ouro e o Caos

Deadwood-deadwood-14852448-1400-875

Deadwood é uma das melhores séries feitas nos últimos vinte anos. Sem exageros, a produção da HBO é um primor técnico e narrativo sem precedentes. Poucas são as produções que atingiram um nível tão elogiável tanto no roteiro quanto nos quesitos visuais. Ouso, inclusive, ao afirmar que Deadwood não deve em nada a The Sopranos e Six Feet Under, obras-primas incontestáveis do canal. O faroeste criminal criado por David Milch é perfeição do início ao fim, uma aula de história e uma aula de como conduzir um programa seriado com inteligência, diálogos memoráveis e personagens inesquecíveis.

Pois Deadwood, aliás, tem alguns dos melhores personagens a surgirem nestes “anos dourados” da TV. Al Swearengen, interpretado impecavelmente por Ian McShane, é a personificação do que é ser badass. Em uma briga com Tony Soprano, Walter White e Frank Underwood, é bem provável que Al fosse o vencedor. Swearengen é dos anti-heróis mais complexos: manipulador, desbocado, arrogante, inteligente, sarcástico, violento. Tudo que havia de ruim e sujo no velho oeste americano é colocado na concepção do personagem. É o tipo de “cara mau” pelo qual torcemos do início ao fim da história. Sabemos que ele, White, Soprano, Draper e Underwood são pessoas para se manter longe, homens com desvio de caráter e muita coisa ruim dentro de si. É impossível, porém, não admirar e torcer por estes indivíduos.

Muito se deve, claro, ao atores que interpretaram cada um destes icônicos personagens. E Ian McShane tem uma das melhores atuações dos últimos anos. Você pode achar que estou exagerando ao fazer tais afirmações, mas o fato é que McShane mergulha na psique de seu papel e se transforma em Swearengen. Vê-lo hoje, interpretando outro personagem, chega a ser estranho. McShane É Swearengen, e não há como não ficar impressionado com sua entrega. Sua atuação está ao lado do que vimos de melhor na televisão, rivalizando com Bryan Cranston, James Gandolfini e outros atores que roubaram a cena e entraram para história.

Mas não é só ele que se destaca em Deadwood. Seth Bullock, vivido por Timothy Olyphant, faz o papel da justiça no acampamento. Não podemos dizer que ele é o bom moço da história, pois aqui não há bom ou ruim. Todos estão entre o preto e o branco, mergulhados naquela escala cinzenta na qual todos os bons personagens se encontram. Olyphant, que viria a se destacar em Justified, faz um excelente trabalho ao encarnar uma espécie de bússola moral na série. Estão no programa, também, Molly Parker (House of Cards), Jim Beaver (o Bobby Singer de Supernatural), Kim Dickens (House of Cards e futura protagonista de Fear the Walking Dead), John Hawkes (indicado ao Oscar por Inverno da Alma), Brad Dourif (O Senhor dos Anéis), Anna Gunn (Breaking Bad), Sarah Paulson (American Horror Story) entre outros. É um elenco irretocável onde todos parecem ter o melhor momento de suas respectivas carreiras.

deadwood-542318ffeaaa9

David Milch, criador da série, tinha uma ideia base: estudar como a civilização floresce, muitas vezes, em torno do caos. A intenção era criar um programa que acompanhasse a antiga civilização romana, mas a HBO já estava desenvolvendo uma série relacionada (a excelente Rome). Milch não queria perder a chance de desenvolver suas ideias originais e a HBO não queria perder a oportunidade de desenvolver uma série criada por Milch, roteirista respeitado no meio.

O roteirista, então, começou uma pesquisa: qual a ambientação ideal? Qual o período histórico? É bastante claro que estudar a civilização romana seria perfeito, já que se tratava de uma sociedade em desenvolvimento que viria a estabelecer muito do que se vê em civilizações contemporâneas. Roma estava fora de questão, porém. Mas a resposta estava mais perto do que se supunha. Literalmente. Os Estados Unidos, assim como vários outros países, nasceram e se desenvolveram em meio ao caos. Milch, então, deveria apenas pegar seus apontamentos inicias e incluí-los em um novo cenário. Ao mergulhar e se interessar pelo universo do oeste americano e a conhecida corrida do ouro, o escritor percebeu que tudo o que ele queria estava lá, com histórias esperando para serem contadas.

Uma das primeiras e mais importantes bases para a criação da série foi o livro Deadwood: The Golden Years, de Watson Parker, um autor e historiador americano que se especializou em parte da história americana. Seu livro, e outros tantos estudados por Milch, abordavam o lado humano não só de Deadwood, mas dos vários acampamentos que se formaram nos EUA no final do século XIX. Quem eram as pessoas que viviam nestes locais? Como era o sistema social, político e econômico destes acampamentos que viraram vilarejos, bairros, cidades e hoje formam um país?

Os ingleses, ao chegarem ao que hoje é os Estados Unidos, colonizaram o lado leste daquelas terras. Por ser uma zona portuária, mais acessível aos colonizadores que vinham navegando da Europa, as regiões do leste americano se desenvolveram. Para quem sabe um pouco de história, já deve ter ouvido sobre as Treze Colônias. Pois bem, os colonizadores se mantinham nesta região e não avançavam pelas novas terras, deixando todo o lado oeste do país “descolonizado”. Após a independência norte-americana e uma nova nação começar a se desenvolver, a civilização começou a se expandir. Desbravar e conquistar o Velho e Selvagem Oeste mostrou-se uma oportunidade de progresso não só para o país, que crescia territorialmente cada vez mais, mas para muitos povos que poderia encontrar novas áreas para viver e prosperar.

Neste cenário é que começou a corrida do ouro. Acampamentos eram formados e aos poucos as pessoas iam se estabelecendo. Alguns lugares eram habitados por famílias, outros, porém, se desenvolviam a base do trabalho e do caos. Muitos destes acampamentos se formaram para que garimpeiros pudessem achar o ouro que aquelas terras escondiam. Deadwood, mostrado aqui, é apenas um destes lugares que se fomentaram principalmente de 1860 a 1890. Estes lugares, então, germinaram calcados na ambição e no caos. O ouro muitas vezes era abundante e muito era investido em álcool, jogos de azar, drogas e prostitutas. Deadwood, portanto, como bem mostra a série, ainda que parecesse um antro de prosperidade, não era o local ideal para se viver. Estudos apontam que a população era formada por aproximadamente 200 homens para cada 1 – sim, UMA – mulher. E todos estes homens vivam basicamente procurando por ouro, gastando o que achavam, brigando, adoecendo e morrendo.

deadwood-54231965bd162

Deadwood, infelizmente, foi cancelada depois de 3 temporadas. O motivo? Segundo a HBO seria o alto custo de produção, mesmo motivo que levou – veja só – Rome ser cancelada. E talvez seja verdade, pois Deadwood era sucesso absoluto de crítica, fazia bonito em premiações e tinha um bom público. Audiência, portanto, não era o problema. Muitos afirmam que o texto era muito complicado e denso, e que David Milch era um sujeito muito complicado para se trabalhar.

O fato é que a série realmente parece ter sido muito cara. O elenco – principal e figurantes – era enorme. A equipe, gigantesca e cheia de nomes renomados. Os melhores diretores e roteiristas passaram pela produção (David Fincher seria o diretor do piloto, que acabou sendo comandado por Walter Hill, outro cineasta respeitado) e cada detalhe parecia pensado e realizado para conceder o máximo de realismo à história. A recriação histórica era impecável: dos figurinos aos cenários, tudo era incrivelmente autêntico, em um nível que nem mesmo o cinema alcançava. Deadwood enchia a mente com tramas complexas e diálogos ligeiros (além de muitos, mas muitos palavrões) e os olhos com tamanha beleza.

Mas isso não foi o bastante para que a HBO não renovasse o contrato do elenco e conseqüentemente cancelasse o programa. Milch e o canal planejaram encerrar a história com dois filmes de duas horas cada, mas a ideia não foi para frente. Os fãs até hoje mantêm a esperança de que a série será resgatada e devidamente finalizada, o que é praticamente impossível. A finale da terceira temporada serve muito bem como um encerramento definitivo, mas mesmo assim não tem aquele gostinho de fechamento oficial. Para que tudo terminou, mas poderia continuar por mais uns anos.

Após três temporadas, nos últimos minutos do derradeiro episódio, quando Bruce Springsteen começar a cantar a última canção da série enquanto os créditos correm, você vai lamentar pelo fim e se perguntar: por que tão cedo? Talvez porque o que há de melhor dure pouco, e enquanto dura, é impecável.

About Matheus Pereira

Matheus Pereira
Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.
  • Caroline Marques

    Muito bom esse seu texto, colocou toda sua emoção de ter visto a série, até me deu vontade ver! 🙂

    • Matheus Pereira

      Valeu, Carol!! É justamente essa a intenção: despertar nas pessoas a vontade de ver essa série belíssima. Quis colocar todo meu amor por Deadwood pra fazer as pessoas quererem assistir. rsrs E vc sabe, Carol, já lhe dei dicas boas. Essa pode ser mais uma… hahah

      • Caroline Marques

        Vivendo para ver as séries que Matheus Pereira me indica, beijos!