Sherlock – 4×01 – The Six Thatchers

Imagem: Arquivo Pessoal
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“I’m Sherlock Holmes.”

Como eu senti falta disso! Da agitação, do desarranjo, do cinismo irônico, do suspense, do brilhantismo do roteiro… E claro, do jogo. Ah, a excitação, o natural high do jogo. Desde que entrou em hiatus em 2014 e até mesmo em sua rápida traquinagem no início do ano passado, Sherlock parece ter elevado ainda mais o já excelente nível da série, chegando ainda mais capaz de nos embriagar em sua trama.

Mas antes de nos debruçarmos na trama propriamente dita, nesta que será uma razoavelmente longa review, devo acrescentar uma pequena nota, para esclarecer uma ou duas das minhas deduções. Não nego ser um grande fã tanto da série – e do trabalho de Steven Moffat como um todo – quanto das obras de Sir Arthur Conan Doyle, embora isso não me faça tão parcial quanto pareça. Também devo admitir que, vez ou outra, eu vá me emprestar daquilo que é dito nos livros para comentar uma ou duas das maravilhosas sutilezas captadas por esta que é, sem dúvida, uma das melhores adaptações do famigerado detetive inglês. E é exatamente por aqui que quero começar.

A atenção de Moffat aos detalhes é lendária e não é aleatório que ele escolha fazer referência, no título do episódio (“The Six Thatchers”), à “The Adventure of the Six Napoleons” (1904) – um dos treze contos que compõe o ciclo/coletânea conhecida como The Return of Sherlock Holmes (1903-1904), publicados na revista Strand e situados depois do “resurgimento” do detive no caso contado em “The Adventure of the Empty House”, publicado em 1903 (conto que marca o renascimento do personagem depois dos eventos em “The Adventure of the Final Problem”, publicado em 1893, onde o confronto de Holmes com Moriarty é narrado e a morte de ambos é apresentada). Toda a coletânea do retorno nos mostra exatamente um Holmes diferente daquele que enfrentou e venceu Moriarty; não um Holmes menos imponente ou brilhante, mas um Holmes mais recluso, que escolhe suas aventuras pelos relatos que lhe são trazidos por Lestrade e que parece ter aumentado sua atenção a detalhes que parecem ser insignificantes. Parece familiar? O episódio capta e traduz a essência desse Holmes, num prelúdio de narrativas rápidas, obcecadas por peculiaridades e capazes de mudanças drásticas e perfeitas, acentuando (e nos lembrando) de tudo o que a série já é, enquanto caminha seus passos finais.

E vamos admitir que, embora talvez com um tom mais prolongado, o episódio foi um verdadeiro mimo para os fãs. Certo, deixou de lado (em alguns níveis), aquilo que vimos em “The Abominable Bride”, e exagerou ao nos lembrar do quão profundas são as implicações dos eventos envolvendo Moriarty e Charles Augustus Magnussen, mas mesmo assim, Sherlock seguiu sem temer na direção do jogo criado pelo finado Moriarty, desenvolvendo também os sideplots. E é numa dessas subtramas que outra das referências à sutileza do texto escrito entra. Em uma de suas muitas pérolas, Holmes nos diz que deleta qualquer mensagem que comece com um “oi”, o que levanta a questão dele ter ou não sentimentos humanos, algo mencionado durante a solução do mistério em “The Adventure of the Six Napoleons”.

Na verdade, todo esse desenrolar de referências começou quando Mycroft mencionou os interesses e tarefas de Moriarty em seu último ano de vida. A menção à Pérola Negra perdida dos Borgia foi o que realmente me fez ir a estante e desenterrar uma cópia razoavelmente gasta de The Complete Sherlock Holmes; sabia que Holmes, em uma de suas muitas aventuras, tinha encontrado tal artefato, e eu não estava errado. Lá estava a pérola, escondida num busto, este de Napoleão, ao fim de “The Adventure of the Six Napoleons”. E de repente, todo o episódio passou a ter muito mais beleza. O brilhantismo e leveza da tradução do conto como pano de fundo para o episódio foi avassalador.

Divagações a parte, a série não perdeu muito tempo, nem fôlego. A extrapolação de Sherlock sobre Greta Bengsdotter, os planos de Moriarty e uma III Guerra Mundial acelera os meados do episódio com humor, só para encontrar a idée fixe e retornar diretamente a trama do conto, enquanto constrói o paralelo do busto e da imponência que ele representa com uma queda e desconstrução para Holmes, ainda maior do que aquela orquestrada para a finale da segunda temporada. E é com a mesma disposição para uma grande virada que o episódio segue. Abandonando conto e pérola e finalmente trazendo de volta o passado de Mary para assombrar a todos, nos deparamos com as informações, que deveriam ter sido destruídas junto com o pen drive e Magnussen, sobre o passado criminoso da ex-espiã.

Trazer esses segredos, a AGRA e tudo o mais que Mary poderia esconder, exatamente enquanto a vemos se ambientar como mãe, criar raízes ainda maiores e tentar, acima de tudo, deixar esse passado de lado, serviu não só para questionar o poder do passado, mas para lançar dúvida sobre a maneira com que Holmes está encarando o jogo proposto por Moriarty, deixando que o mero fantasma de seu maior rival desvie sua atenção e o prive de deduções fundamentais ao “forçar a mão” do nosso detetive, exatamente como aconteceu antes. Ver esse sentimentalismo quase humano se apoderar dele, de maneira que chega a ser difícil diferenciar, como Mycroft bem ironizou, abre um sem-fim de possibilidades, possibilidades estas que fecharam a trama do episódio de maneira exemplar.

Imagem: Banco de Séries
Imagem: Banco de Séries

Não me entendam mal. Sendo qualquer outra série, eu esperaria que as referências aos casos e até mesmo à pérola Borgia fossem demandar mais tempo. E a maneira trivial com que algumas coisas foram resolvidas é, sim, um gosto amargo para se acrescentar depois de toda a minha adoração à trama. Foi insensível não explorar a dinâmica da inserção da filha de Watson e Mary na história? Sim. Foi no mínimo entediante que um caso como o que abriu o episódio tenha servido somente como um prelúdio da história dos bustos? Também. Não esqueci da decepção de perder Mary ou de ter que revisitar esse passado dela como uma superespiã – que, convenhamos, não é lá muito crível – e ainda ter Watson possivelmente traindo a esposa. Em qualquer outra série, essas coisas seriam problemas tão intensos quanto são aqui; negar parte do trivial, negar a essência do que é narrado é sempre problemático.

Contudo, Sherlock nunca foi sobre o trivial ou o previsível; nem mesmo sobre aquilo que é esperado da estrutura narrativa. A série vai e faz, e seja isso problemático ou não. A qualidade final ainda é inegável, enquanto a série vai seguindo sempre para o nível seguinte do drama e dos mistérios, o que nos leva a uma encruzilhada completamente diferente. Afinal, será que Holmes encontrará sua Samarra no fim da temporada? Qual outro próximo passo pode ser dado, quando Mary está morta e a relação de Watson e Holmes partida além de qualquer conserto?

Enquanto isso, o mistério proposto por Moriarty, a missão dada por Mary e a ligação suspeita feita por Mycroft ficam para nos assombrar até o próximo episódio. Vejo vocês lá!

P.S.: Holmes digitando de costas para o celular? Fantástico!
P.S. 2: Falei, falei e falei mais um pouco do conto, mas até mesmo as menores sutilezas, como a ordem da quebra das estátuas e a quem elas pertencem foi feita como na obra escrita. E aquele “Thatcher’s like, I dunno, Napoleon now.”? #ReferencesEverywhere
P.S. 3: Tanto “The Canary Trainer” quanto “The Circus Torso” – casos que Sherlock resolve enquanto espera o próximo movimento de Moriarty – são referências a casos dentro e fora do cânone das aventuras do detetive inglês. “The Canary Trainer” foi inclusive publicado sob o título de “The Canary Trainer: From the Memoirs of John H. Watson” (1993), escrito por Nicholas Meyer, e sendo um pastiche – uma obra que imita o estilo de outra obra, se apoderando da obra original para produzir um novo signo – das obras de Sir Arthur Conan Doyle.

The Six Thatchers

Nota do Episódio - 9.5

9.5

Review do primeiro episódio (Season Premiere) da quarta temporada de Sherlock, da BBC One, intitulado "The Six Thatchers".

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About Richard Gonçalves

Richard Gonçalves
Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.

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