A representatividade negra está em alta, mas ainda precisa de mais espaço na TV

Imagem: Netflix.

Na última semana vi uma movimentação na internet acerca da nova série da Netflix, Dear White People, que destaca o embate de negros e brancos em uma espécie de guerra cultural, dentro de uma universidade predominantemente branca, após os eventos de uma festa de Halloween onde brancos se pintam de negros. Uma clara crítica a tradição dos “blackfaces”, que começou ainda no século XIX.

Dear White People, entretanto, se viu dentro de uma forte polêmica lá fora, onde brancos se sentiram ofendidos com determinadas linhas da série, chegando inclusive a enquadrá-la no “racismo reverso”. Pois bem, é interessante ver esse tipo de interpretação, ou reação, uma vez que exergo produções como Dear White People necessárias.

Ela é um símbolo da luta presente dentre os negros, que vem sendo conquistada cada vez mais. Porém, é preciso aumentar esse espaço de conquista. Precisamos falar sobre…

Afinal, como está a representatividade negra na TV?

Se há alguns anos, quando Viola Davis disse aquele discurso avassalador ao ser a primeira negra a vencer um Emmy, ela estava coberta de razão. Na ocasião, ela disse que o que separava mulheres negras de brancas era a oportunidade, e de fato faltava oportunidade na TV.

De lá para cá, as coisas mudaram…

Em recém pesquisa, realizada pela Gay & Lesbian Alliance Against Defamation (GLAAD), destaca-se que na temporada 2016-17 das séries de TV, 20% dos seus personagens são negros. Um recorde para a indústria de Hollywood, que há menos de dois anos se via em uma controvérsia polêmica sobre não ter negros indicados ao Oscar, por exemplo.

Produções como How To Get Away With Murder, Luke Cage, Greenleaf, Empire, Scandal, The Get Down e a própria Dear White People, entre outras, mostram a força que o negro vem conquistando dentro das séries de TV a ponto de se tornarem protagonistas de grande produções.

Mas e o racismo, ele é debatido na mesma intensidade? 

Dear White People trouxe consigo um assunto importantíssimo a ser debatido: o racismo. E olha, apesar de termos essa onda de representatividade negra na televisão, que eu admiro e bato palmas, a desigualdade racial e os preconceitos em torno disso ainda é muito mal discutido.

Produções como How To Get Away With Murder ou Scandal, que trazem duas negras como protagonistas, tem seus méritos, por não só tratar da presença negra como também do empoderamento feminino, e como os negros podem e devem conquistar uma ascensão nos dias de hoje. Ainda tempos Greenleaf, que com um elenco massivamente negro, se propõem a discutir outros tipos de escândalos, desta vez envolvendo a religião. Não é exatamente o foco, mas a questão racial negra acaba sendo jogada a escanteio em meio a outros problemas a serem debatidos.

Mas dentre essas séries, sinto falta de produções que apontem, que debatam e, principalmente, que tentem encontrar um meio para que o preconceito contra negros seja extinto. Porque sim, ele ainda está aí, e a própria história do “racismo reverso” eu interpreto como uma forma de retaliação a tal discussão.

Falta de coragem ou de voz?

Eu diria que a repercussão de Dear White People é a resposta para essa pergunta. Coragem ainda falta, mas há vontade. Porém, onde estão as vozes? Se de uma produção deste tipo, a recepção foi uma espécie de boicote à Netflix por ferir o sentimento branco, como isso então será tratado?

Indo além, o burburinho em torno dela foi fraquíssimo. Tome como exemplo a própria 13 Reasons Why, que dominou a internet nas últimas semanas. A questão se a série da Netflix era uma influência negativa ou não em relação ao suicídio tomou escolas, discussões familiares, e ganhou destaque da mídia em peso. Entretanto, pouco se falou sobre Dear White People, o que torna ainda mais necessária assisti-la e dar voz a esta crítica social. O lance é: movimente-se nas redes sociais, se empenhe, marque os amigos… levante a discussão. Afinal, por que será que ela causou esse estranhamento branco lá fora, a ponto de muitos quererem cancelar a assinatura da Netflix?

Há um ferimento por parte dos negros aos brancos na produção? Ou é apenas uma forma do branco sentir na pele a opressão negra mundial de séculos e séculos? O negro precisa ser ouvido, e precisa fugir do clichê conceituado na população de que é ele o seu principal racista. É preciso que negros discutam racismo com a devida atenção de todos.

Desta forma, defendo Dear White People como uma espécie de amplificador do assunto, algo que esteja gritando por alarme, mas em uma espécie de metáfora, todos parecem estar com fones de ouvido e não conseguem ouvir. Não exergo como racismo reverso. Enxergo como dor na consciência por parte daqueles que já causaram algum tipo de racismo.

Negros e brancos precisam refletir sobre esse assunto e deixar de silenciar tal tópico. Como a própria protagonista de Dear White People levanta, “espero que ainda estejam aí, pois com certeza o racismo ainda está!“.

About Anderson Narciso

Anderson Narciso
Mestre em História, apaixonado por mídias, é o editor responsável e idealizador do Mix de Séries. Eterno órfão de Friends, One Tree Hill e ER, acompanha séries desde que se entende por gente. No Mix é editor de colunas e de notícias, escreve a coluna 5 Razões e resenha a série Gotham.