The End of the F***ing World: origens, teorias e futuro da série

The End of the Fucking World chegou de surpresa ao catálogo da Netflix. Em uma semana a plataforma divulgou o trailer e em outra disponibilizou os oito capítulos da primeira temporada. A estratégia é conhecida da empresa: The OA, no final de 2016, foi pelo mesmo caminho: pouca propaganda e, de repente, estava lançada.

A Netflix deixa, assim, que suas estreias cresçam através do boca a boca e não da divulgação prévia. Neste sentido, TEOTFW merece muito mais comentários do que vem recebendo. Baseado em uma HQ homônima, o show acompanha dois adolescentes que fogem de suas casas. O rapaz, James, deseja matar uma pessoa. Alyssa quer fugir pelas estradas e encontrar o pai. A dupla de outsiders se forma e escapa pedindo caronas, roubando carros e cometendo pequenos crimes.

Com oito episódios de 20 minutos, a primeira temporada pode ser assistida rapidamente; e a série tem tudo para render uma ótima maratona. Bem escrita, com ótimo visual e elenco, TEOTFW te convida a assistir um capítulo após o outro e, no fim, a sensação é de carência, já que tudo termina muito rápido. Neste texto, falaremos sobre as origens da série, comentando as diferenças e semelhanças entre o programa e a HQ original. Além disso, debateremos sobre o futuro da série, que merece uma segunda temporada.

Assim, estejam avisados: este texto contém spoilers da primeira temporada de The End of the Fucking World e da HQ que a inspirou.

Série versus HQ

A primeira temporada de TEOTFW é baseada na HQ homônima de Charles Forsman, lançada no início da década. Vale apontou que tudo começou no formato de tirinhas curtas lançadas regularmente e que, depois, viraram a HQ completa que inspirou a série. Assim, a linguagem é simples e objetiva, algo que se reflete nos traços práticos. O principal ponto a ser apontado é que a série é notavelmente fiel à HQ. Algumas das cenas seguem rigorosamente a lógica visual e os diálogos do livro. Algumas mudanças, contudo, saltam aos olhos.

A primeira grande mudança é: as duas detetives que investigam o caso envolvendo James e Alyssa não existem na HQ, tendo sido incluídas exclusivamente na série. Nas páginas, quem persegue o casal é outra pessoa. Na HQ a dupla chega na mesma casa vazia da série. Eles entram, comem e se divertem. James descobre a caixa com fotos de cadáveres e chega à conclusão de que o dono do lugar é um maníaco. Aqui as coisas divergem entre os materiais: na série, Alyssa encontra um rapaz na rua e o leva para casa. Na HQ, James e Alyssa transam e dorme juntos, até que o maníaco chega em casa. Na série, James fica escondido embaixo da cama, assustado, antes de tomar uma decisão e matar o maníaco que está preste a estuprar Alyssa. Na HQ há uma pequena, mas considerável mudança: James, deitado na cama com Alyssa, diz para ela ficar quieta e confiar nele. Ele sai da cama e espera, propositalmente, pela chegada do maníaco. O homem chega e James, tendo elaborado o plano, chega e mata o assassino.

A mudança é considerável pelo fato de que James, na série, é um jovem assustado, cheio de dúvidas sobre o que quer e sua personalidade criminosa. Na HQ, contudo, o jovem é muito mais frio e propenso à violência. Na HQ, James pensa em toda a situação e friamente elabora um plano para matar o maníaco. Na série, o rapaz quase permanece escondido, sem muita coragem para matar. É uma das grandes diferenças da série para a HQ: James e Alyssa têm personalidades muito diferentes. Eles são mais alternativos/hipsters na série, enquanto na HQ são mais frios.

Depois da morte do maníaco há a grande mudança: na HQ, uma colega do maníaco chega na casa e descobre o corpo do parceiro. O problema é que além de fazer parte do culto, sendo, assim, outra psicopata, a pessoa também é policial, e consegue ver o rosto de James antes da fuga. Assim, a psicopata persegue os adolescentes, o que não acontece na TV, já que na adaptação quem está no encalço dos jovens são as duas policiais do bem. Outros personagens que não existem na HQ são: Frodo, o atendente do posto de gasolina, e sua chefe e o rapaz que Alyssa leva para casa.

Outras pequenas mudanças são claras: na série, James tem a mão ferida depois de mergulhá-la em óleo fervente. Na HQ ele coloca o braço no triturador da pia, que lhe arranca alguns dedos. A mudança possivelmente foi feita por uma questão de praticidade, já que é muito mais fácil aplicar uma simples maquiagem na mão do ator do que retirar alguns dedos digitalmente. Outra alteração envolve o padrasto de Alyssa: embora saibamos que o homem é pervertido na HQ, não o vemos. Na série, seu personagem é melhor desenvolvido.

Outra abordagem distinta envolve o pedófilo que dá carona à dupla e ataca James no banheiro. Na série, o homem está ao lado de James no banheiro até que pega a mão do garoto e o faz tocá-lo. Na HQ, o homem tenta molestar James dentro do carro, enquanto dirige; a ação acaba quando Alyssa acorda no banco de trás e imobiliza o pedófilo. Pequenas mudanças surgem aos poucos e com menos destaque (na HQ, quem pega Alyssa roubando é um guarda; James não paga para os garotos o agredirem, mas rouba uma garrafa de álcool, o que desencadeia a briga nas páginas)

Duas mudanças interessantes envolvem o espaço e o tempo: a HQ se passa nos Estados Unidos enquanto a série é tipicamente britânica. O show se passa nos dias atuais, enquanto a HQ parece se desenvolver alguns anos no passado. Na HQ, embora sejam outsiders, a dupla parece mais convencional, seno jovens deslocados, mas um tanto normais. Na série, ambos são consideravelmente diferentes dos demais adolescentes da mesma idade. A Alyssa da TV é muito mais afrontosa, desbocada e valente do que a da HQ, enquanto James é mais sensível na série. Outra alteração considerável é que os jovens são muito mais próximos na HQ, nutrindo um relacionamento amoroso mais explícito, envolvendo mais declarações sobre isso, além de uma cena de sexo, o que não ocorre na adaptação.

O fim

Na série, após a denúncia do pai e Alyssia, a polícia encurrala a dupla. James diz para Alyssa alegar inocência, jogando toda a culpa para ele. Com isso, foge da polícia, correndo pela praia. Os policiais atiram e, ao som de um disparo, a série acaba. Não sabemos o que aconteceu; não fica claro se James é atingido ou se consegue escapar. Na HQ, o processo é semelhante: o pai de Alyssa denuncia e a polícia chega ao local. James foge e é perseguido pela policial que era parceira de culto do maníaco. James é atingido por um tiro na perna e cai. A policial/psicopata se aproxima e, com uma faca, corta o rosto de James, bem como os dedos restantes de sua mão machucada. James reage e começa a agredir a mulher. Outro policial se aproxima e pede para que James pare com a agressão. O jovem não obedece e é alvejado. James morre. Depois desta sequência, vemos Alyssa em casa. Ele está deitada na cama, triste. Ela levanta, esquenta um prego na chama de uma vela e escreve o nome de James no braço, provando seu amor ao jovem.

A HQ, diferente da série, tem um final definitivo. O show, claro, deixa o desfecho aberto para possível continuação. Caso ocorra, a segunda temporada seria totalmente independente da HQ, contando uma história nova. Caso não seja renovada, podemos considerar o final da HQ como oficial. O último tiro da série, portanto, seria fatal, matando James. Isso pode até ser explicado pelo fato de que ao ouvirmos um disparo, a tela fica preta; logo, James teria morrido e a história acabado abruptamente.

Caso seja renovada, o que pode acontecer? É provável que James seja capturado, e a nova temporada se desenvolva no julgamento da dupla. As ideias são inúmeras: poderíamos acompanhar Alyssa tentando resgatar James da prisão. Poderíamos ver os jovens sendo inocentados e partindo em busca de novos psicopatas para matar. É possível que vejamos os jovens tentando viver normalmente na cidade. Algo interessante seria vermos os adolescentes inocentados dos crimes e tentando levar uma vida sossegada. Com o tempo, uma pessoa amiga do maníaco assassinado poderia surgir, perseguindo o casal em busca de vingança. Seria uma forma de seguir levemente fiel à HQ, além de desenvolver a história com base em fuga e perseguição.

TEOTFW é uma série que se baseia na estrada, e tê-la parada não faz sentido. É preciso ver a dupla em movimento para que a trama aconteça; assim, seria interessante que a personagem da HQ, que faz parte do culto, surgisse para atormentar a vida de James e Alyssa. Tudo isso contudo, não deve acontecer tão cedo. A série estreou em outubro na plataforma do canal britânico Channel 4 e em janeiro na Netflix. Nenhuma empresa ou membro da equipe confirmou a segunda temporada. Caso ocorra um novo ano para a série, este deve vir com certa demora: o Channel 4 não costuma seguir datas fixas para seus lançamentos e o programa parece daqueles que demoram bastante para retornar (como The OA, por exemplo).

Assim, resta esperar para ver o que pode – ou não – acontecer com The End of the Fucking World. Nossa torcida é que uma segunda temporada seja anunciada em breve. Enquanto isso, reveja o primeiro ano, leia a HQ e nos diga o que você acha que pode acontecer no futuro da série.

Leia nossa CRÍTICA da primeira temporada.

About Matheus Pereira

Matheus Pereira
Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.