The OA: ousada e diferente, série é mais um acerto da Netflix

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Crítica da 1ª Temporada de The OA – SEM SPOILERS

No cenário independente norte-americano, Brit Marling já é um rosto conhecido. Atriz, produtora, diretora e roteirista, Marling passeia entre o sci-fi contemporâneo e deixa bons resultados para trás. É dela, por exemplo, o ótimo A Outra Terra, em que a humanidade descobre, atônita, que outro planeta Terra, idêntico ao nosso, orbita no céu. Na Outra Terra habitam versões iguais as desta Terra e isso tudo gera um mar de questionamentos e pensamentos. Em Sound of My Voice, em parceria com Zal Batmanglij (diretor de The OA), Marling fala sobre uma seita cuja líder diz ter vindo do futuro com algumas respostas (e uma porção de indagações). Ela ainda trabalhou na ficção indie O Universo no Olhar e novamente dividiu forças com Batmanglij no suspense O Sistema. Em todos é possível perceber o estilo marcante de Marling. Não importa quem está ao seu lado nas produções, pois a abordagem é sempre única.

Quem conhece o trabalho de Brit sabe que a pegada é distinta. Suas ficções científicas têm os dois pés firmemente cravados no chão. Todos eles, em maior ou menor grau, brincam com o que pode ou não ser verdade: o que não é comprovada cientificamente pode ser apenas mentira. É o que Sound of My Voice levanta: a líder do culto estaria mentindo ou realmente veio do futuro?

The OA, nova e surpreendente série original da Netflix, é como se fosse uma expansão do filme de 2011. Embora diferentes em inúmeros aspectos, série e longa-metragem dividem algumas ideias que parecem indissociáveis de Marling e Batmanglij, coisas que sempre estarão presentes em suas histórias. Em The OA, e em boa parte da filosofia da dupla criadora, há sempre mais do que estamos vendo. Sempre há um além, e este está longe do sobrenatural. Trata-se de dimensões, universos, suposições, tudo o que está longe do toque e dos olhos, mas tão perto quanto possível.

É por isso que The OA, assim como as outras empreitadas de Marling, parece tão distante do normal. Você sabe quando está acompanhando algo diferente quando tudo parece absolutamente fora do habitual. Bastam alguns minutos dentro do episódio piloto para notarmos que algo – ou muita coisa – é diferente ou até mesmo estranho. Os criadores, aliás, já declararam mais de uma vez que The OA não é uma série, mas sim um filme de oito horas. Isso explica porque a abertura (a única de todo o programa) aparece apenas no final do primeiro capítulo. O piloto é uma introdução, uma espécie de grande cold open, que abre as portas para as sete horas seguintes. O início, precisamos admitir, é difícil. Marling e Batmanglij escreveram um roteiro que foge das convenções preestabelecidas para as séries de TV. O primeiro episódio não é um piloto, mas o início de um filme. Assim, a apresentação da trama principal e dos personagens não funciona da mesma forma que a maioria das séries.

Com isso, temos um início que caminha com seu próprio modo e em seu próprio ritmo. A primeira parte representa toda a série: é preciso assistir tudo para que a experiência seja completa e você sinta que tudo foi feito da forma correta. É por isso que não haveria outro lugar para The OA ser lançada. O programa fracassaria estrondosamente em qualquer canal, seja HBO, Showtime ou qualquer emissora aberta. Na Netflix, contudo, os roteiristas podem trabalhar sem muitas amarras. É comum que na altura do quarto ou quinto capítulo você comece a pensar que muita coisa está fora do lugar e que metade dos personagens é inútil ou não foi desenvolvido corretamente. É preciso acompanhar tudo e chegar ao fim para que todos os nós sejam amarrados.

the-oa-instagramThe OA se divide em dois grandes espaços e tempos: o primeiro é o presente e vemos Prairie (ou OA) aparecer depois de quase uma década desaparecida. Ela está de volta à cidade onde cresceu e começa a conversar com um grupo de pessoas. Eles passam a se encontrar durante a noite em uma casa abandonada e é lá, sob a luz de um lampião, que OA conta sua história. Daí pulamos para o passado e conhecemos a jovem, antes cega, que sumira. Vemos como ela desaparece, para onde vai e o que faz durante esse período. A série, então, se debruça nesses núcleos e divide seu tempo entre o grupo de personagens do passado e o grupo de presente. O problema é que os roteiristas, aqui e ali, não conseguem administrar as duas coisas. Se perto do fim as idas e vindas ficam mais orgânicas, no início e na metade as coisas parecem confusas e perdidas. Em um momento, fica claro que o interesse do roteiro repousa sobre os personagens do passado, que dividem os segredos com OA. Com isso, os interessantes personagens do presente ficam em segundo plano.

Nesta perspectiva, pouco sabemos sobre certos coadjuvantes importantes da história. O jovem Jesse, por exemplo, embora carismático, nunca é desenvolvido com propriedade ou interesse como Steve ou a professora Betty. Steve, aliás, é um personagem perigoso: começando a trama como um bully desprezível, o sujeito começa a se humanizar com o passar do tempo, em um clichê antigo do audiovisual. O problema é que Steve muitas vezes passa do limite, tornando-se apenas um psicopata adolescente. Mesmo depois de mostrar uma melhora, o roteiro teima em mostrar que, no fundo, o sujeito não mudou. Embora o personagem funcione e o ator seja talentoso, Steve é uma peça frágil na trama, um detalhe que precisa ser ajustado em uma eventual segunda temporada.

De todo modo, a série acerta com praticamente todos os personagens. OA e Homer são ótimos e o Dr. Hap é um dos mais interessantes de todo o show. Isso porque os roteiristas entendem que ninguém é totalmente bom ou totalmente ruim. O próprio personagem fala, em certo momento, que nem tudo é preto ou branco, mas cinza. Assim, o doutor, embora cause desprezo várias vezes, desperta empatia do público com decisões que o tornam mais complexo e humano. Um roteiro frágil ou pouco seguro de si, por exemplo, teria apostado no maniqueísmo fácil e transformado Hap em um monstro. Créditos devem ser estendidos, portanto, aos atores. Jason Isaacs compõe um personagem cheio de nuances, que foge da vilania barata. O elenco jovem também merece elogios e cada um tem um tempo para se destacar entre os vários personagens e ideias propostas na história.

No fim, embora a dupla criadora recicle algumas de suas próprias ideias (a imagem de OA falando para o grupo lembra muito a seita de Sound of My Voice), a série investe em várias ideias pouco ou nunca trabalhadas na TV. No meio do caminho pode parecer que o programa não sabe o que quer ou para onde ir, mas no fim tudo fica claro. É verdade, contudo, que algumas importantes descobertas surgem muito tarde na trama: o grande plot e motivação da protagonista aparece depois da metade da temporada. Ainda assim, a originalidade e qualidade geral do roteiro garantem não só a diversão, mas a interpretação. The OA não é uma série fácil e não propõe saídas simples, a caminhada completa, entretanto, vale o tempo investido.

A finale, embora aposte em alguns deus ex-machina, amarra a maioria das pontas e deixa margem para excitantes novas possibilidades. Os minutos finais estão entre as coisas mais inesperadas que a TV proporcionou em 2016. Brincando com os nervos do público, The OA é ousada até – literalmente – o último segundo. A arrebatadora sequência final pode parecer forçada no início, mas encaixa em toda a proposta da série. Basta ver além. É isso que a série propõe, afinal.

#Publicado originalmente no dia 18 de dezembro de 2016

The OA: ousada e diferente, série é mais um acerto da Netflix

Nota da Temporada: - 9.5

9.5

Crítica da primeira temporada de The OA

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Comments

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About Matheus Pereira

Matheus Pereira
Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.
  • Caroline Marques

    Estou achando genial, genial! Fazia muito tempo que eu começava uma série e ficava até as 4 da matina vendo sem ver a hora passar <3

  • Wellington Torres

    Vou começar a ver hoje com a minha namorada, pelo menos assim piramos os dois juntos rs

  • Vi toda hoje

    Achei interessante, mas definitivamente concordo com todos os problemas apontados no texto.
    Mesmo o final sendo previsível, foi divertido, foi instigante.

    meu maior problema é o tamanho…. acho que tudo poderia ser desenvolvido na metade do tempo.
    Chega uma hora em que vc termina de ver um episódio inteiro e ele não acrescentou quase nada.

    Fico feliz pelo menos da série ter um fim de temporada “fechado”. A história pode acabar por ali que tá bacana.

    • Caroline Greco Regly

      Está mesmo falando de the oa?
      não achei nada claro no último episódio …
      Ficou assim meu pensamento…
      Era tudo mentira… histórias q ela tirou dos livros q comprou pra ajudar a superar o cativeiro (seja lá como tinha sido na realidade) mas q serviu pra eles fazerem o movimento na frente do atirador na escola, distraindo-o… oq evitou várias mortes e terminou somente c ela levando o tiro.
      Ouuu era tudo verdade sobre como ocorreu o cativeiro as experiências quase morte e o Homer… e qdo eles fizeram os movimentos na escola, abriram o tal portal pra outra dimensão e ela foi parar lá ao levar o tiro…
      Mas qual versão é a real, ficou confuso pra mim…
      Qual foi sua conclusão?

      • Memento da Silva

        Caroline, a proposta era essa mesmo, fazer você ir dormir com essas perguntas.

  • Machista com orgulho

    Lixo é isso que chamo a série, nunca senti tão aguniado vendo um primeiro episódio é muito desconfortável ver essa série pqp a mulher chamou 5 pessoas pra contar história kkkkkkkk eu achando que ia ter algo foda ela pedindo pra reunir 5 pessoas fortes kkk isso é uma doida mano não vi graça nenhuma mt mistério pra algo clichê pqp que bosta de série não comparem esse lixo com stranger things…

  • Memento da Silva

    A série é muito boa. Aqui e ali se percebe algum deslise, mas, o conjunto é bom e deixa muito espaço para refletir. O final da primeira temporada é indefinido, de propósito, e, como tudo na vida, você acredita no que quiser, ou em nada. Se alguém não compreende/aceita isso, se acha que tudo tem tem de ter uma resposta clara, então a série não é para essa pessoa. Espero que venha a segunda temporada, mas, considero que a primeira temporada acabou muito bem amarrada com um final que é o mais plausível possível, na medida em que até hoje, nada sobrenatural se provou e a acreditar ou não é uma opção pessoal, a tal da fé.