Orange Is The New Black – 5×04 – Litchfield’s Got Talent

Imagem: Netflix/Reprodução

“Vai se apresentar ou não?”

Esqueçam que Caputo pediu para abortar o plano de fuga ao ver Linda/Von Barlow. Foquem na arma, gente! Foi sua posse que determinou todo episódio. A arma apareceu e se eu tivesse sido mais espertinha, poderia ter apostado em Gloria como responsável e nova proprietária do artefato. Para me fazer ainda mais de otária, a brincadeira de Angie e Leanne de puxar as calças das colegas também era um sinal de que nem tudo era riso. Porque desse trote, a arma foi parar no chão do dormitório e tal qual a brincadeira da “galinha gorda”, as detentas foram em cima da arma,  e para o desespero geral, Angie detém a nova posse, super apoiada por Leanne.

Mas disso tivemos uma das sacadas mais incríveis da série até agora, além de ter sido algo super relacionável: um show de talentos em Litchfield  onde os guardas/reféns seriam o calouros e as detentas as juradas. Formidável como o roteiro conseguiu colocar em cheque todos os padrões e estereótipos desses reality-shows, apontando e criticando expectativas, formatos e desfechos de um conteúdo tão popular. Destaques vão para Ruiz e Linda que, estando cada uma em sua posição, conseguiram entrar no jogo proposto.

O ápice do concurso de talentos, sem sombra  de dúvidas, foi a performance de Stratman, que trouxe um inversão de abordagem por ter objetificado e explorado um corpo masculino, algo muito potente se considerarmos toda uma tendência à objetificação do corpos femininos em tanta produções audiovisuais, e se considerarmos também que aquelas mulheres também são constantemente exploradas sexualmente, seja pelo assédio moral ou físico. Um extra foi ver Caputo sendo preso no banheiro químico. Eu até me simpatizo com Caputo, mas entendo o colocarem como o responsável por tudo. De certa forma, ele ocupa uma posição e defende posições que o fazem responsável.

Imagem: Netflix/Reprodução

Enquanto isso, Suzanne armava um ritual espírita para invocar Poussey e garantir que ela estivesse em paz em outros planos. O grande ponto aqui é que nem Taystee, nem Soso estão sabendo respeitar seus papeis de viúva, cada uma seu nível de relação. Na sequência temos que ovacionar Cindy por ter seguido uma linha tão racional e consciente no meio do turbilhão.

Pelos escritórios, a melhor amizade que poderia ter surgido ganha cada vez mais força, imbuída por uma veia satírica das instituições e de seus procedimentos. Estou falando de Flores e Red afogadas em vitaminas, papeis e alucinações. Está incrível. Disparada uma das minhas partes favoritas da temporada.

Para fazer valer a estrutura tradicional da série, reapresentada no segundo episódio, os flashbacks aqui nos apresentaram uma primeira parta da história pregressa de Abdullah, sem muito entregar os motivos que a levaram a Litchfield. Peguei-me pensando em algumas possibilidades: será que ela matou alguém? Será que essas caixas que ela empacotava eram algum tipo de fraude? Questões para episódios mais a frente (porque dificilmente eles vão retomar a história da personagem tão logo).

Voltando ao tempo presente, do lado de fora da prédio, novas configurações se formavam e o ar despretensioso de Vause de não querer se envolver com nada ganhou um corpo de resistência à rebelião. E pelos corredores a perseguição às regalias de Judy King absorveu ares de uma violência física e simbólica que muito provavelmente trará péssimas consequências ao movimento. A cena final, com Judy “crucificada”, Jones desesperada e Helen e Brandy vestindo hijabs, com toda aquela confusão e aquela trilha sonora, é de um efeito devastador de impactante. É de um simbolismo magnífico sobre tantas instituições – novamente elas.

O que me leva a pensar e terminar com uma observação: por várias vezes ao longo desse início de temporada, Sankey foi incluída no grupo de nazistas e ela sempre corrigia dizendo que não era nazista, “apenas” supremacista. Mas neste episódio, quando mais uma vez incluída entre as “cabeças raspadas”, ela ensaiou se justificar, mas deu de ombros. É que, às vezes,  atingimos um ponto em que não adianta lutar contra o que se construiu. A não ser que você esteja com a disposição de reconstruir.

P.S.: E esse governador?? Alguém me explica tamanha precisão de representação. Poderia ser o  governador do meu estado.
P.S. 2: Que ironia, Burset! Dá um abraço aqui.

Litchfield's Got Talent

Nota do Episódio - 8

8

Review do quarto episódio da quinta temporada de Orange Is The New Black, da Netflix, intitulado "Litchfield's Got Talent".

User Rating: Be the first one !

Comments

comments

About Melina Galante

Melina Galante
Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.
  • Bruno D Rangel

    Red e Blanca com certeza estão roubando a cena.

    A parte da peregrinação da Judy King eu achei bem chata.

    Acho muito estranho Leanne e Angie serem tão loucas assim. No começo era engraçado, mas agora forçam muito essa “loucura” delas. Elas nem tão drogadas estão para justificar.