The Sinner prova que histórias simples podem resultar em um suspense fascinante

Imagem: USA Network/Netflix/Divulgação

Lançada e exibida sem grande repercussão pelo canal USA Network, The Sinner encontrou seu grande público no catálogo da Netflix, que mais uma vez acerta em cheio na aquisição dos direitos do thriller baseado no livro da escritora alemã Petra Hammesfahr.

Tão simples quanto sua estreia é a trama central da produção que escalou Jessia Biel para encarnar Cora, uma mulher comum, mãe, esposa, moradora de cidade pequena, que em um dia de praia com a família, sem nenhum motivo aparente, mata – a facadas – um jovem que estava há pouco metros dela, que na sequência afirma não saber explicar porquê matou o rapaz.

O assassinato que sustenta a história é exibido sem maiores rodeios ainda nos primeiros quinze minutos do primeiro episódio. O ritmo constante e a entrega de repostas sem muitas firulas às duvidas que são levantadas são atrativos determinantes e seguram a atenção ao longo dos oito episódios que nos levam em uma viagem muito bem desenhada e guiada rumo ao futuro incerto da personagem e também ao seu conturbado passado, através de flashbacks que mostram momentos de sua infância e adolescência.

Em The Sinner, Jessica Biel entrega a maior e melhor performance de sua carreira, ao desaparecer dentro de uma mulher de expressões duras e um olhar atormentado. Com a ajuda do peculiar e insistente detetive Harry Ambrose (Bill Pullman), Cora – e o espectador – imerge em sua própria mente em busca de respostas que explicam um crime imprevisível e brutal. É através da história dos “pecados” da Cora do passado que nós conseguimos, finalmente, entender o motivo do pecado que a fez ser presa.

A relação entre Ambrose e Cora é crucial na série. É somente pela insistência e sentidos aguçados do policial que a história de Cora pode ser contada. A atuação dos dois atores é visceral e as cenas compartilhadas são sempre carregadas de emoção. O detetive que atravessa uma crise em seu casamento e encontra conforto em uma prática sexual nada convencional, enxerga em Cora um reflexo de si mesmo, alguém incompreendido disposto a perder tudo – ou quase tudo – por não conseguir se desvencilhar dos “esqueletos” em seu armário.

Através de suas memórias, descobrimos que Cora enfrentou uma vida de abusos cometido por sua própria mãe, uma cristã conservadora amargurada pelo nascimento de uma filha doente. A matriarca da família atribui à Cora a culpa pela enfermidade e fragilidade da irmã Phoebe (Nadia Alexander). Essa culpa alimentada por anos é combustível para uma relação de dependência entre as duas mais tarde.

Como dito anteriormente, o ritmo ágil favorece a narrativa que aos poucos vai costurando todas as pontas soltas, como em uma colcha de retalhos, utilizando-se, claro, de algumas reviravoltas plausíveis, sem cansar e nem subestimar o espectador. O clima de suspense criado ao redor de uma situação comum e de perssoas sem um “perfil” criminoso aproximam The Sinner de outras séries recém exibidas pela HBO que obtiveram grande sucesso: The Night Of, exibida em 2016, e Big Little Lies, lançada em fevereiro deste ano.

O que se destaca como ponto forte da série, pode facilmente ser apontado como seu maior furo. Talvez por ter sido concebida com o conceito de minissérie e pelo reduzido número de episódios, a trama não deixa espaço para que conheçamos mais a fundo personagens interessantes como o detetive Ambrose e o marido de Cora, Mason Tannetti (Christopher Abbott).

Uma certa sensação de previsibilidade pode desagradar os acostumados com arcos mais elaborados, mas com certeza não tira o brilho tímido de The Sinner, mais uma série digna de maratona que parece já colher frutos de sua qualidade com a possibilidade de receber a encomenda de mais uma temporada.

Com uma conclusão que mesmo não absolvendo por completo a culpa de Cora, que incontestavelmente assassinou uma pessoa, a série nos apresenta à  sua versão verdadeira: uma vítima das circunstâncias que encontra a paz em sua penitência.

The Sinner - 1ª temporada

Nota da Temporada: - 8.5

8.5

Crítica da primeira temporada de The Sinner, disponibilizada no Brasil pelo catálogo da Netflix

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About Italo Marciel

Italo Marciel
Cearense, 28 anos. Jornalista especialista em Assessoria de Comunicação. Viciado em séries desde que se entende por gente e apaixonado por cinema. O cara que fica feliz em indicar uma boa série ou um bom filme para os amigos.