Hora da pausa

Imagem: YouTube/Reprodução

Recentemente, depois de uma inusitada discussão em uma das poucas aulas que ainda leciono com real vontade, me vi questionado com um problema, frente ao qual a teoria que compõe essas aulas nada foi capaz de fazer. Afinal, nem toda a crítica literária ou filosofia pode absorver e tratar da maré de… bom, de absurdo e caos que são a matéria da qual o cotidiano é feito.

Vemos certos problemas se adensarem cada dia mais – embora eu não vá ser específico para não apontar coisas bem óbvias – e nesse processo, eles fazem com que seja mais difícil esperar, acreditar (e até desacreditar) em qualquer coisa. Seja por razões que os estudos da psique certamente gostariam de tentar explicar ou pelo conjunto distópico das coisas, até mesmo a ficção perde seu sentido quando a realidade é tão absurda que não existe meio de escapar dela.

E claro, percebo que até para os meus padrões – para o que já é comum em nível de absurdo nesses Editoriais – esse em particular parece ter passado do limite desde a linha um. Entra aqui o meu bom e velho disclaimer: não são verdades, não é pregação, não me atrevo a trazer para sobre as minhas divagações o peso de ideias como “significativo”.

Contudo, a pergunta que me levou a frente dessa página em branco, que me travou em frente ao monitor por horas de indecisão silenciosa sobre o que dizer – e principalmente sobre o que não dizer – talvez nunca seja trazida de novo. No meio da cacofonia diária, mesmo que ela continue a ser gigantesca, não nos faltam nunca questões a serem pensadas, opiniões para serem apresentadas. É o que farei aqui. Tome-a com crença, com ceticismo ou não a tome de jeito nenhum. Esta será somente mais uma opinião. Faça dela o que quiser.

Ao ser questionado se a TV tem suficiente representatividade, me vi silenciado de uma maneira inusitada – e brilhante. Claro, a questão não é nova, nem original. Cada grupo afetado pela falta dessa representatividade já vem clamando por ela bem antes que a minha aluna pudesse perguntar… Bem antes que eu pudesse pensar no assunto. Na verdade, bem antes de eu – e da maioria de vocês – estar sequer por aqui.

Entretanto, o que me silenciou não foi a resposta óbvia a pergunta. Afinal, a TV pode ter dado seus passos de bebê nas últimas décadas, mas está tão longe quanto poderia estar de realmente incluir. Não só a TV, a ficção ainda é muito culpada, presa ao entretenimento e aos romanceamentos necessários ao consumo. E claro, uma ironia aqui e ali, uma referência velada, um personagem construído especificamente para preencher o espaço demandando pelo pouco do “politicamente correto” que consegue figurar… Todas essas coisas existem e são aplicadas, formando parte do emaranhado que é essa questão.

O que realmente me levou ao silêncio foi perceber que até mesmo algo tão significativo já havia se tornando apenas “mais um” na lista de problemas da contemporaneidade. Que já não me debruçava sobre essa questão em particular por ser consumido por outras. E que nem mesmo na observação da ficção – algo a que me atenho mais ferrenhamente do que gostaria – isso vinha sendo considerado.

Mas em si esse já é outro problema. Sim, não é feito o suficiente, mas a TV, a ficção, o entretenimento, mesmo que por uma obrigação social, já plantam sementes dessa questão. Claro, eles mesmos se isentam de terem que lidar com a representatividade em si, mas trazem as demandas dela de alguma forma, para algum espaço, tentando assim considerar a sua parte nessa conta, de alguma forma, paga.

E não me entendam mal, poderia falar por outras tantas linhas sobre isso, transformando esse em mais um monólogo de pouca utilidade. A falta aqui mencionada, a questão em si, não será resolvida só por esse texto, muito menos no intervalo de qualquer número de palavras que eu, tedioso e insano, possa apresentar. Contudo, mesmo passos de bebê são passos. Não existe melhor momento para se falar da TV e da ficção do que o agora, nem melhor forma de questionar, de exigir, de mudar… De tomar a nossa parte no processo de concepção dessas estruturas.

Exemplos não faltam, exatamente na indústria, de grandes legados sendo construídos em resposta a essa falta de representatividade. E sim, para cada história de sucesso, dezenas de milhares falham. Mas uma coisa não anula a outra, simplesmente nos mostra que precisamos, como sempre, fazer mais, falar mais, querer mais. Por mais absurdo que pareça, simplesmente se entregue a esse exercício. Se você não vê a discussão, não ouve sobre ela… Se mesmo sendo algo tão significativo, parece estar longe de você, comece a pesquisar sobre isso. Comece a querer e a falar sobre isso. Afinal, se mesmo que a sua forma, com os seus meios, você consiga dar a essas questões mais um espaço para serem discutidas, já será um bom começo. Quem sabe… Talvez assim a indústria vá, realmente, ouvir.

About Richard Gonçalves

Richard Gonçalves
Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.