Insatiable, série da Netflix, promove questões perigosas sobre emagrecimento

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Os pontos de vista e opiniões expressas nesta peça são exclusivamente do autor e não refletem necessariamente a posição do Mix de Séries como um todo.

Hollywood está passando por um momento difícil, com praticamente um escândalo a cada semana. A Netflix não ficou imune a essas polêmicas quando, no mês passado, divulgou o trailer de sua série original Insatiable. Logo, a internet estava em alvoroço, provocando críticas generalizadas com direito a uma petição para impedir o lançamento do programa, que ganhou mais de 230.000 assinaturas.

Mas o que há de errado com a série? Primeiramente, vamos à premissa: a personagem principal, “Patty gordinha”, é intimidada no ensino médio por causa de seu peso, até que em um verão ela é socada no rosto exigindo que sua mandíbula seja fechada, apenas para voltar das férias magra, “gostosa”, atraente e confiante. Ela, então, decide se vingar de todos aqueles que a prejudicaram de alguma forma.

Após assistir aos episódios da série da Netflix, me deparei pensando em inúmeras questões erradas que a série aborda, e que podem ser tratadas como perigosas – e sérias. Vamos a elas.

Fazer comédia sobre as questões de perder o peso

Lembra do Professor Aloprado de Eddie Murphy? Havia uma certa inocência naquela visão, mas se olharmos a fundo, tudo não passa de uma piada de mau gosto. A perda de peso é sempre algo doloroso e particular, e transformar isso em um fórmula para piada não é uma boa escolha. É necessário dar vozes a estes problemas, com soluções. E fazer isso de uma forma mais séria, talvez, dê mais credibilidade. Um exemplo muito bom de tratar o assunto é como a série This Is Us faz. Com Insatiable, a Netflix está tratando de um assunto delicado e não medindo as consequências – da mesma forma que 13 Reasons Why fez com bullying, suicídio e estupro. Na série, as piadas de gordo, o menosprezo aos gordos e a vergonha de ser desta forma são todas enfatizadas como “gatilhos para provocações”, e isso não é legal.

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A série defende a visão de que ser gordo é ser infeliz

É preciso um desenvolvimento de personagem muito fraco para chegar à noção obsoleta de que as pessoas gordas devem ser infelizes, mas fazer disso toda a premissa do programa? Isso é não só uma redação preguiçosa mas reforça estereótipos negativos que francamente não deveriam ainda serem discutidos em 2018. O movimento positividade corporal foi lentamente ganhando força nas últimas décadas, e enquanto ainda há um longo caminho a percorrer – particularmente em Hollywood – teve um impacto profundo na mudança de perspectivas, permitindo uma maior inclusão de todos os tipos de corpo.

Equipar a personagem principal sem interesses notáveis ​​ou traços de personalidade em seu estado de sobrepeso é degradante, prejudicial e simplesmente uma versão falsa da vida real. Em contraste, Dietland da AMC criou uma heroína complexa – que, embora lute contra seu peso – não é apenas definida por ele, e proporcionou um arco muito mais complexo.

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A série defende que mudar drasticamente o seu visual vai mudar instantaneamente a sua vida

Isso, de fato, está longe de ser a vida real. Hollywood passou anos nos convencendo de que se você emagrecer, tingir o cabelo, largar os óculos, e etc, o amor da sua vida apareceria em um instante. Claro, há uma magia por trás de certas histórias, mas sabemos que isso é “conversa para boi dormir”. Há uma mentira por trás disso, que acaba virando uma filosofia para a série. Mudar o seu peso não transforma você em uma “nova pessoa’. A mudança da aparência física não faz você ficar menos miserável. E essa ideia não é só reforçada por Patty, como também pelo seu treinador Bob, que a quer transformar de qualquer forma em “Rainha da Beleza”.

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A realidade de se perder peso não é retratada na série

A forma como a protagonista perde peso é, incrivelmente, bizarra. Para não dizer sombria. Após apanhar, e deslocar o maxilar, ela acabou tendo de só ingerir líquido e, assim, ficou magra. A forma como uma pessoa deve perder o peso precisa ser tratada. Não que isso vá induzir uma pessoa a sofrer um acidente ou se envolver com algum tratamento hospitalar para perder peso, mas tal fato também pode acarretar uma busca excessiva que pode se tornar prejudicial ao invés de saudável – e isso é muito sério.

 O fato é que doenças como Bulimia e Anorexia, muitas vezes, levam a hábitos prejudiciais e destrutivos, enquanto os transtornos alimentares têm a maior taxa de mortalidade do que qualquer doença mental.

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Imagem: Netflix/Divulgação
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A série ainda promove que a vingança no ensino médio pode ser divertida

Um dos aspectos mais perturbadores da série é a falta de prevenção sobre o tema da vingança no ensino médio. Até agora, os tiroteios em escolas já se tornaram em comum e são tragicamente esperados na América. O The Guardian relatou em maio, após o tiroteio na Santa Fe High School, que “alunos do ensino fundamental e médio cresceram praticando exercícios de tiro ativo junto com treinamentos de incêndio, preparando-se para como deveriam responder se um homem armado atacar”. A análise de números de tiroteios no ensino médio “mostra que mais de 150.000 alunos que frequentam pelo menos 170 escolas primárias ou secundárias nos Estados Unidos sofreram com tiroteio no campus desde o massacre de Columbine em 1999”.

Portanto, devemos nos perguntar se deveríamos ter um entretenimento focado na violência e vingança no ensino médio. Isso é algo responsável em 2018? Os defensores da liberdade de expressão sem dúvida apontarão para produções anteriores do gênero. Mas elas foram produzidas em um mundo muito diferente. Portanto, Insatiable peca nessa abordagem, reduzindo a série em uma produção porca e mal feita.

Ao final da maratona, não acho que a série deveria ter sido metralhada apenas por um trailer – ele mostra pouquíssimo de sua trama. Mas certamente, quando terminamos os episódios, a sensação que fica é a de perda de tempo com um material pobre, que presta um desserviço ao invés de entretenimento.

Uma pena que a Netflix insista em produzir séries do tipo…

Leia mais: Estupro em 13 Reasons Why é pesado e foi exibido em hora errada

About Anderson Narciso

Anderson Narciso
Mestre em História, apaixonado por mídias, é o editor responsável e idealizador do Mix de Séries. Eterno órfão de Friends, One Tree Hill e ER, acompanha séries desde que se entende por gente. No Mix é editor de colunas e de notícias, escreve a coluna 5 Razões e resenha a série Gotham.