Mesmo lenta, Mindhunter reflete a mudança de atitude que queremos na sociedade

Imagem: Netflix

Um drama criminal sem apelo, mas muito bem produzido.

A premissa de policial/investigador, que vive tanto para o trabalho imerso em escuridão como na mente dos criminosos, apresentando sempre heróis e vilões em grande conflito, é sempre utilizada no cinema e na TV. Que a indústria do entretenimento é fascinada com assassinos em série não é novidade para ninguém. O gênero de ficção criminal teve um enorme impulso nos anos 90 e perpetua até hoje. O Silêncio dos Inocentes, Hannibal, Seven, Zodiac, Dexter, True Detective, The Following, The Fall, só pra citar alguns exemplos. É uma paixão antiga que permanece viva.

Mindhunter, a nova série da Netlix, é baseada no livro homônimo que apresenta as experiências do Agente Ford com encarcerados e seu estudo sobre suas semelhanças e como categorizar suas técnicas e motivos. A série foi criada pelo dramaturgo Joe Penhall, que assina a primeira temporada com Jennifer Haley. Os produtores executivos incluem o David Fincher (House of Cards) e Charlize Theron (Girlboss).

Conta a história de Holden Ford (Jonathan Groff) (Looking/Glee) um jovem e promissor agente do FBI que se especializa em negociação de reféns, que é reatribuído à sede em Quantico como instrutor. Ele começa um estudo comportamental sobre a mente dos assassinos em série numa época que o comportamento criminoso era visto como “criminosos são pessoas doentes” e acabava nisso. Dessa forma o agente entende que examinar as raízes da psicologia criminal poderia ser um novo e importante campo de pesquisa.

Ele encontra ajuda no agente Bill Tench (Holt McCallany) (Clube da Luta), um especialista em ciência do comportamento que se torna seu parceiro no projeto interno do FBI. Tench atua como intérprete cético e de linguagem humana enquanto Ford se mostra mais aberto aos relatos e mais acessível. Os dois atravessam o país entrevistando policiais e condenados e acabam ajudando em alguns casos atuais.

Completa a equipe a psicóloga Wendy Carr ( Anna Torv ) de Fringe. Ela ajuda a aplicar as entrevistas com mais rigor científico. Assim, o time começa a usar os dados coletados para ajudar os departamentos policiais locais a resolver crimes.

A premissa de Mindhunter é muito familiar aos fãs de séries do gênero, mas sua execução é completamente diferente. A nova aposta da Netlix apresenta uma trama densa, obscura e lenta. Construída em tom de conversa na tentativa de entender como é a cabeça de um assassino e o que o motiva. Muito dos criminosos que são apresentados já estão presos o que intensifica a sensação de entrevista. O roteiro e a direção dão a sensação de terror e frieza. Existe algo de muito errado com essas pessoas que cometem atos bárbaros por puro prazer ou sadismo, o que faz parecer para alguns que o mundo está quebrado e jamais poderá ser consertado. Isso traz discussão para os personagens e para o publico. A narrativa grita por algum momento grandioso ou alguma grande descoberta, mas nada de grandioso acontece.

Os assassinatos não são apresentados como um flashback ou lembrança do acusado ou em ação presente. Os atos hediondos são descritos por seus executores. Dessa forma a violência é mostrada como imagem gráfica em fotos nas pastas de arquivos.

Várias cenas apresentam Ford e Tench discutindo casualmente os motivos por trás de um crime quando pessoas que não estão imersas em seu trabalho observam desconfortavelmente. Como em uma cena no avião que um passageiro tem acesso a fotos de um crime terrível e pede para trocar de lugar. Outro momento interessante é quando Ford visita Edmund Kemper (um assassino adepto da necrofilia). As cenas são bem escritas, envolventes e um pouco desconfortáveis, principalmente a cena do ultimo episódio.

Imagem: Netflix/Divulgação

Um dos grandes temas de Mindhunter é a compartimentalização. O roteiro de forma interessante mostra como colocamos diferentes máscaras para lidar com diferentes situações e como compartimentar demais pode ser perigoso. O próprio Ford é exemplo disso. O texto ainda apresenta pessoas racistas, sexistas e homofóbicas (odeio essa expressão). Dos anos 70 para cá pouca coisa mudou.

Algo que me incomodou além do ritmo é que há pouca ou nenhuma indicação de por que os episódios começam do mesmo jeito, mostrando um mesmo lugar em momentos diferentes com determinado personagem.

Existe aqui certa qualidade cinematográfica. Uma série bem dirigida, mas que traz um ritmo e desenvolvimento muito lento, o que pode afastar uma parte do público. A ambientação dos anos 70 é convincente e reforçada na trilha sonora para compor o conjunto da obra.

Groff e McCallany apresentam boas performances. Groff tem um ar de inocência que pode incomodar um pouco por não condizer com seu trabalho, mas com o passar dos episódios percebemos como sua mente funciona e seu perfil vai ganhando forma, revelando um agente astuto e determinado.

Mindhunter é a televisão adulta que faz refletir e questionar sobre a mudança de atitudes que queremos e precisamos na sociedade. O texto permite o publico rir e ficar incomodado com o horror das histórias narradas. Sem dúvida traz um conteúdo menos perturbador e mais analítico. Para entender a mentalidade de um louco é preciso mergulhar no mar de lama que é a sua cabeça. A série não é perfeita, muito menos bem sucedida em tudo que se propõe. Mas tem sua relevância. Ford e Tench são baseados em homens reais que foram fundamentais para a Unidade de Ciência do Comportamento do FBI, o que permitiu os operadores da lei a entender a natureza da criminalidade. E isso já é um muito válido, mas para se manter como uma série de TV de sucesso o roteiro, direção e produção precisam ser mais ousados e apresentar um ritmo mais acelerado fazendo uso da fotografia cinematográfica. A sensação é que assistimos horas de aulas teóricas com sede de partir logo para prática. É uma nova forma de falar sobre assassinos em série… Apenas não sei se essa é a melhor forma.

MINDHUNTER – 1ª TEMPORADA (CRÍTICA SEM SPOILERS)

Nota da temporada - 7.5

7.5

Crítica da primeira temporada de MINDHUNTER, série original Netflix.

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About Yuri Alves

Yuri Alves
Bacharel em Direito, fascinado pelo universo dos heróis e um viciado por séries e filmes. Um escritor a procura de seu espaço. Amante dos livros e da boa música. A série da sua vida, The OC. No Mix, é responsável pela review da série Midnight, Texas, The Defenders e Dynasty.