Por que a Franquia Chicago não tem mais personagens gays?

Imagem: NBC

Sou fã da franquia Chicago. Todos sabem. Acompanho-a desde que Chicago Fire estreou e fiquei ainda mais contente quando, ainda na primeira temporada, foi anunciado que Dick Wolf tomaria as rédeas deste universo com a inserção de um novo show: Chicago P.D..

De lá para cá, já são três shows, incluindo Chicago Med – e estamos encaminhando para o quarto, com a recente adição de Chicago Justice ao cesto.

Mas, analisando a história, como um todo, e pensando bastante em questões de igualdade e de avanços na TV sobre temas que ainda são considerados tabus – como a homossexualidade – percebi que, hoje, não existem personagens gays nas séries Chicago.

Onde eles estão? Precisamos falar sobre…

Um assunto que deixou de ser obrigatoriedade!

Antes que me venham crucificar sobre o porquê dessa indagação, como ocorreu há pouco tempo quando abordei esse mesmo tema, mas sob a perspectiva da inserção na série Gotham, o que o público de séries de TV precisa entender é que falar sobre homossexualidade já deixou de ser obrigatoriedade há muito tempo.

Sabe, aquele pensamento de “ah, precisa encaixar um personagem gay aqui para parecer de verdade”, deixava tudo ainda mais forçado, principalmente pela forma como era tratada. Hoje, casais gays, namorados, entre outros, já se tornaram suaves na TV a ponto de que o público consegue realmente comprar que soa natural. Mas porque é. Cada vez mais os direitos estão sendo conquistados, apesar de estarem longe de uma igualdade e alcance do desejado.

Imagem: AfterEllen

Porém, deve-se reconhecer que hoje, em qualquer lugar, a qualquer momento, conviver e falar sobre gays tem se tornado cada vez maior.

Uma cidade de heróis… Heterossexuais?

Como disse ali em cima, eu gosto muito de todas as séries desta franquia. Acho incrível a forma como eles abordam suas histórias, cada qual de uma forma diferente – uma mais procedural, outra focada nos personagens principais… E acho audaciosa uma franquia de séries se dedicar a mostrar o dia-dia de “personagens da vida real”, os chamados heróis da realidade.

Mas na “cidade de heróis” não há gays? Tudo bem que os verdadeiros protagonistas destes seriados não são os personagens em si, mas sim, suas profissões. Porém, é evidente que hora aqui, hora ali, os roteiristas se preocupam em abordar as relações interpessoais. Principalmente Chicago Fire, que é comandada por Derek Haas e Michael Brandt – e que foi a única série, até o momento, a inserir um personagem gay (a Shay interpretada por Lauren German). Já P.D. e Med, que são supervisionadas de perto pelo Manda-Chuva, Dick Wolf, não dão muito destaque para os relacionamentos destes personagens, e o pouco que tem é direcionado a factuais encontros nos finais do episódio, porém, todos heterossexuais.

Espanta-me, em muitas maneiras, uma série que se propõe a ousar, e que de certa forma consegue com casos e investigações incríveis, não se dar o trabalho de explorar algum personagem homossexual. Não por obrigação, como cheguei a comentar, mas por naturalidade. Quer dizer, existem policiais, médicos e bombeiros gays, e cada qual com sua relação interpessoal. A série, inclusive, poderia ousar ao mostrar o preconceito remanescente nestes ambientes de trabalhos, que muitas vezes oprimem aqueles que são homo ou bissexuais.

Onde, então, está o problema?

Pesquisando sobre o tema na imprensa internacional, percebi que não fui o único a notar essa ausência. Inclusive, em recentes painéis, Dick Wolf foi indagado sobre essa falta de personagens gays na franquia Chicago – e convenhamos, nas séries supervisionadas por Wolf como um todo. E ele foi bem enfático ao dizer que não dá muito importância para a sexualidade ou para a etnia destes personagens, uma vez que este não é foco de suas séries.

OK, uma visão bem generalizada, não acham? Já que é para ser assim, Wolf deveria então se sujeitar a não explorar nenhuma situação amorosa e focar-se, estritamente, em trabalhar seus casos da semana. Mas não, ele sabe que uma série precisa ser pessoal, ela precisa que os personagens se conectem com o público e, para isso, criar personagens e relações para que as pessoas “shippem” é uma saída lógica.

Então, porque não tratar disso? A sugestão dada ali em cima, do preconceito no meio profissional, a liberdade no meio pessoal, e a audácia de abordar este tema caberiam muito bem a essas séries que, particularmente, eu respeito muito.

Será que é preguiça de abordar ou ainda há um certo conservadorismo no texto do Sr. Wolf? Fico um pouco perdido ao tentar identificar o problema deste ponto. Porém, uma coisa eu tenho certeza: pressão da emissora não é, uma vez que a NBC foi o lar de uma das séries que mais inovou ao abordar temas gays, que foi Will & Grace.

É, realmente, uma pena não termos mais personagens gays na franquia Chicago e a oportunidade de explorar temas tão importantes e, por que não, interessantes. Certamente, quem perde com tudo isso é o público – pelo menos o não conservador/homofóbico.

Para finalizar essa reflexão, deixo uma curiosidade: notaram que a Shay morreu logo após o Dick Wolf assumir o controle criativo da franquia, na segunda temporada de Chicago Fire? As conclusões, deixo para vocês tirarem…

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About Anderson Narciso

Anderson Narciso
Mestre em História, apaixonado por mídias, é o editor responsável e idealizador do Mix de Séries. Eterno órfão de Friends, One Tree Hill e ER, acompanha séries desde que se entende por gente. No Mix é editor de colunas e de notícias, escreve a coluna 5 Razões e resenha a série Gotham.
  • Juk

    Eu realmente espero que isso seja apenas uma coincidência porque eu amo a franquia Chicago e acho o Dick um ótimo produtor, medo dele ser homofóbico. Ou talvez por ele ser hétero não tenha afinidade com tramas LGBTs, mas não sei se quero mais um personagem LGBT que precisa sofrer, só quero um personagem LGBT que seja LGBT e pronto, que isso não seja uma questão tipo o Connor de HTGAWM.

    Ótimo texto e saudades da Shay <3 ela merecia uma morte mais digna do que teve principalmente depois de uma temporada que ela estava chata pra caralho. (ps: tenho quase toda certeza que Otis é xonado no Joe (ps dentro de um ps: Joe quase não aparece mais nos episódios de Fire) )