Um dos filmes mais importantes do Oscar, Estrelas Além do Tempo tropeça na formalidade

O cinema contemporâneo tenta cada vez mais ser inclusivo e abordar temas de forma apropriada. Busca-se, por exemplo, falar sobre a causa negra ou incluir personagens negros em tramas sem, com isso, criar um personagem branco que sirva como herói. Veja Histórias Cruzadas, um dos filmes mais superestimados da década; tenta-se ali pintar uma imagem inclusiva falsa e perigosamente errônea. Ao passo que tenta dar voz e espaço a artistas e personagens negros, o filme só serve para arrancar lágrimas fáceis e colocar o povo branco como herói. Pois se os brancos são vilões, serão os brancos os salvadores. Esta é uma ideia absurdamente equivocada que o cinema perpetua por anos e parece não conseguir se desvencilhar.

Podemos encher várias páginas com títulos que trazem personagens brancos servindo como heróis salvadores de minorias. 12 Anos de Escravidão, obra-prima de Steve McQueen, tropeça nesse problema, mas de forma menor. Já filmes como Selma acertam em cheio ao dar protagonismo a quem merece e jamais tirar o brilho destes. Estrelas Além do Tempo, concorrente ao Oscar 2017, faz um bom trabalho na maior parte do tempo, mas também cai nas armadilhas dos clichês e na velha mania de criar um personagem branco – de preferência homem – que veste a camiseta de herói, o que enfraquece o resultado final. Felizmente, contudo, os pontos positivos de Hidden Figures se sobressaem.

A começar pelo elenco. Taraji P. Henson está em um dos melhores momentos de sua carreira. Atriz que frequentemente se entrega a exageros e arroubos emocionais, Henson encontra-se mais contida do que o normal, e realmente emociona quando deixa os sentimentos aflorares. Octavia Spencer, atriz talentosa, mas terrivelmente aproveitada em Histórias Cruzadas, finalmente faz valer o Oscar vencido por The Help. Também atuando um tom abaixo de seu habitual, Spencer é um dos personagens mais bem construídos do roteiro. Completando o trio, Janelle Monáe desponta oficialmente sua carreira de atriz, sendo a melhor revelação do filme.

No comando, o diretor Theodore Melfi faz um trabalho correto, embora burocrático na maior parte do tempo. Ainda assim, é preciso elogiar o diretor por investir suas forças no desenvolvimento da trama e seus personagens ao invés dos floreios técnicos. Neste sentido, o roteiro, também coescrito por Melfi, embora convencional, se destaca por desenvolver o trio principal com propriedade, vasculhando não só a vida profissional daquelas mulheres, mas suas vidas pessoais, seus dramas familiares e a luta pela igualdade.

Estrelas Além do Tempo, contudo, acaba tropeçando justamente na polêmica do “homem branco herói”. Embora dê o protagonismo às mulheres, o longa não perde a oportunidade de criar duas ou três cenas onde o personagem de Kevin Costner eleva-se como um herói forçado quebrador de paradigmas. O próprio diretor, em entrevista recente, revelou que uma das cenas de maior destaque de Costner nunca existiu na realidade, e foi criada para o filme apenas para elevar o personagem branco. A falha não derruba a obra, tampouco prejudica seu andamento, mas a aproxima ainda mais dos dramas convencionais rasos.

Felizmente, contudo, é excelente ver personagens femininos e negros tão fortes em um filme de tamanho apelo. E isso não há como negar: Estrelas Além do Tempo se sai bem neste quesito.

Estrelas Além do Tempo

Nota do filme - 7.5

7.5

Estrelas Além do Tempo talvez seja o filme mais importante do Oscar, mas também o mais convencional.

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About Matheus Pereira

Matheus Pereira
Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.