Impecável, La La Land é um novo clássico para uma nova era

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Às vezes surge um filme que nos faz lembrar o porquê amamos o cinema. Não só: nos lembram que é bom viver, que é bom colocar a cara na rua e quebrá-la de vez em quando. Que é bom se apaixonar e sonhar. Os melhores filmes têm esse poder. É por isso que estou absolutamente encantado com La La Land, o melhor filme de 2016 (e provavelmente o melhor de 2017 aqui no Brasil). Land é daquelas obras que já nascem clássicas, destinadas ao amor incondicional do público. Os risos que provoca, as lágrimas que faz brotar, o bem-estar que faz sentir; o musical de Damien Chazelle é brilhante do primeiro ao último segundo.

Ambientado em uma Los Angeles tão real quanto fabulesca, La La Land acompanha Mia e Sebastian, dois jovens que chegam à cidade em busca de seus sonhos. Ela quer ser atriz, ele quer abrir seu próprio clube de jazz. Os caminhos dos dois se cruzam, à moda dos bons e velhos romances, e a Cidade das Estrelas vê mais um amor nascer. A trama é simples, e o próprio desenvolvimento do roteiro acompanha um arco básico, mas Chazelle, que também escreve o longa, entende que as melhores histórias não precisam de grandes reviravoltas ou acontecimentos. É notável que o diretor e sua equipe e elenco percebam que um singelo romance já é épico, vibrante, musical e problemático por natureza.

E é essa beleza, das coisas simples, que engrandece La La Land. Antes do primeiro beijo, o casal flutua em um céu abarrotado de estrelas; ao correr apaixonada em direção ao amado, um poste rodeado de borboletas ilumina a rua e dá o tom do sentimento da moça. É como se Chazelle pegasse a realidade pura e traduzisse em momentos literais, de beleza ímpar. É como uma realidade alternativa: quem sonha e quem ama, está em outro mundo, sob outros efeitos. E o cineasta entende isso como ninguém, como prova a primeira vez que o casal conversa e dança, frente ao pôr do sol de Los Angeles. Os dois sapateiam, se cruzam, pulam e aos poucos, entram em sintonia. Desperta ali um sentimento dos dois lados da tela: o amor que desabrocha do lado de lá, e a paixão do público do lado de cá.

E é por isso que Chazelle deve ser fortemente elogiado – além de merecer todos os prêmios de Melhor Direção. O jovem, que já havia surpreendido com o estupendo Whiplash, executa o trabalho com um misto inigualável de técnica e sensibilidade. Enquanto emociona ao apostar em closes que revelam os expressivos rostos do elenco, o diretor ainda cria sequências incríveis geralmente em planos sem cortes. Logo no início, na já famosa cena do engarrafamento, Chazelle aposta em um longo plano sequência que vai e volta na rodovia, entra e sai de carros, sobe e desce, gira, num belíssimo trabalho de câmara. Mas além disso, ainda devemos aplaudir o fato de que diversos dançarinos e atores foram envolvidos nesta que deve ser uma das mais insanas e complexas cenas dos últimos anos.

La-La-Land-headerAmparando o apuro técnico do cineasta, Land ainda conta com uma fotografia totalmente em CinemaScope, uma tecnologia de filmagem e projeção conhecida na época dos grandes musicais e westerns da antiga Hollywood. O jogo de luz, sombras e lentes criado por Linus Sandgren remete a Cantando na Chuva e a todos os clássicos da época. Com isso, um irresistível sentimento de anacronismo aparece: enquanto os carros, prédios e alguns elementos atestam a contemporaneidade da trama, a fotografia, aliada à direção de arte e figurinos, resgata um aspecto retrô.

Os figurinos aliás, que também devem levar o Oscar, são um espetáculo à parte: além de belas, as roupas contam uma história. Os vestidos, blusas e casacos de Mia, bem como as gravatas e ternos de Sebastian, representam os sentimentos dos personagens. Repare em Sebastian: no início, ainda perdido, sozinho e com problemas financeiros, o sujeito aparece frequentemente vestindo cores escuras. Ao conhecer e passar os dias com Mia, surge geralmente de branco, voltando aos tons escuros quando surgem novos obstáculos. O mesmo ocorre com Mia, e só não comentarei mais sobre estes detalhes pois isso entregaria spoilers graves sobre a trama.

Arrematando ainda temos a trilha de Justin Hurwitz. Certa vez, Peter Jackson, diretor de O Senhor dos Anéis, comentou que os melhores temas musicais eram aqueles que o público decorava e poderia assobiar ou cantarolar mesmo sem querer. É o que aconteceu com os temas de Star Wars, Indiana Jones, A Bela e a Fera e tantos outros. Assim, Hurwitz merece aplausos por criar ao menos três temas lindos e absolutamente viciantes. Another Day of Sun, City of Stars e o tema do casal grudam na memória, e desafio qualquer um a sair do cinema sem cantarolar uma destas composições. Além disso, vale apontar que mesmo aqueles que não gostam de musicais podem aprovar La La Land. Isso porque o filme está mais para Apenas uma Vez, onde os personagens cantam em momentos isolados, do que para Os Miseráveis, onde todos cantavam sem parar.

Mas La La Land não seria tão bom sem a presença do casal protagonista. Ryan Gosling e Emma Stone são o casal perfeito, e é impossível não admirar o charme dele ou a autenticidade dela, que dança e canta da forma mais tenra possível. Mas embora Gosling surpreenda com seus talentos como ator, dançarino e cantor, é mesmo Stone que faz deste o ponto mais alto da carreira. Mia provavelmente será o papel pelo qual a atriz será lembrada, e não se surpreenda caso ela leve todos os prêmios da temporada. E merece: com talento para despertar o riso fácil, Stone não cai nos clichês óbvios e constrói uma figura humana, real sob todos os aspectos e que ainda emociona, como na cena em que “aqueles que se atrevem a sonhar” são homenageados.

Ganhando ou não os prêmios, sendo ou não um sucesso de bilheteria, La La Land é uma apaixonante homenagem ao cinema e seus amantes; ao amor e seus altos e baixos. É, também, um aceno à passagem do tempo, que acaba nos trazendo as verdades. E é o tempo, infalível, que fará de La La Land o clássico que ele já é.

La La Land - Cantando Estações

Nota do filme - 10

10

Crítica de "La La Land - Cantando Estações", de Damien Chazelle.

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About Matheus Pereira

Matheus Pereira
Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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