Quarta temporada de Black Mirror traz o futuro com um novo olhar sobre a tela

Imagem: Netflix/Divulgação

Para aqueles que acreditavam ter uma virada do ano calma e tranquila, Black Mirror trouxe um pouco mais das loucuras e tombos de 2017.

Foi uma temporada aquém do esperado se comparada às anteriores? Depende muito de seu ponto de vista. Foi uma temporada com episódios incríveis e também alguns intermináveis? Isso pode ter certeza. Mas o que esperar de Black Mirror, afinal? O melhor mesmo é não esperar, segurar a emoção durante todo o ano para quebrar a tela em menos de um dia, ou se deliciar com o desespero e a angústia por várias semanas. Seja por imediatismo ou masoquismo, temos um show de aberrações interpretado nada mais nada menos do que pela pureza do lobo do homem. O que Thomas Hobbes dizia, Black Mirror comprova. Nada mais prazeroso do que chegar ao fim de um episódio e ter certeza de que somos nossa própria destruição. A série traz a linha tênue entre defesa e acusação, faz com que nossos julgamentos sejam totalmente reflexivos. A distância da realidade já não é tanta e podemos perceber que alguns episódios já estão bem próximos. No meio de toda essa confusão, temos o aviso. Claramente o seriado vem com um letreiro gigantesco de alerta: “Nos tornamos o que mais temíamos”. Mas deixando o pessimismo de lado, vamos focar em nossos novos episódios.

Acredito que a expressão “isso é tão Black Mirror” já está mais do que difundida entre a rede. Realmente nos deparamos com diversos momentos em que a vida imita a arte, e a arte imita a série. Mas o que não sabíamos era que Black Mirror consegue ser tão Black Mirror quanto imaginávamos. Falo isso referente ao mundo de easter eggs que fomos submetidos dentro dos seis episódios desta temporada. Creio eu que os mais atentos perceberam diversos momentos de menções a episódios clássicos da série, e até mesmo à temporada atual. Se pegarmos isso como um ponto positivo, que prende a atenção do telespectador durante a exibição, Charlie Brooker acertou em cheio.

Apesar das referências, os episódios ainda se mantém independentes, como já estamos acostumados. A série mantém seu estilo de enredo, mas muda um pouco a vertente do suspense. Essa temporada realmente veio mais distante das duas primeiras e um pouco próxima dos ideais da terceira. Depois de San Junipero, os finais felizes estão mais próximos da trama e pudemos ver um pouco mais disso por aqui, principalmente com Hang The DJ. Contudo, se depender desta temporada, o futuro realmente não será um lugar interessante de se viver. Cada episódio possui uma perspectiva, a interação tecnológica já não é tão evidente, mas a realidade humana nos anos que se segue é bem representada. Segure sua pipoca, prepare o refrigerante que aqui vai um pouco do que realmente acreditamos ver em cada episódio desta temporada…

USS Callister

O primeiro episódio da temporada já vem com uma menção honrosa gigantesca à querida produção de Star Trek. Figurino, cores, fotografia… Tudo muito bem recordado ao sucesso cinematográfico dos anos 60. Contudo, o que mais chama a atenção é a crítica social. Claramente, a série trabalha muito bem nesse aspecto. O foco direto ao poder virtual, ao cyberbullying, à mudança de caráter e personalidade de pessoas que, muitas vezes, são oprimidas na vida real. Seres que não possuem a coragem de correr atrás de seus ideais e acabam se tornando verdadeiros tiranos e opressores na rede. Exatamente aí encontramos o primeiro embate com nossa mente, pois, por mais que Robert fosse um tirano dentro do jogo, a parcela de culpa de suas ações estaria na supressão feita por Walton durante a vida. Ou realmente sua personalidade sádica sempre esteve presente e o jogo foi apenas um gatilho para expressar toda sua raiva? Diferente de muitos outros episódios, este não espera até o fim para nos revelar a verdadeira face de nosso protagonista, alguns minutos iniciais defendendo suas ações foram suficientes para nos mostrar quem era o Robert de verdade. Não o classifico como o melhor da temporada, mas está no Top 3 com certeza.

Arkangel

A continuação veio com mais alguns easter eggs bem interessantes, como as imagens na tela quando Sara é criança ou o caminhão no fim do episódio. Desta vez temos algo dirigido por nada mais, nada menos que Jodie Foster, uma tremenda atriz e diretora. Mesmo com um final surpreendente, o desenvolver da história não foi favorável. Passei por diversos momentos de sono durante a transmissão. O ideal de superproteção materna conseguiu ser bem transmitido nos minutos iniciais e se prolongou durante todo o episódio. O final chocante realmente desperta os olhares, o inconstante medo de perder Sara ao mundo fez com que isso se tornasse realidade. Uma tecnologia que vai além de suas vontades e que não respeita seus desejos e sua privacidade, mais do que explicado o porquê dela ter sido banida. A necessidade de cuidado foi tanta que faltou limites, ideais de realidade. Conseguimos claramente perceber que Sara desejava conhecer o mundo e a mãe sempre acobertou seus anseios, julgando os que estavam ao seu redor. A falta ou excesso de limites bem representada em um só momento.

Crocodile

Provavelmente um dos finais mais chocantes da série e um enredo que cursa muito bem com a mente criminosa. O ser humano é capaz de ir além do esperado, para se livrar de seus atos. Acompanhar a evolução de Mia foi eletrizante. Foi um episódio bem desenvolvido, conseguimos criar uma simpatia por Shazia e um sentimento de ódio por Mia. A tecnologia foi representada em menor escala desta vez, e pudemos ver um pouco mais da essência humana. Gostei do trabalho fotográfico realizado naquele projetor de lembranças, deu um toque mais rudimentar, sinalizando uma tecnologia futurista, mas ainda precária. Apesar de todas as mortes, podemos concluir que a justiça foi feita e o final do episódio foi satisfatório. A informação da criança cega gerou um impacto gigantesco e ainda promove opiniões fortes na internet. O melhor de tudo foi ter sido desmascarada por um porquinho da índia, que nos prova como realmente não estamos sozinhos nesse mundo. Um ótimo episódio, que trouxe pensamentos intrigantes.

Hang The DJ

Nem preciso comentar sobre este episódio, pois palavras são pouco para definir sua história. Não digo isso apenas pelo final feliz apresentado, ou pela mensagem passada. O episódio é tão bom, que nos faz pensar a todo momento que tudo vai dar errado e no fim acaba tudo certo. A empatia dos protagonistas é linda de se ver e a mensagem final traz todo um charme ao episódio: “O amor de verdade é quando duas pessoas se unem para enfrentar o sistema”. Realmente uma definição bacana e um final surpreendente. A menção básica do Tinder do futuro foi bem captada, e acredito que muitos já querem esse desenvolvedor pra ontem. Um episódio leve e divertido, que pode ser considerado o próximo San Junipero nas premiações.

Metalhead

De uma grande produção a minutos angustiantes. O quinto episódio da temporada teve escolhas difíceis, um enredo mal desenvolvido com um fim trágico e emocionante. Trazer o episódio em preto e branco foi uma jogada interessante, afinal, se fosse colorido seria bem pior. A fotografia deu uma repaginada no desenvolver, trazendo a angústia e sofrimento do mundo pós-apocalíptico. Com pequenas referências a produções como Exterminador do Futuro, temos uma trama bem aquém do que a série propõe. Contudo, como disse no início deste texto, o interessante é analisar pontos de vista. Em um mundo atual ou até mesmo próximo a um apocalipse, nunca imaginaríamos ver tanta luta e sacrifício por uma caixa de ursos. Realmente foi uma jogada bacana trazer esse lado emocional, mas arrastaram demais com o episódio. Não conseguimos analisar apenas o final ou o início de uma produção e, realmente, o episódio deixou a desejar, ficando com a última posição no ranking da temporada.

Black Museum

E aqui está o grande fechamento da temporada, talvez até da série. O episódio é tão referenciado, com tantos easter eggs, que será impossível descreve-los por aqui. Mas no geral, fecha o meu Top 3 perfeitamente. Logo de cara já nos identificamos com Nish, o que me deixou um pouco intrigado com sua viagem. Ao mesmo tempo, já percebo que Rolo não é muito flor que se cheire. O rapaz foi o grande responsável por muitas das terríveis histórias do museu, e ficamos apreensivos com o que ele pode fazer com a garota. De início, pensei que haveria algo racial com o episódio. De fato, podemos relacionar algumas tragédias com o ideal preconceituoso. Nish traz um discurso interessante que aborda bem esta questão. Quando somos apresentados à última história, já suspeitei que o rapaz incriminado poderia ser seu pai, contudo, a presença de sua mãe em sua cabeça foi algo impactante. A mensagem que ele nos promove é o que mais me impressiona, e que consegue encerrar bem a temporada: “Por que vivemos sofrendo com as imagens do pai da garota na cadeira elétrica, mas temos uma pitada de prazer ao saber que o vilão estará sofrendo da mesma forma no fim?”. Até que ponto nosso sadismo é considerado normal na sociedade. Black Mirror mais uma vez fazendo com que nossas mentes se quebrem e o ano termine mais louco do que já estava.

Top 6

– Hang The DJ
– USS Callister
– Black Museum
– Crocodile
– Arkangel
– Metalheas

É exatamente por isso que, mesmo com episódios entediantes e extensos, não deixamos de amar Black Mirror com todas suas loucuras. Apesar de crer em uma nova temporada, acredito que a série terminaria perfeitamente aí, com o mundo de referências e ideais soltos sobre continuidade e linha temporal única. Só tenho elogios a série que se renova a cada ano, permanecendo com os ideais e pensamentos totalmente fora da caixa, e trazendo cada vez mais momentos paradoxos para reflexão. Afinal, existe algo mais Black Mirror do que Black Mirror?

Quarta temporada de Black Mirror traz o futuro com um novo olhar sobre a tela

Nota da Temporada - 8.5

8.5

Resenha da quarta temporada de Black Mirror, da Netflix.

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About Lucas Franco

Lucas Franco
Mineiro, Escorpiano, 20 Anos, Estudante de Medicina. Direto do Arkham Asylum para o Mix. Eterno fã de Chuck, E.R. e Friends (RIP). Por entre as madrugadas vive a dualidade dos estudos e das séries. No Mix, escreve as reviews de Quantico, Shadowhunters, OUAT e DC’s Legends of Tomorrow.