Insana, violenta e viciante: American Gods é a estreia do momento

Imagem: Starz

Logo de cara é possível perceber algo importante em American Gods: trata-se de uma série corajosa. Já nos primeiros minutos do piloto acompanhamos uma narração em off que, amparada por cenas belissimamente fotografadas, parece não trazer nada relacionado à trama central do programa. Aos poucos, vamos descobrindo o que está por trás daquela história e um banho de sangue toma conta da tela. Mas não é algo velado: o que podemos presenciar é carnificina pura, com litros de sangue jorrando para todos os lados.

Também pudera: o Starz é um canal conhecido por dar total liberdade aos produtores de suas séries. É do canal a finalizada Spartacus, um dos shows mais sangrentos dos últimos anos, assim como Ash VS Evil Dead que é outra produção da emissora. Por aí já podemos ter noção de que é possível esperar tudo de American Gods. Não espere polidez, pois palavrões, violência e sexo serão constantes nos capítulos (há uma bizarra cena de sexo logo no piloto – você reconhecerá quando vê-la).

Além do canal, a violência gráfica pode ser explicada por outro motivo: Bryan Fuller. O criador de American Gods ganhou maior notoriedade por comandar Hannibal, que trazia uma abordagem visual arrojada, que dava destaque à violência. Se Fuller extrapolava limites em uma série de canal aberto como Hannibal, imagine o que ele é capaz de fazer em um projeto exibido em um canal fechado e liberal. O resultado é uma coragem de cair o queixo e um apuro estético notável. Quem assistiu a série do assassino canibal irá se deliciar com American Gods e reconhecer diversas características de Fuller; estão lá as narrações em off, as alucinações representadas em sequências surreais, a câmera lenta, o ritmo cadenciado, a fascinação por chuva e sangue e os personagens que filosofam sobre suas existências. É uma criação de Fuller do início ao fim, mas ainda mais excitante e envolvente que suas produções anteriores.

Dito isso, é possível aguardar toda a qualidade técnica que o nome do showrunner sugere. A começar pela fotografia, que enche os olhos principalmente nas sequências noturnas. A direção de arte merece elogios à parte: trabalhando diversos cenários em diferentes perspectivas e abordagens, a série nos entrega um visual digno de cinema. Afinal, estamos falando de deuses, e a escala não poderia deixar a desejar.

Além de Fuller, Michael Green, também showrunner da série, injeta sua característica pop e épica ao projeto. Além de uma ótima carreira na TV (ele escreveu diversos roteiros de Everwood e criou a subestimada Kings), Green está por trás dos roteiros de três grandes sucessos de 2017 (Logan, Alien: Covenant e Blade Runner 2049). Green sabe trabalhar com mitologias extensas já estabelecidas, além de saber trabalhar com universos previamente criados e reverenciados, como é o caso de American Gods, que é baseada no Best-seller homônimo de Neil Gaiman.

A coragem da série ainda vai além ao revelar o verdadeiro protagonista da história: Shadow Moon é vivido por um ator relativamente desconhecido, e sua presença como centro narrativo surpreende. Embora esteja amparado por nomes como Ian McShane e Gillian Anderson, Rick Whittle é o protagonista definitivo de American Gods, e o sujeito não faz feio: embora seja um ator de claras limitações dramáticas, Whittle segura a barra a carrega o projeto com honras, sem desapontar. Sua presença é imponente, e sua persona parece encaixar perfeitamente com Shadow Moon. Tê-lo na linha de frente é uma jogada arriscada dos produtores, mas que certamente dará certo.

American Gods é, enfim, entretenimento de primeira, com roteiro afiado e visual irretocável. Viciante, a série quase exige uma maratona, mas como será exibida semanalmente, deixará o público louco para saber os próximos passos dos personagens. Envolvente e direta, Gods traz ação, fantasia, suspense e muita loucura. Tudo batido numa mistura com muita coragem e história boa.

Ficou afim? Então se programe, pois American Gods estreia no canal Starz no dia 30 de abril. Aqui no Brasil ela chega um dia depois, no dia 01 de maio, pela plataforma da Amazon.

American Gods

Nota do episódio - 8.5

8.5

American Gods é corajosa, violenta, envolvente e diferente de tudo que você já viu.

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Comments

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About Matheus Pereira

Matheus Pereira
Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.
  • BernardoVieira

    Eu confesso que fui assistir “American Gods” com o coração aberto porque não sabia o que esperar. A equipe envolvida era realmente excelente, mas como não estamos naqueles tempos onde isso seria sinônimo de qualidade, resolvi dar uma chance pela história propriamente dita.

    Foram os sessenta minutos mais doidos que assisti nessa temporada. É ótimo ter um conteúdo assim, que saia do lugar comum, seja ousado, enxergue algo que os produtores comuns não compreendam. Concordo com você quanto aos aspectos técnicos e a fraqueza de Rick Whittle, mas quando tínhamos Ian em cena, não olhava para outro ator.

    Se tiver que identificar problemas, certamente diria que os planos da narrativa ficaram um pouco confusos, porque eram cortados repentinamente, mas diante de tamanha novidade e adrenalina, isso é o de menos.

    Excelente texto, mais uma vez.

  • Fabiana

    Não gostei. Hannibal tem muita mais bom gosto e sutileza, mesmo contando a histórica de um psicopata canibal. American Gods só tem violência pela violência, além de personagens com os quais não consegui empatizar. Não faz o meu gênero e, em minha opinião, foi um pouco superestimada. Spartacus, por exemplo, tem também muita violência, mas personagens bem mais carismáticos. Além disso, não vi nada muito inovador.