Dear White People: série mais importante do ano não é perfeita, mas necessária

Imagem: Adam Rose/Netflix.

Sou um homem branco. Nunca fui oprimido pela cor da minha pele. Não sei o que é passar isso e, logo, este texto talvez fique limitado em diversos aspectos. Com isso, digo sem medo, e com muita vergonha: fui racista. Pior: sou racista. E deixa eu te contar: você também é. Todos somos. Não importa nossa idade, crença, cor da pele, origem ou qualquer outro elemento. Nós todos somos seres que nascem, crescem e perpetuam infinitos preconceitos, sejam eles velados ou explícitos. A sociedade nos constrói e nós construimos a sociedade; nesse processo cíclico, os preconceitos se desenvolvem. Por mais que tentemos mudar, por mais que seguir pelo melhor dos caminhos, sempre há um deslize.

É por entender isso que Dear White People se sai tão bem e se mostra uma retrato poderoso de nossos tempos. A série coloca o dedo na ferida, mas sem ser maniqueísta. A ideia do programa não é demonizar os brancos, mas escancarar um fato que muitos parece não enxergar. O objetivo não é dizer “você está errado, eu estou certo”; ao contrário, o foco aqui é colocar as cartas na mesa e levantar a mais dura das constatações: estamos todos errados. Ao trazer um grupo de alunos negros, os roteiristas escancaram os preconceitos entre eles: o personagem que se acha mais ou menos negro que o outros; aquele que julga por uma pessoa negra namorar uma branca. Além disso, vemos como as relações problemáticas se dão entre outras minorias: em certo momento, um personagem gay nega sua sexualidade por puro preconceito.

Pois embora traga personagens negros no centro da trama, Dear White People busca abordar diferentes minorias, dando voz a grupos que, geralmente, não têm espaço. Ainda assim, vale apontar um dos maiores problemas da série: ao tentar trazer minorias às telas, os roteiristas e diretores do projeto acabam criando estereótipos vergonhosos que quase enfraquecem a boa vontade inicial: em um episódio, por exemplo, duas personagens são claramente definidas como feministas através de clichês absurdos, que mais diminuem a causa do que ajudam.

Além disso, o show muitas vezes se limita a discursos rasos ou repetitivos até mesmo na cultura pop. É chavão criticar Tarantino por sua abordagem com relação a personagens negros, e a própria crítica ao roteirista é questionável. Seria mais interessante jogar luz a obras cujos preconceitos se encontram mais escondidos, sem se limitar a discursos facilmente encontrados em textos de Facebook. De todo modo, felizmente, Dear White People consegue entregar um texto potente na maior parte do tempo, levantando questões e jogando verdades duras e necessárias para a audiência.

É verdade, também, que não são todos os personagens que funcionam. Cada capítulo é desenvolvido em volta de um personagem diferente, o que é bacana e relevante; o problema é que alguns não têm muito o que falar, nem interesse para despertar. O que salva nessas ocasiões (que são raras, vale apontar), é o elenco jovem talentoso, o roteiro ágil e o visual arrojado. O texto segue uma lógica e uma fluidez que caracterizam as novas gerações, o que é digno de aplausos. Em suma, a série fala a língua que se fala hoje em dia, o que mostra um cuidado e sensibilidade notáveis por partes dos realizadores. Para completar, os diretores fazem um bom trabalho ao evocar a boa estética cinematográfica dos filmes indies atuais, com fotografia arrojada e movimentos de câmera dinâmicos.

No fim, Dear White People é uma das séries mais importantes dos últimos anos. Relevante em seus apontamentos, o programa ainda diverte com um roteiro bem amarrado e bom elenco. Os eventuais tropeços não comprometem sua relevância e importância temática, mas não podem ser ignorados. De todo modo, Dear funciona das duas formas: como afiada diversão e como importante ferramenta para debate e conscientização.

Dear White People

Nota da temporada - 7.5

7.5

Nova série da Netflix pode não ser perfeita, mas é o lançamento mais importante do ano até agora.

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About Matheus Pereira

Matheus Pereira
Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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