Emocionante, Manchester à Beira-mar é um dos melhores filmes do Oscar 2017

Todos nós já perdemos alguém importante em nossas vidas. É algo natural e fica mais frequente conforme o tempo passa. Em toda a perda, contudo, há algo positivo, alguma luz no fim de um longo e complicado túnel. Enquanto atravessamos o luto, não percebemos, mas podemos tirar muita coisa boa das dificuldades empregadas pela morte. O mínimo que pode acontecer de positivo é uma profunda e delicada avaliação de nossas próprias vidas; é impossível não pensar na própria trajetória quando a caminhada de alguém querido chega ao fim. Além disso, é natural que família e amigos se reúnam e muitas vezes retomem contato depois de anos, reafirmando laços perdidos no correr dos anos.

Kenneth Lonergan entende a dor como poucos em Manchester à Beira-mar, e é justamente esse entendimento que faz o diretor e roteirista abordar justamente a questão da reavaliação pessoal e da reaproximação entre entes queridos. Na trama, Lee Chandler vive uma vida solitária em Boston, fazendo todo tipo de serviço em um condomínio. Uma notícia, contudo, faz com que ele retorne a Manchester, cidade natal onde parte de sua família ainda reside. Seu irmão, Joe, faleceu e ele precisa dar andamento a todos os serviços necessários, além de encarar o passado e rever velhos rostos.

Quem conhece Lonergan sabe que ele é ótimo no trato das coisas simples, das nuances do cotidiano. A seu próprio modo, o diretor e roteirista é uma espécie de Asghar Farhadi americano, pois consegue criar trama completas e cheias e idas e vindas a partir de um ponto básico, comum na vida tantos. Não há grandes acontecimentos nos filmes da dupla, apenas fatos naturais que acabam chacoalhando a normalidade do dia a dia. E essa é uma das maiores belezas nos três filmes dirigidos pelo cineasta. Em Conte Comigo e Margaret, dois dramas potentes, Lonergan já criava belos arcos para suas histórias e personagens partindo de pontos básicos: um familiar que retorna, um acidente, uma morte.

Acompanhar Manchester é como assistir um épico: chega-se ao fim sabendo que um grande arco foi percorrido. Lonergan sabe como criar um roteiro completo e envolvente, e aqui faz o seu melhor trabalho. Quando Lee chega a Manchester, uma série de flashbacks começa a surgir de tempos em tempos. O grande trunfo de Kenneth é trazer esses flashbacks como memórias diretas de Lee; quando ele vê ou ouve algo específico, uma lembrança relacionada aparece. Assim, acompanhamos a história e preenchemos as lacunas através dos olhos e da memória de Lee. Lonergan ainda é hábil ao desenvolver a trama calmamente e revelando detalhes nos momentos certos. Sabemos desde o início que algo marcante aconteceu no passado de Chandler, mas o diretor segura essa informação até que, de repente, descobrimos atônitos o que aconteceu.

Além do roteiro bem amarrado, que vai e volta no tempo de forma fluida, vale a pena apontar a brilhante montagem do longa, que liga passado e presente como se ambos fossem um só. É o passado que explica muitas coisas no presente e é ele que define parte do futuro. Manchester tem isso bem definido em passeia pela cronologia com uma naturalidade elogiável. Pouco disso funcionaria sem Lonergan na cadeira de diretor, já que nenhum outro cineasta seria capaz de captar a humanidade e sensibilidade de seu roteiro. No comando, o diretor não chama atenção para si; não há grandes sequências ou planos inventivos. A câmera contempla, observa o que ocorre, mas jamais se mostra intrusiva. O grande talento de Lonergan está na direção de atores, e muitos dos méritos do brilhante elenco devem ser direcionados a ele.

Michelle Williams, por exemplo, surge em pouquíssimas cenas, mas impecável em todas elas. Em uma delas a atriz tem um dos melhores momentos de sua carreira, o que certamente lhe rendeu a merecida indicação ao Oscar. Lucas Hedges como Patrick, sobrinho de Lee, surpreende pela dinâmica e por ser um dos elementos mais distintos da galeria de personagens. Muitos subestimam o jovem ator, mas ele é uma das maiores forças do longa. O poder de Manchester à Beira-mar, entretanto, é, realmente, Casey Affleck. Sem jamais se entregar a maneirismos ou arroubos emocionais, Affleck cria um personagem que, depois de tanta dor e lamentação, apenas sobrevive. Nas mãos e alguém menos talentoso, Lee seria apenas um adereço em cena. Nas mãos do ator, contudo, Chandler torna-se complexo e conquista a empatia do público mesmo que ele, em seu universo, não sinta empatia por muita coisa. Sua performance, dotada de minimalismos e naturalidade comoventes, deve garantir o merecido Oscar de Melhor Ator.

Manchester, enfim, é um filme triste, mas dotado de uma humanidade irretocável. Assim como na vida de cada um, há muita tristeza, mas também muita alegria. Mesmo entre tanta dor, os personagens acham jeitos de rir ou criar momentos felizes ou engraçados mesmo que não percebam e não sorriem por isso. Há vários instantes que arrancam risos da plateia justamente porque o humor surge de repente, de forma natural, ou mesmo totalmente deslocado. É preciso que a morte preste uma visita para que repensemos e encontremos nossa própria humanidade. Ou que um filme brilhante como este surja de tempos em tempos.

O Mix de Séries cobrirá os principais filmes do Oscar com críticas e textos especiais. Veja abaixo o que já foi publicado:

La La Land

Até o Último Homem

Manchester à Beira-mar

Nota do filme - 9.8

9.8

Com humanidade e sensibilidade, Manchester à Beira-mar surge como um dos melhores filmes do Oscar 2017.

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About Matheus Pereira

Matheus Pereira
Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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