2001 – Uma odisseia atemporal

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Quando Arthur C. Clarke e Stanley Kubrick fixaram o nome de sua obra como 2001 – Uma Odisseia no Espaço eles basicamente marcaram a história em um ano específico no tempo. Acontece que a dupla criou, na longínqua década de sessenta, uma das obras mais atemporais da ficção. 2001, na verdade, é só um título, algo para situar os personagens e os leitores em alguma época, pois, no limiar, Uma Odisseia no Espaço fala de coisas que transcendem o tempo. Exagero? Não creio. Releia os nomes dos criadores desta saga: Stanley Kubrick é um dos maiores gênios que o cinema já apresentou e Arthur C. Clarke é um dos maiores expoentes da ficção científica, ao lado de mestres como Isaac Asimov, Philip K. Dick e William Gibson.

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A união das duas mentes gerou a obra máxima da ficção científica tanto no universo cinematográfico quanto no literário. Não houve longa-metragem até hoje que pudesse superar a riqueza técnica e temática de 2001. E estamos falando de um filme lançado em 1968, uma época completamente diferente da atual. Não havia 3D na época, os efeitos visuais, em sua esmagadora maioria, eram criados de forma prática. Nada de CGI. E ainda assim, não consigo lembrar algum filme que tenha o mesmo impacto visual e convença tanto como o de Kubrick. Além disso, 2001 propõe debates profundos acerca da tecnologia, vida, existência, morte, alma, livre arbítrio, etc., etc. Algumas obras tentaram dialogar com o público de forma tão ou mais filosófica. Tarkovski tentou e se saiu muitíssimo bem com suas obras-primas Solaris e Stalker.

Mas 2001 está em outro nível. O projeto basicamente virou sinônimo de complexidade temática, de filosofia através da sétima arte. O fato é que Odisseia não apenas um filme. Pelo contrário, o projeto nasceu da vontade de Kubrick realizar a ficção científica definitiva. Para isso, Stanley procurou aquele que julgava um dos melhores na área. Clarke, portanto, apresentou alguns contos e ideias para o cineasta que, dentre tantos, juntou ideias de vários pontos. A Sentinela, porém, foi um dos que mais incentivou a criação de 2001. Mas não se engane. Odisseia não é baseado em Sentinela e o próprio Clarke afirma isso. O projeto, livro e filme, é muito mais. É uma porção de ideias complexas vindas de duas mentes brilhantes.

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Kubrick e Clarke no set de “2001”.

Kubrick e Clarke então se uniram e escreveram o roteiro do filme e o romance praticamente ao mesmo tempo. Arthur, escritor, ajudou a escrever o roteiro e Stanley, o cineasta, ajudou a escrever o romance. A dupla decidiu, contudo, que o filme levaria o nome de Kubrick como principal, enquanto o livro teria o nome de Clarke na capa, embora o autor desejasse os dois nomes em destaque. Por que falo sobre tudo isso? Porque isso escancara o quão único e genial é 2001 como um todo. Desde sua gênese até os dias de hoje, Odisseia no Espaço é uma obra de incrível significância, sendo feita, lançada e apreciada como poucas jamais foram.

A contextualização vem, inclusive, para provar um ponto: 2001, o filme, nunca será completo sem a sua versão literária. E vice versa. 2001 é algo para ser consumido, ou melhor, sentido de forma completa. Pessoalmente, assisti o longa-metragem primeiro e só anos depois pude ler o romance. Este talvez seja o melhor caminho a seguir, e o que provavelmente todos percorrem. A versão audiovisual é rica em questionamentos, escassez de respostas e abstração. Não há nada direto ou claro no filme, pelo contrário, tudo está tão profundo em suas concepções que é preciso viajar a fundo em ideias e pensamentos para tirar algum sentido em alguma coisa.

O romance, que você encontra lançado aqui no Brasil pela Editora Aleph, porém, já é bem mais direto e claro. E não poderia deixar de ser. Um livro, não precisamos ser gênios para concluir, precisa narrar através de palavras diversas ações e pensamentos. Enquanto o filme pode sugerir com imagens e sons, o livro precisa escrever, deixar claro. Em suma, precisa dar municio suficiente para que o leitor possa entender a trama e tirar suas próprias conclusões. Essa grande diferença entre as versões (não chamarei o filme de adaptação, pois nenhum surgiu antes do outro. Livros e filme nasceram e cresceram juntos) pode ser percebida logo na primeira parte. Noite Primitiva, parte inicial do romance, nos apresenta aos os primatas em seu cotidiano mudo, caçando, mirando a Lua e brigando com grupos rivais. Tudo seguindo calmamente até o surgimento do monólito.

Nas páginas, os homens-macacos, como são tratados por Clarke, têm nomes. Aquele-que-Vigia-a-Lua é o primeiro protagonista da história. Assim, logo de início, o autor já deixa completamente às claras coisas que eram apenas sugeridas no longa-metragem. O leitor tem material suficiente para conjecturar sobre o que é o monólito, por exemplo. Fica evidente a importância e o papel do monólito para o grupo de primatas. O elemento negro de formas perfeitas acaba se revelando vital para a evolução humana logo no primeiro capítulo. Algo que nunca fica claro na abordagem de Kubrick.

Mas não julgue o trabalho de Clarke como simplista ou “mais fácil” que o filme. A trama segue complexa e ambiciosa, abordando diversos personagens e diferentes épocas para contar o que é preciso. E é preciso elogiar Clarke de todas as formas possíveis. Poucos autores seriam capazes de escrever uma história tão difícil da forma que ele fez. Sua prosa é perfeitamente fluida; é acessível, mas poética em um nível que só os grandes escritores atingem. Ler 2001 é encontrar diversas passagens antológicas. É cada frase bem montada e com inúmeros significados que seria possível criar outro livro apenas com excertos geniais de Odisseia no Espaço.

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Muito dessa beleza se dá porque Clarke domina a técnica narrativa e sempre foi grande conhecedor de tecnologias, invenções e teorias. Além disso, o autor nunca esquece o “fator humano”; assim, seus capítulos são permeados por grandes reflexões e questões puramente humanas e sentimentais, o que impede que o romance se torne frio. O próprio filme de Kubrick, distante em muitos aspectos, trazia uma humanidade inegável em suas cenas e ideias. Assim, quando nos pegamos torcendo por homens-macacos pouco racionais ou por personagens destinados a desaparecer rapidamente, percebemos o quão talentoso é Arthur C. Clarke e quão poderosa é sua escrita.

E se você não gostou do filme e o achou enfadonho, não se preocupe: o romance é fluido e envolvente, tendo um ritmo impecável. Além disso, as páginas podem fazer com que você passe a gostar do longa-metragem, já que explica uma série de coisas e cria significados para o que poderia parecer vazio. Para quem é fã do filme, o livro é leitura indispensável. O único problema será para aqueles que preferem o mistério e a subjetividade do trabalho de Stanley Kubrick. Clarke acaba explicando muita coisa, o que pode tirar um pouco da graça de descobrir tudo sozinho. Além disso, as teorias que você pode ter criado com o filme, correm o risco de serem derrubadas pelo livro.2001aleph

Toda essa impecabilidade narrativa só poderia ser lançada ao público através de uma edição igualmente linda. E a Editora Aleph merece todo os elogios não só pelo trabalho esmerado com 2001, mas com diversas outras obras. Com Odisseia no Espaço, a Aleph trouxe o livro como se este fosse um monólito, assim como o do filme. Trata-se de um bloco negro com todos lados pintados de preto. Quem olha rapidamente, nem reconhece um livro. O volume vem dentro de uma caixa que traz o “olho” vermelho de HAL 9000, bem como o título e o nome do autor. Tudo com uma pegada minimalista caprichada.

Além disso, o livro é um presente para qualquer fã: de início temos uma nota à edição brasileira, que nos explica mais ou menos o que poderemos encontrar nas páginas seguintes. Logo após, temos uma breve homenagem de Clarke a Kubrick; trata-se de um curto texto escrito por Arthur logo após a morte do cineasta americano e que mescla racionalidade e emoção como o autor bem sabe criar. Ainda temos dois belos prefácios: um é destinado à edição do milênio e traz uma contextualização importante sobre todo o projeto. São várias curiosidades expostas pelo próprio escritor acerca do processo de criação de 2001. O outro prefácio é curtíssimo e serve mais como introdução à história, já que insere o leitor em alguns interessantes aspectos filosóficos: “Por traz de todo homem vivo hoje estão trinta fantasmas, pois esta é a proporção pela qual os mortos superam os vivos”, começa Clarke de forma arrebatadora.

Depois do prefácio temos então o romance em si, dividido em seis partes bem definidas, assim como o filme. Mas não é só, pois a edição ainda traz dois extras sensacionais: os contos A Sentinela e Encontro no Alvorecer, que serviram como pontapé inicial a 2001. Como se não fosse o bastante, ainda temos um breve explicativo sobre o autor e duas sinopses sobre dois outros livros do escritor, também publicados pela Aleph: O Fim da Infância e Encontro com Rama. É daquelas edições que precisam estar na estante, com um espaço cativo. Uma obra dessa magnitude merecia um tratamento assim e acaba nos lembrando porque livros são tão bons e tão eternos. Assim como 2001.

[…] aí vai depender da resposta à sua pergunta favorita: existe vida inteligente na Terra?

Trecho de carta escrita por Stanley Kubrick para Arthur C. Clarke.

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