Jericho e a tentativa apocaliptica de reconstrução

Imagem: Divulgação/CBS

Se imagine em um cenário catastrófico. Você é natural de uma cidade pequena, não mais do que 10 mil habitantes, e depois de cinco anos sem visitar sua família, você o faz logo quando um ataque terrorista acontece, dizimando 23 cidades americanas e milhões de pessoas são mortas e/ou expostas pela radiação das bombas nucleares. Se imaginou? Pois saiba que é assim que a série Jericho começa sua jornada.

Lançada em 2006 pela CBS, Jericho veio para trazer mais um ambiente catastrófico para a televisão americana (não bastou Lost). Contava a história de Jake Green (Skeet Ulrich), um piloto de aviões que após cinco anos, retorna a sua cidade natal, Jericho, uma pequena cidade do Kansas. Lá, ele reencontra sua família e amigos, mas não fica muito tempo. Após mais uma repreensão vindo de seu pai, o prefeito Johnston Green (Gerald McRaney), Jake parte em direção à San Diego, mas antes mesmo de sair do perímetro da cidade, ele visualiza uma explosão com nuvem em forma de cogumelo, muito semelhante a uma explosão nuclear. Voltando à cidade, Jake se vê as voltas com uma cidade confusa, sem saber o que realmente ocorreu e completamente isolada, sem nenhum meio de comunicação. Após a poeira baixar, Jake, sua família e a cidade têm de aprender a se defender sozinha.

Admito, gostaria muito de ver a série com outros olhos que não fosse olhos críticos. Mas com a maratona que fiz, consegui ter dois pensamentos distintos. O primeiro era que a série tinha um potencial enorme. Trazer uma população isolada por um evento desconhecido até ver onde a civilização dela funcionaria. Mas o pensamento que reinou durante todo a maratona foi que Jericho acabou sendo uma grande bagunça. No início, ao invés de vermos medo, confusão e desentendimentos, vimos um povo paciente, “em paz” e tranquilo, meio que sem se tocar da tragédia que ocorreu. Personagens como Robert Hawkins (Lennie James), um misterioso homem que se mudou com a família para Jericho alguns dias antes das bombas serem explodidas era a personificação da confusão que foi os primeiros episódios. Faltou desenvolvimento de personagens, principalmente em Jake, que deveria ser o principal, mas acabou sendo bem meia boca, deixando toda a ação e bons plots para Hawkins, que a cada episódio era mais suspeito ao nosso ver.

Ao longo da primeira temporada, a série foi entrando nos eixos, trazendo alguns momentos tensos e inesperados. Descobrimos que Hawkins realmente não é o que parece, e a existência dele na série traz o inevitável: a explicação dos ataques e como ele está ou não envolvido nisso. A melhor parte da temporada, entretanto, é a season finale, que deixou um cliffhanger bem cretino pra quem queria uma solução, até porque a CBS, mesmo com uma temporada completa de 22 episódios, decidiu cancelar a série, devido a baixa audiência. Porém, após uma ação dos fãs ao enviar nozes à emissora (em uma referência a palavra que o protagonista fala no episódio final), eles voltaram atrás e assinaram um arco de sete episódios na midseason, apenas para encerrar a história. Os próprios produtores afirmariam após em entrevista que sete episódios seriam insuficientes para encerrar todos as histórias. E de fato foi o que aconteceu. Muitos plots encerraram a série em aberto, sem nenhuma indicação de que estavam finalizados, ou se encaminhando para o final, o que deixou os fãs bem frustrados.

A segunda temporada trouxe uma ordem de episódios interessantes, pelo ponto de vista dos sobreviventes. A adição de personagens e um plot político bem obscuro foi o que segurou a tensão da série. O foco era na reconstrução dos Estados Unidos como país, mesmo que ele ainda fosse, apesar das condições de sobrevivência. No episódio final, tivemos Jake e Hawkins tentando salvar o dia e o país de mais um golpe político, enquanto a população lidava com a reconstrução da cidade e do país. Uma pena o final ter ficado em aberto, dando margem para novas temporadas, que infelizmente não ocorreram (até 2012 ou 2013, quando rolou um rumor que a Netflix poderia comprar os direitos da série e continuá-la de onde parou).

Jericho, apesar de ser bagunçada e estranha no início, no seu fim mostra o que todas as séries e filmes com a temática apocalíptica mostram: a reconstrução, como pessoas e como país. Mostra que o ideal de patriotismo, sempre muito grande nas produções e na vida dos americanos, ali era muito volátil, e que nem sempre o que o governo diz e repassa é o certo, o verdadeiro. A série mostrou um golpe político muito bem arquitetado, ainda que cruel e desumano. Mostrou a histeria coletiva, a maldade humana e até mesmo a insensibilidade, falta de compaixão e caráter. A série simulou o que realmente pode ocorrer, um população que nos momentos mais difíceis pode ser piedosa e perversa, e não mede esforços para tirar o seu da reta.

Com apenas 29 episódios, Jericho é uma série tranquila de se maratonar. Embora eu tenha meus dois pés atrás com a produção, não nego que foi um ótimo passatempo para as férias. É gostosa de assistir e tirar suas próprias conclusões. As duas temporadas estavam disponíveis no Netflix, porém a empresa retirou a série de sua grade. Para quem já assistiu, nunca é ruim repetir a dose.

About Ana Maria de Oliveira

Ana Maria de Oliveira
Gaúcha de tradição, colorada de coração, jornalista por vocação e seriadora por livre e espontânea opção. Aqui no Mix de Séries é editora de reviews, tradutora de notícias e escreve reviews de Chicago Fire.