As diferenças e semelhanças na adaptação de Psicose feita por Bates Motel

Bates Motel ainda não acabou – faltam 2 episódios para sua despedida final, mas já podemos fazer um balanço da excelente adaptação que ela se propôs a fazer da história apresentada em Psicose, filme de Alfred Hitchcock feito em 1960.

A série, por si só, inovou ao se tratar de um prequel. Lá na primeira temporada sabíamos qual seria o destino de Norma Bates, do ponto em que Norman chegaria e de todo o suspense que seria criado em torno dos hóspedes do Motel dos Bates. Porém, a forma como a trama foi desenvolvida – de forma inédita, uma vez que a série contou uma história não vista até aqui – os aspectos de Psicose foram sendo encaixados temporada após temporada, chegando ao seu ápice nesta temporada final.

Desde o início, cenograficamente, Bates Motel conseguiu recriar uma atmosfera bem próxima daquela que Hitchcock desenvolveu na década de 1960. Tanto que, no início da série, não sabíamos muito bem que abordagem ela teria – se seria uma história de época, ou se trariam para a atualidade. Mas conseguiram fazer essa mescla muito bem, deixando ela uma série tecnológica, mas com traços vintage. Do Motel, passando pela icônica casa, até à vestimenta, Bates Motel deu um show.

Desde o princípio, os produtores trabalharam para que aspectos de Psicose fossem inseridos, cada vez mais, na trama de Bates Motel. Se tomarmos como ponto de partida o monólogo que encerra o longa, enfatizando frases como  “Você é toda a minha vida, todo o meu eu …” mostrada na série, além de todo o contexto apresentado em que se explica a motivação dos crimes do protagonista, podemos ver que a série cuidou para mostrar como que Norma era “possessiva” e como os dois viveram um relacionamento de como se não houvesse mais ninguém no mundo além deles – antes de Norman matar sua mãe.

Outros aspectos bem semelhantes, e que se conectam com a história de Psicose, encontram-se em pequenos detalhes como na música ou os objetos em cena. Como exemplo, temos a música “Symphony No. 3, The Eroica” e um livro misterioso, que interagem na cena em que a irmã de Marion entra no quarto de Norman no longa de 1960. A música de Beethoven foi inserida na série, em um momento em que Norman espera o ônibus com seus fones de ouvidos, e o conteúdo do livro – que deixou a irmã de Marion chocada, foi revelado na série: desenhos de mulheres sendo amarradas e torturadas.

Imagem: Junkee

Preciso ressaltar ainda que, cada vez mais, Freddie Highmore foi incorporando aspectos da interpretação de Anthony Perkins – o Norman Bates original, em sua performance. Trejeitos, caras, gestos… Tudo na mais perfeita ordem lembrava o personagem do longa de 1960, sendo a semelhante impressionante.

Imagem: @blogeudevito

 

Mas desde o começo da série, os aspectos que identificavam o Norman de Hitchcock eram apontados na obra. Algo que sempre me chamou atenção foi a série explorar a sua paixão por empalar animais. Em Psicose, esse é um dos primeiros aspectos ressaltado na sua interação com uma personagem chave da trama, e justificava o porquê de ter feito o mesmo com sua mãe – que ele acreditava fielmente ainda estar viva, devido sua dupla personalidade.

Imagem: Swang King

Em Bates Motel, sua obsessão por tal arte começou após a morte do cachorro Juno. Norman, desde então, vinha utilizando a empalação como um passatempo, mas também como uma espécie de fuga ao seu transtorno que crescia cada vez mais. Na quinta temporada, ele tem um diálogo bem semelhante ao longa de 1960 em que explica o porque ainda exerce tal prática.

Imagem: Collider

Da mesma forma que Freddie Highmore vinha recriando os trejeitos de Norman Bates, Vera Farmiga teve também esse cuidadoso trabalho, porém com um diferencial – não havia uma Norma Bates em Psicose. Conhecíamos apenas por sua influência, e é justamente pelas falas, pelas descrições e pelas consequências que ela exerceu na vida de Norman é que Vera Farmiga conseguiu construir sua personagem, de forma excelente, aliás! Dá até um arrepio quando assistimos cenas da personagem na janela da grande casa, em clara referência às cenas de Norman em Psicose.

Imagem: Junkee

Por último, mas não menos importante, a quinta temporada confirmou que na verdade Bates Motel como um todo era uma releitura de Psicose, e não apenas um Prequel. Com seus 10 episódios finais, a série adentrou no universo do filme, colocando Norman para duelar com sua mente doentia e uma mãe que ele recriava em seus mais súbitos surtos.

Quando Marion Crane foi anunciada na série, obviamente imaginávamos que teríamos a famosa cena do chuveiro, que se tornou um ícone cinematográfico com a interpretação de Janet Leigh. Com a convocação de Rihanna para dar vida à personagem, já conseguíamos imaginar essa integração entre o longa e a série, mas a surpresa foi quando os produtores resolveram alterar a vítima de Norman: ao invés de Marion, mataram Sam – o amante da personagem.

Mesmo assim, os aspectos, as tomadas e a condução da cena foi bem parecida com a original, deixando a inspiração – e a homenagem falarem mais alto.

Imagem: Mix de Séries

 

Não faltando muita ação para o desfecho da série, só temos de agradecer aos 5 anos em que ela nos brindou com excelentes episódios, recriando com maestria todo esse universo de Psicose, seja eles com semelhanças ou diferenças. Que o final seja inesquecível e digno de todo o legado criado por Alfred Hitchcock. Já estamos com saudades…

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About Anderson Narciso

Anderson Narciso
Mestre em História, apaixonado por mídias, é o editor responsável e idealizador do Mix de Séries. Eterno órfão de Friends, One Tree Hill e ER, acompanha séries desde que se entende por gente. No Mix é editor de colunas e de notícias, escreve a coluna 5 Razões e resenha a série Gotham.

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