The Mist – A adaptação do conto de Stephen King não causa impacto

Imagem: Netflix/Divulgação

“Parte do nevoeiro era de uma brancura ofuscante. sem nenhuma variação, mas tampouco sem as cintilações provocadas pela umidade. Deveria estar a um meio quilômetro de distância agora, sendo mais incongruente do que nunca o contraste de sua alvura com os tons de azul do céu e do lago.” – O Nevoeiro, Stephen King

Estrear aqui nas resenhas do Mix, avaliando uma adaptação do famoso conto de Stephen King, torna toda a tarefa bem mais difícil. Considerado um dos ícones da literatura de horror norte-americana do século XX, King possui uma obra multifacetada, abordando temas diversos com perspectivas instigantes. Em O Nevoeiro (1980), o autor exibe suas referências a outro importante escritor do gênero, H. P. Lovecraft, explorando o medo do desconhecido e a ideia de que a humanidade é algo muito inferior à natureza e aos seres cósmicos e sombrios que habitam a Terra. A história, já adaptada para as telonas, em 2007, preza pela criação de um sentimento de horror a partir do seu personagem principal, o nevoeiro.

A adaptação produzida pelo canal norte-americano Spike, e transmitida no Brasil pela Netflix, tenta trazer a essência do conto para temáticas e cenários atuais, usando textos e discussões pontuais para se posicionar quanto a problemas relevantes da sociedade ocidental (estupro, racismo, radicalismo político, e, claro, desequilíbrio entre homem e natureza). A proposta da série é interessante, pois a atualização de estórias clássicas pode mostrar como certos autores e textos são capazes de tocarem diversos públicos em momentos diferentes. Os problemas da série estão na execução dessas adaptações.

Os primeiros episódios da série se dedicam a apresentar a cidade de Bridgton e os personagens envolvidos na aparição repentina do nevoeiro. Desde o soldado desmemoriado até a jovem Alex, que sofre uma agressão traumática logo no começo do piloto, as atuações são fracas, e não conseguem ambientar o espectador nos conflitos e relações da cidade. Parte dessa construção irregular da ambiência da série também fica por conta da sobreposição de histórias, com a apresentação sem fim de pontas soltas em personagens que acabam por não ter grande relevância na trama geral.

Outro recurso típico de produções de terror/horror é a morte de personagens óbvios, quase como uma punição por serem verdadeiros pés no saco nos poucos momentos de tela que possuem. Partindo da ideia de que nenhum personagem é puro, pois a tensão e desespero provocados pelo nevoeiro e as sucessivas mortes levam as pessoas a serem movidas pelos instintos mais elementares de sobrevivência, a série coloca os personagens em três níveis: os mocinhos bons com alguns erros, as pessoas individualistas com alguns desvios de caráter, e os canalhas, que só aparecem para representar clichês ruins e morrerem. O problema dessa abordagem é que tira grande parte do suspense, tornando um pouco óbvio os eventos de cada cena ou episódio. Nesse conjunto de pessoas “não-idealizadas”, encontra-se Morgan Specter (Kevin Copeland), um cara que somente quer manter sua família a salvo do nevoeiro e da cidade.

Outro ponto complicado da série diz respeito aos efeitos especiais e à presença do próprio nevoeiro na tela. Por vezes, não dá para ficar convencido de que realmente há um nevoeiro na frente daquelas pessoas, tanto pelos efeitos da névoa quanto pela maneira como os atores interpretam a situação, ora transmitindo uma falta de orientação e confusão, ora parecendo que estão somente em uma neblina chata. Efeitos de CGI mais simples, como de animais se movimentando de forma estranha, por assim dizer, também não convencem.

A trama vai sendo carregada com resoluções pobres de alguns dos problemas apresentados ao longo da série, e as discussões importantes apresentadas em diálogos fracos acabam por ali mesmo, sem aprofundamento ou uma contribuição maior ao plot central. Por sinal, a justificativa para tudo que ocorre vai sendo jogada na sua cara, desde o início do primeiro episódio, e repetida ao longo dos seguintes de forma forçada, também quebrando um elemento essencial de narrativas desse gênero: o desconhecido. Stephen King é um mestre em articular o medo ao desconhecido, e faz isso muito bem no conto.

Os leitores do conto de King, os fãs da literatura de horror oriunda de H. P. Lovecraft e seus seguidores, e mesmo os simpatizantes do bom filme de 2007, terão algumas decepções no caminho da série, pois elementos fundamentais da trama foram deixados de fora. A tentativa dos roteiristas de emplacar uma série de horror com temáticas atuais, buscando discussões que têm sido trabalhadas na cultura mainstream recente, fez com que o principal de uma estória desse tipo fosse esquecido, o horror. A série não promove nenhum momento de tensão ou medo, e os falsos “jump scare moments” causam aqueles instantes de “méé” no espectador.

Se fica uma lição da experiência de The Mist, é de que as adaptações precisam ser selecionadas com muito cuidado. O mercado de séries fornece uma quantidade de opções cada vez maior, muito por conta do boom dos serviços de streaming, e isso pode levar a leituras forçadas de algumas obras muito importantes para certos gêneros literários.

O canal Spike ainda não se posicionou oficialmente quanto a uma segunda temporada da série. Caso venha a acontecer (não vejo sentido para que isso ocorra), espero que sejam abandonados os vários plots secundários mal trabalhados, e o foco da série se direcione para a essência do material de Stephen King.

The Mist - A adaptação do conto de Stephen King não causa impacto

Nota da Temporada - 2

2

Crítica da 1ª temporada de The Mist, produzida pelo Spike e transmitida pela Netflix.

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About Luiz Alves

Luiz Alves
Historiador, fã de histórias em quadrinhos e jogador de RPG de longa data. Tem interesse por séries de suspense, como Hannibal, The Killing, Luther etc., de fantasia, como Penny Dreadful; e de todas as séries baseadas em HQs.
  • Wellington Torres

    Excelente resenha!

  • Caio Lima

    Desculpe, mas eu discordo!!! Não que seja mentira a maioria das coisas faladas no texto, algumas atuações são sim fraquíssimas, os efeitos não convencem e a sim vários outros pontos a serem criticados. Mas parece que as pessoas se esquecem da intenção principal (da maioria) das séries… ENTRETENIMENTO. Vi muito julgamento pra cima da série, talvez por todo hype criado por ser uma obra do King, ou por alguns membros do elenco (como Frances Conroy), mas acho muito injusto falarem que a série é ruim, que não convenceu ou que não merece uma segunda temporada. Mesmo com os defeitos, uma coisa a série Não é… chata, eu me peguei super dentro da história e achei ela super dinâmica, fora as varias lições que ela passou sobre o comportamento humano em situações como essa. Como eu disse, pra mim a série entretém, não é uma série feita pra Globos de Ouro ou Emmys, é uma simples pedida de passa tempo na frente da TV. Tem séries que são assim, já vi muita série aclamadíssima seja por produções ou atuações fantástica, mas que são um sono só de assistir. The Mist tem seus defeitos, mas não significa que ela seja tão ruim como estão falando, tem muita gente acostumada a grandes produções alá HBO, e esquecem que existe muito mais na TV

  • Rodrigo D Silva

    Assisti primeiro episódio;
    Professora da aula de educação sexual sem poder
    Garoto homossexual não tem diálogo com pai pois o mesmo não fala com ele pois usa maquiagem
    Mesmo garoto vendo jogo de futebol fala que negros não tem participação pois são oprimidos, toma uma invertida da amiga falando que os 3 melhores da NFL são negros, mesmo assim diz que são pois são oprimidos
    Em festa um cara vai bater no mesmo garoto pois estava “soltando a franga” na festa e trocou provocações de cunho sexual
    Garota violentada sexualmente, aí todo mundo falando que culpa da menina e fazendo toda aquela discussão besta e sem sabedoria “quem é a culpa do estupro”.

    Olha….isso é O Nevoeiro? Li a grande maioria das obras do King e mesmo ele sendo um progressista de merda (depois de velho gagá) nos livros sempre foi imparcial, maioria colocava a situação de uma sociedade e passava por cima dela com fantasias e histórias s ficar nessa política fajuta do século 21. Essa série nasceu morta, todo mundo está cansado dessas baboseiras polarizadas de politica, esperava ver nevoeiro, desespero, loucos e monstros como o conto e até o filme que foi muito bom.