Scandal – 7×06 – Vampires and Bloodsuckers

Imagem: ABC/Divulgação

“O sonho da razão produz monstros.”

Goya, pintor

Vampires and Bloodsuckers, ou quando o caçador passa ser a caça. No primeiro episódio da primeira temporada de Scandal, conhecemos uma jovem chamada Quinn que é convidada a fazer parte da equipe OPA. Adiante, vamos descobrir que ela é o ponto de intercessão em uma trama terrível para fraudar as eleições no primeiro mandato de Fitz. Acusada injustamente de ser a responsável por explodir um escritório vitimando muitas pessoas e mudando a identidade. Posteriormente, ela é presa, vai a julgamento, se salva da prisão perpétua, com a ajuda oculta de Eli Pope, que socorre Olivia, mandando um recado direto e certeiro para a juíza do caso. Ela será então protegida daí em diante com direito a um anjo da guarda.

Você me deu uma vida que lhe convinha e se o que fosse adequado era a minha morte?”

No primeiro episódio da derradeira temporada de Scandal, vimos Olivia Pope ameaçar e mandar matar uma criança num ato insano. Seis episódios depois, ela manda matar uma jovem e bela de pouco mais de 20 anos. Inocentes sem direito a defesa.

Scandal tomou um rumo confuso. Perdeu a leveza e corre o risco de não se encaminhar no sentido de fazer valer alguns princípios básicos, fazendo-nos questionar se terá valido a pena assistir até aqui. Até porque, mesmo na ficção, dirigir um mundo livre e democrático com jogos de poder, pressupõe regras, análise rigorosa de atos, causas e consequências, diplomacia, bom senso, tato, uma mínima base ética, moral, escrúpulo e, além de tudo, humanidade.

Não se trata de pretender um final perfeito, mas algo dentro de certos critérios é possível. Afinal, Shonda Rhimes sempre colocou questões reais na trama e não é possível mais inflar roteiro com situações assombrosas sem tempo para desenvolve-las, só para nos fazer engolir o ego de Olivia Pope (versão final), instituindo a barbárie de última hora à moda dos psicopatas Bin Laden e EI. Ficou cansativo, com fórmula ruim e tudo que já foi feito perdeu o sentido. Talvez esse seja um desafio de séries longas, saber a hora de parar.

Shonda trabalha com pesquisa. Dados reais são colocados na ficção e essa é graça de Scandal. Por mais delirante que possa parecer, existe mesmo uma organização chamada de “CIA na sombra” que só tivemos conhecimento recentemente pelo Wikileaks, por sinal, também  tema de um episódio, dois anos antes de estourar o escândalo mundial. Então, colocar Olivia como insana assassina em nome da República, numa versão piorada de Eli Pope, única dona do mundo, comandante clandestina e comandante oficial do país, soou ridículo, cruel e desrespeitoso com milhões de admiradores. Olivia, durante os seis anos que a conhecemos, nunca operou duas frequências de poder simultaneamente, sequer conseguiu ficar casada com o presidente e ser dirigente. Nunca foi diplomática e estrategista ao mesmo tempo, mas, de uma hora para outra, pode tudo e até mesmo eliminar pessoas inocentes com frieza. Não é confortável assistir! Dito isso, vamos adiante.

Olivia mandou explodir um avião em território americano, tendo a bordo o ex-presidente de um país hostil com arsenal nuclear e uma linda jovem estudante. A Presidente Mellie, que supostamente nada sabe ainda sobre o caso, se antecipa e promete vingança com mais bombas pelo ocorrido. Só nos resta sentir saudades de quando Fitz era Presidente e tínhamos um conflito mais real. “Não negociamos com terroristas”, era a frase recorrente dele.

Agora, temos uma mulher doente e um soldado igualmente alucinado, ambos com ares de déspotas, provocando um estrago de proporção monstruosa e uma crise grave no governo, com risco de encerrá-los numa prisão. O movimento seguinte da agora terrorista (tal qual a mãe, Olivia usa um anel enorme de ouro e visual parecido com o de Maya)  é silenciar qualquer testemunha ou cúmplice de sua ação desastrada. Quinn e Charlie, os dois agentes noivos que cuidaram da jovem Yasmeen até o embarque, são as pontas soltas. Uma festa no meio do caminho e temos Olivia com desculpa de levar um adorno emprestado para a noiva usar no casamento se certificando de que está tudo sob controle. O mimo é uma joia que pertence ao Smithsonian National Museum of Natural History, dirigido por Eli Pope, e o detalhe instigante é que Quinn aceita e revela que sabe de tudo. Ela se impõem, enfrenta Olivia de pé sem medo, é lutadora que se torna um problema para Pope, assim como no começo da história. A diferença é que ela tem agora o controle da QPA. “Sua OPA nunca foi sobre a justiça. A minha será.“, ela diz na conversa do Panteão.

A cena de embarque do corpo do Presidente Rashad, numa cerimônia com honras militares, como se ele fosse herói, na presença de uma mulher solitária, soa equivocada e desconexa. Mellie ameaça o embaixador desse mesmo Presidente, seguindo os passos atrapalhados de Olivia, no intuito de controlar a questão do Oriente Médio (único tema político em 7 episódios) e não consegue voar sozinha. Ela tem mãos atadas e é vigiada por Jack, soldado de chumbo que somente executa ordens como nos velhos tempos de Eli Pope.

Marcus Walker, chamado para aconselhar na calada da noite, diz iluminado “Por que as pessoas não podem fazer o que é certo? Isso é tão difícil? Você sabe o que é certo, mas está tentando encontrar justificativa para fazer a coisa errada.” Mellie sequer consegue se equilibrar no poder. Poderia ser diferente este final. E tudo nos faz crer que não sobreviverá além de um mandato e, pela conivência, com o terror, não merece nem terminar o que assumiu.

Aqui faço um adendo, se pudesse enviar um recado aos roteiristas a tempo de reparar um lapso: Marcus Walker tem classe e carisma para ser o presidente negro, finalizando a série. Um dos episódios mais comoventes foi justamente onde ele apareceu pela primeira vez como ativista no caso do garoto negro Brandon Parker. Além disso, a fundação de Fitz que ele gerencia é algo na linha real do democrata Obama. E, finalmente, porque os republicanos definitivamente nos deram um senhor chamado Trump.

O sumiço da noiva é confirmado e daí em diante vamos assistir uma sequência que nos faz sentir saudades de quando todos se reuniam para tentar descobrir o paradeiro de alguém, ou as pistas de um escândalo. Quinn é a “cliente” que deixa pistas. O anel de noivado (tal qual o de Olivia na cena do sequestro, lembram?) e um computador com imagens do embarque de Rashad e comitiva. Huck, que cuidou de cada detalhe da cerimônia com um carinho especial (até recebe de presente de Charlie um par de abotoaduras com iniciais idênticas às que Frank Underwood em House of Cards ganha de um agente), sai em busca de pistas e volta apenas com esses sinais e a certeza de que algo aconteceu. Curioso é que em outros tempos ele seria o primeiro a perder o controle e ir atrás até desvendar tudo. Talvez já saiba o que aconteceu e guarda segredo, afinal, Quinn é sua protegida desde sempre e ele não a deixaria em risco com um bebê prestes a nascer. Após a aparição de Curtis, ver Olivia desesperada, ao acordar para a dimensão dos fatos que saem de seu controle, não tem preço!

Pope enlouquecida tenta de todas as formas apagar as pistas de seu envolvimento anterior ao desaparecimento de Quinn, mas se esquece que os laços afetivos do grupo são fortes e eles não vão abandonar o propósito de encontrá-la. Então, ela mesma passa a investigar com seu soldado o paradeiro da gladiadora. É interessante ver Olivia praticando atos de contra espionagem e ao mesmo tempo parando de vez em quando para tomar fôlego diante do espelho. Ora escondida dentro do banheiro, na sala de Quinn, ou no porão fantasmagórico da Casa Branca. A face de Olivia parece um quadro de Goya, o artista do romantismo espanhol que melhor pintava anjos e demônios se confrontando. Suas últimas obras eram duelos em que essas imagens se duplicavam como espelho, semelhantes, os combatentes eram como gêmeos inimigos. Simbolicamente, Goya desenhava nossos desejos maus, reprovados, nossos impulsos recalcados que tanto odiamos, as criaturas noturnas e sem luz que vivem dentro de nós mesmos, vampiros fugindo da luz, fantasmas  que nos assombram. O pintor faria um belo quadro de Olivia, não tenhamos dúvida.

Nessa tentativa de reconstituir a cena do desaparecimento de Quinn, descobrimos fatos importantes para o fechamento da trama: Cyrus vai se confirmando como o homem a ganhar um dos finais felizes juntamente com Abby e David (o casal nunca deveria ter se separado, a química sempre funcionou), a reserva ética da série que sempre esteve ao lado de Olivia, confrontando-a e sinalizado com luz nos momentos mais duros. O julgamento final chegará e talvez ele mereça ganhar desta vez.

Envolver Fenton na história foi muito amador e desnecessário por parte de Olivia e Jack. O ato insano só confirmou que o monstro dentro de um agente B613 nunca morre. A cena de tortura com laranjas protagonizada por Charlie foi exagerada, reavivou tudo num momento em que o agente já tinha ultrapassado essa fase, afinal, vai ser pai, mas parece que não é o momento da superação dos horrores. “As coisas começadas pelo mal somente no mal se tornam fortes.”  (Macbeth).

Uma imagem final de Quinn, captada pelo circuito do elevador, mostra que ela esteve na QPA antes de sumir vestida de noiva. Mas é bom lembrar que a primeira cena dela no início do episódio é pensativa no sofá de casa, pronta para sair, esperando alguém e manipulando o anel de noivado. Concluindo, os dois personagens que não apareceram no episódio certamente estão com Quinn, a protege-la. É óbvio demais! E relembramos que ela salvou Pope uma vez, quando a operação Lazarus foi acionada e ele corria perigo, como agente dupla sempre manteve certo respeito diante do comandante.

Fitz e Eli Pope costuram a trama final que pode tirar do caminho de Olivia esse impulso cego e sem sentido, mas ela certamente sofrerá as consequências de seus atos insanos. Um possível final feliz talvez chegue no “ano novo” como cantou Taylor Swift, ao interromper por três minutos a série, deixando o recado diretamente de Rhode Island, mas não sem antes perder a “Reputação“, longe do poder.

Ainda resta Vermont, se ela merecer, porque paraíso não vem sem uma dose de sacrifícios. Scandal não é mais sobre o poder, guerras, sexo, reputação de políticos, relacionamentos afetivos e nem causas verdadeiras, é agora somente  sobre a psique de uma pessoa, Olivia Pope. Uma pena ser assim, porque poderia se encerrar maior.

MZR

Vampires and Bloodsuckers

Nota do episódio - 7

7

Review do sexto episódio da sétima temporada de Scandal, da ABC, intitulado “Vampires and Bloodsuckers”.

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About Marcia Zoé Ramos

Marcia Zoé Ramos
Produtora Cultural com formação em Artes Visuais e História, atua na area de artes como gestora de projetos, tutoria e assessoria de arte.