Produtora de Grey’s Anatomy afirma que Harvey não é o único assediador em Hollywood

Imagem: Twitter/Reprodução; Thomas Hawk/Divulgação

Num momento que Hollywood tenta seguir em frente após a revelação do histórico de assédios e abusos do produtor Harvey Weinstein frente às mulheres, a atual showrunner e produtora executiva de Grey’s AnatomyKrista Vernoff, escreveu uma coluna no The Hollywood Reporter afirmando que o ex-fundador da Weinstein Company não é o único a ter tal comportamento na indústria.

Traduzimos na íntegra.

“Há alguns anos atrás eu estava tentando formar o elenco de um piloto. Eu convidei duas atrizes para participarem de um teste na emissora. Uma era radicalmente diferente da outra. Entretanto, uma delas tinha uma “forma” que um dos presidentes da emissora classificou como “mais atraente”. A diferença na qualidade das audições não poderia ter sido mais distinta, que a outra executiva feminina na sala não poderia deixar passar. Ela disse – Não é dessa maneira que isso tem que funcionar. A atriz número um foi sensacional. Nós não deveríamos seguir com a número dois só porque você achou-a mais atraente. Esse presidente se mostrava como um dos caras legais, e então ela o humilhou. Ele reconheceu e me deixou escalar a atriz que mereceu mais o papel, mas aquela poderosa executiva foi demitida sem nenhuma explicação em duas semanas.

Há um grande movimente nas redes sociais atualmente. As pessoas querem apontar os dedos para todos aqueles que foram “cúmplices” com Harvey Weinstein por anos. Essas pessoas estão nervosas, compreensivelmente, e em busca de alvos. Há aqueles – e sempre existirão – que querem apontar dedos para as mulheres que acusam as vítimas de Harvey por não terem falado mais cedo. Como se sacrificar suas vidas e carreiras, elas poderiam ter mudado a força da misoginia que construiu essa cidade. Gwyneth [Paltrow] tem muito poder! Ela deveria ter falado mais cedo, dizem eles numa compreensão ingênua de que caso ela tivesse falado mais cedo, teria o mesmo poder que tem agora.

A verdade triste e dolorosa é que quase todo mundo nessa cidade sabia quem Harvey era. Eu conversei muito com meus amigos mais liberais nessa semana. Eles sabiam que ele era um estuprador? Não. Mas eles sabiam por décadas que ele oferecia grandes carreiras para as atrizes em troca de favores sexuais? Sim, eles sabiam – e não se engane, isso é outra forma de estupro. E será que nós – ou qualquer um de nós – nos recuamos de trabalhar com ele baseado em algum campo moral? Não. Todos NÓS FIZEMOS NEGÓCIOS COM ELE. Eu nunca trabalhei com Harvey, mas eu posso te dizer com muita certeza que eu teria trabalhado – porque eu tinha muito conhecimento do apelo que ele tinha nos festivais de cinema. Eles [os Weinsteins] me pediram para inscrever meu curta metragem [Stars, lançado em 2015] para consideração deles e eu não pensei duas vezes. Eu sou uma feminista muito convicta. E eu tenho uma carreira bem boa.  Eu não preciso do meu curta no festival dele – vai me fazer ou vai me quebrar. Então porque eu não pensei duas vezes? Porque toda essa cidade é construída em princípios horríveis que Harvey levou a um extremo ainda mais repugnante. Se eu não trabalhasse com pessoas cuja comportamento eu acredito ser repugnante, eu não teria uma carreira.

A primeira vez que eu fui entrevistada para um cargo como roteiristas, eu tinha 28 anos de idade. Eu tinha um vestido que comprei numa loja de antiguidades e eu sorri com todo o entusiasmo que eu estava recebendo daquela sala. O showrunner homem me olhou de cima abaixo em questão de minutos, e disse em seguida – eu goto do seu roteiro. Alguém lhe ajudou a escrever– Eu fiquei enojada. Foi profundamente ofensivo. Eu chamei a atenção dele? Eu fui embora? Não, eu apenas ri. Eu fiquei. Fui entrevistada para o emprego. Porque é isso que eu faço.

Meu segundo ano trabalhando na televisão, eu estava na frente de um quadro branco falando sobre a minha ideia de história numa sala quando meu showrunner, homem, me questionou – na frente de outros seis colegas homens e uma mulher mais velha – se eu era boa de cama. Todos riram – alguns desconfortáveis. O que eu fiz? Sorri, eu fiz uma piada, eu me engasguei e continuei o que tinha que fazer até completar a minha ideia. A minha colega veio até o meu escritório naquele dia mais tarde e pediu desculpas. Ela disse que queria ter falado alguma coisa naquela hora. Ela foi a única que veio até mim. E claro, porque eu tinha feito uma piada sobre aquilo, eu tinha dado “aval” para meu showrunner. Então ele falou outras coisas ainda mais sugestivas nas semanas seguintes. Eu finalmente “brinquei” que tais comentários poderiam render processos. Eu disse com um sorriso. Ele recebeu isso de uma maneira muito ruim e nossa relação profissional nunca mais foi a mesma. Porque nós pagamos se falamos mais alto – mesmo quando estamos sorrindo.

E esses exemplos são apenas um recorte da cultura na qual trabalhamos, na cidade mais liberal de todas. Todas as mulheres que eu conheço, toda mulher na qual eu já trabalhei, têm histórias como essa e muitas vezes piores. E nós trabalhamos nessa cultura para que pudéssemos ganhar algum reconhecimento e ter voz. E aquelas que não fazem isso – aquelas que gritam isso não está certo quando se sentem ameaçadas ou humilhadas (como aquelas mulheres que realmente falaram depois que a matéria no The New York Times foi publicadas – elas vivem na periferia desta cidade. Elas não ganham poder. Elas não conseguem uma grande plataforma que as principais redes oferece. Ela só quer que seu nome seja colocado nas manchetes e ganhar alguma coisa é pura misoginia no trabalho porque ignora tudo o que essas mulheres tiveram que superar para conquistar um certo poder. E ignora o fato de que 45 [o atual presidente dos Estado Unidos, Donald Trump] continua na Casa Branca, mesmo depois que uma série de mulheres o acusaram de diversos abusos.

Eu tenho a possibilidade de colocar mensagens feministas num grande canal de televisão toda semana e eu conto histórias a partir do ponto de vista de uma mulher, porque eu geralmente trabalhei respeitando as regras do Harvey – as regras na qual todas nós temos que respeitar. As regras de que teríamos que rir da discriminação. As regras de que Casey Affleck ganha um Oscar apesar de várias alegações. As regras que permitem que Woody Allen possa se casar com sua enteada e ainda tenha uma carreira. As regras que mostram que Bill Cosby ainda não foi condenado e grande parte de Hollywood continua em silêncio. As regras que mostram que diretores medíocres podem falhar, mas mulheres diretoras têm apenas uma oportunidade (se tiverem sorte). As regras de que as mulheres têm que ter parcimônia toda hora, senão são chamadas de “loucas” por reclamarem de alguma coisa. As regras de que as mulheres não podem envelhecer em filmes e na televisão, mas homens podem ter rugas e cabelos grisalhos e serem reconhecidos por isso. E se você acredita que eu estou misturando discriminação de idade e assédio sexual – é porque eu estou, pois essa cultura permite isso. Uma cultura que abertamente paga menos para mulheres mesmo quando fazem o mesmo (e até mais) do que os homens, por apoiaram a ideia de que as mulheres literalmente valem menos. Esse pensamento pode facilmente levar a ideia de que as mulheres podem ser levadas contra sua vontade para um quarto de hotel como propriedades e brinquedos.

Eu contrato muitas mulheres atualmente. Eu me levanto quando vejo um abuso. Eu me recuso a pedir para que uma atriz perca peso. Eu conquistei o suficiente para insistir que a lista de diretores aprovados seja entregue aos estúdios tenham pelo menos metade de mulheres agora. E eu faço essas coisas na esperança de que a próxima geração de mulheres nessa cidade não tenham que ter vivências como eu tive.

Toda a cultura é recheada de cúmplices. E eu estou muito feliz que finalmente tenhamos começado essa conversa. Eu estou esperançosa que seja o momento certo para mudança verdadeiro. Porque numa mesa de jantar no mês passado, eu me encontrei com uma roteiristas inteligente e divertida que tinha acabado de pedir demissão de um emprego que ela amava porque um grande executivo muito próximo ao Harvey – que fez muitos barulho durante aquela semana – não parava de enquadra-la em salas fazendo propostas pra ela. E todos todo mundo sabe quem. Não é porque o Times não escreveu nada expondo-o, não significa que não é verdade. Se transformarmos isso tudo sobre Harvey, então estamos perdidos.”.

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About Bernardo Vieira

Catarinense e estudante de direito. Escrevo sobre entretenimento desde 2010, mas comecei com política internacional depois da campanha americana de 2016. Adoro uma premiação e um debate político, mas sempre estou lendo ou assistindo algo interessante. Quer saber mais? Me pague um café e vamos conversar.