O que esperar da quinta temporada de Orange Is The New Black?

Imagem: Reprodução/Netflix

A grande questão desde quando encerramos a quarta temporada de Orange Is The New Black é: afinal, Daya atira ou não atira? Mas para além dessa tão esperada resposta, que acredito será dada logo nos minutos iniciais por motivos que explicarei mais à frente, existe todo um universo de expectativas que vem sendo alimentado nos últimos meses. E antes que você se pergunte se eu vi os episódios que vazaram há pouco mais de um mês, a resposta é não, não e não. Escolhi não vê-los por motivos que renderiam outra discussão. Portanto, este texto está livre de spoilers e livre de arrogância, porém, cheio de desejos narrativos, estando puramente baseado em um amplo e vasto conhecimento (lembram-se do sem arrogância, ?) de quatro anos de OITNB.

Lá no finalzinho da temporada, vimos uma nova leva de detentas chegarem a Litchfield e novas beliches sendo instaladas nos dormitórios. A maioria esmagadora delas são negras e até vi por aí, no mundo da internet, que poderia ser um indicativo de que a temida Vee estaria retornando à penitenciária. Gente, Vee está morta! Foi-se há muito, avassaladoramente atropelada por Rosa. O que não significa que eu não concorde com a atmosfera de seu retorno. Explico. Se bem se lembram, sua chegada foi um acontecimento, como se o terror estivesse invadindo Litchfield, como se existissem fases que variam com a presença da personagem. Levando para a atual conjuntura, pensando melhor ainda, o terror já está lá. É o caos que está a caminho. Como disse, é uma questão de atmosfera. Mas há ainda algo mais contundente do que uma vibe. Há na escolha de uma maioria negra, uma crítica social embutida, apontando a gritante disparidade que existe nas origens étnicas da população carcereira. Até então parecia haver um equilíbrio entre os grupos, característica que não se confirma aqui do lado de fora e que muito provavelmente será um dos pontos abordados nesta temporada. Ou seja, a população negra é o grande alvo do sistema judiciário e se isso não era claro, como um reflexo de nossa sociedade, tornou-se indiscutível. 

Voltando à primeira questão que nos deixou de cabelos arrepiados ao final da quarta temporada: Daya atira ou não atira? O palpite é que logo nos primeiros minutos vamos vê-la atirando. Se disso vai resultar uma morte ou não, aí já é palpite demais até para mim. Mas arrisco que o disparo será dado logo de início não só por ter sido divulgado um teaser com o primeiro minuto do primeiro episódio da temporada estreante, porque também existe uma proposta de ritmo de desenvolvimento de trama que não dará muita margem para – como podemos colocar de uma forma mais suave? – enrolação. Todo o enredo da temporada, ou seja, seus treze episódios serão contados ao longo de três dias. É um enredo que temporalmente será colocado a toque de caixa porque tenho a impressão de que ele precisa ser feito assim. Oras, estamos falando de uma rebelião!

Imagem: Reprodução/Netflix

Umas das grandes críticas às primeiras temporadas de OITNB é justamente um tom bastante romântico do sistema penitenciário que parecia tratar aquela realidade mais como uma colônia de férias do que como um enclausuramento que de fato é. Não digo isso pela abordagem das personagens e por seus conflitos e dilemas interpessoais e étnicos, mas porque a abordagem da Penitenciária de Litchfield era sim leve. Salvo na primeira temporada em que éramos apresentados àquelas personagens, a segunda e a terceira temporada pesaram a mão no conto de fada de detentas, mesmo a gente sabendo que se trata de uma ficção. Por isso, quando nos detivemos diante de uma temporada tão pungente e necessária como foi a quarta temporada, com todas as suas questões sócio-políticas lançadas e dilaceradas, um sopro de confiança na responsabilidade social da série foi dado.

Repito: estamos falando de uma rebelião. A régua de conflitos e enfrentamentos terá que ser do que foi apresentado no ano anterior para cima. É quase como se não aceitássemos menos do que isso por simplesmente urgimos por isso. Um levante tal qual o que vamos ser apresentados não deve ser passivo nem se espera que seja. Elas já tentaram a via pacífica e ainda mais massacradas foram. O que aquelas personagens têm vivido é uma onda de violência e de abuso físicos, emocionais e psicológicas sem qualquer imputação de responsabilidade por parte do Estado, a instância que deveria zelar pelo bem-estar de todas as detentas. Elas tentaram um posicionamento através da desobediência civil, diante da infinitude de abusos e pela insegurança coletiva tendo como resposta mais violência ainda. É como se tivessem desenhado: olha, vocês não têm direito a nada, são a escória da sociedade. Querem pagar de bonitas subindo nas mesas? Vão apanhar mais. E então temos todo o drama (leia-se descaso absurdo) a partir da morte de Poussey, quando a única via possível é um levante.

O que quero dizer com isso é que não esperem uma Orange do início da série. Esperem uma Orange muito mais carnal, visceral e violenta. Aquelas mulheres chegaram a um ponto de suas vidas e de sua existência dentro do sistema prisional que não deixou alternativa senão a tomada do poder e do uso do que for necessário para terem suas demandas atendidas.  E aí que acho que vai morar a grandiosidade dessa rebelião porque eu tenho em mim que elas terão, ainda que a duras penas, por se tratar de uma dificílimo processo de construção e coesão de uma ideário, o desenvolvimento de uma consciência de coletividade, de respeito e de dignidade das quais são tão acusadas de não terem. Ah, e já que falamos também de relações interpessoais, não deve faltar cumplicidade.

E como tudo isso é simbólico para a conjuntura sócio-política mundial. A citação a “O Senhor das Moscas” na temporada passada não foi à toa.

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About Melina Galante

Melina Galante
Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.
  • Juk

    Eu vi os episódios vazados, mas eles não estavam completamente prontos, e era obvio que faltava algumas coisinhas na edição. E eu faço questão de ver tudo de novo, pois não me canso de OITNB <3
    E pelo que vi, a temporada está ótima, mantendo o folego que a quarta temporada teve.