O drama argentino 27 Noites (27 Nights), lançado recentemente na Netflix, tem intrigado o público por sua intensidade emocional e pelo retrato realista de uma mulher internada contra a própria vontade. A pergunta que vem dominando as redes é inevitável: a história de Martha Hoffman realmente aconteceu?
A resposta é sim — mas com nuances. O filme, dirigido por Daniel Hendler, é inspirado em fatos reais, embora adote uma abordagem ficcional que mistura realidade e imaginação para discutir temas como autonomia, envelhecimento e saúde mental.
A história por trás de 27 Noites
Na trama, Martha Hoffman é uma renomada colecionadora de arte que, após conflitos familiares e decisões consideradas impulsivas, é internada à força em uma clínica psiquiátrica. A partir daí, o filme mergulha em uma jornada psicológica e ética sobre liberdade e poder — tanto dentro quanto fora da mente da protagonista.
O roteiro, assinado por Daniel Hendler, Mariano Llinás e Martín Mauregui, é baseado no romance homônimo de Natalia Zito, que por sua vez foi inspirado em um caso real que chocou a Argentina: a história da escritora e artista Natalia Kohen.
O caso real de Natalia Kohen
Nascida em 1919, na província de Mendoza, Natalia Kohen foi uma intelectual e filantropa argentina, casada com o empresário Mauricio Kohen, fundador da farmacêutica Argentia. Após a morte do marido, ela se dedicou à arte e à criação de um centro cultural — decisão que acabou gerando atritos com suas filhas, Nora e Claudia.
Em 2005, aos 86 anos, Natalia foi diagnosticada incorretamente com a doença de Pick — uma forma de demência frontotemporal que afeta a comunicação e o comportamento. O diagnóstico levou à sua internação forçada em uma clínica psiquiátrica em Buenos Aires, chamada Ineba (Instituto de Neurociencias de Buenos Aires), onde ficou por 27 noites — um número que acabou batizando o filme.
Durante esse período, ela descreveu a experiência como traumatizante, conforme relatado ao jornal argentino Página 12 em 2006. Mesmo dentro da instituição, Natalia conseguiu mobilizar amigos e jornalistas, o que resultou em uma campanha pública que pressionou sua liberação.

A batalha judicial e o questionamento do diagnóstico
Depois de sair da clínica, Natalia Kohen iniciou uma ação judicial contra o neurologista Facundo Manes, responsável pelo diagnóstico de demência.
Durante o processo, vieram à tona inconsistências nos laudos médicos — o próprio instituto onde o médico trabalhava, o FLENI, afirmou não ter registros da avaliação feita em Natalia. Além disso, um dos certificados foi assinado pela advogada de Manes, que admitiu nunca ter examinado a paciente.
Em 2007, um tribunal argentino concluiu que Natalia não sofria de demência frontotemporal, anulando oficialmente o diagnóstico.
Ainda assim, ela foi considerada legalmente incapaz, com a designação de um curador para administrar seus bens — uma decisão que reacendeu o debate sobre autonomia de pessoas idosas e direitos civis.
Natalia Kohen viveu até 2022, aos 103 anos, e segundo documentários produzidos sobre o caso, ela reconstruiu a relação com as filhas nos anos seguintes ao julgamento.
O que o filme 27 Noites muda (e o que mantém)
Embora 27 Noites não seja uma reconstrução literal do caso, ele mantém a essência da história de Natalia Kohen. A personagem Martha Hoffman espelha a artista real em vários aspectos: a idade avançada, o prestígio intelectual, o conflito com as filhas e o trauma da internação forçada.
O filme, porém, adota uma narrativa mais simbólica e introspectiva, explorando a mente da protagonista e a relação entre corpo, desejo e liberdade. A ficção serve como lente para refletir sobre o poder das instituições médicas e jurídicas, além de levantar questões morais sobre o que significa “cuidar” de alguém contra sua vontade.
Segundo o produtor Santiago Mitre, o objetivo não era transformar a história em espetáculo, mas “dar luz aos detalhes humanos e políticos por trás dela”. Ele destacou que o longa conecta o passado e o presente da Argentina, ao mostrar como o Estado e as famílias ainda falham ao lidar com o envelhecimento e a dignidade das pessoas idosas.
Um filme sobre poder, corpo e liberdade

A roteirista Natalia Zito, autora do livro original, afirmou em entrevista que a obra também busca discutir o lugar social da mulher idosa. Segundo ela, 27 Noites “fala sobre o que achamos que é permitido ou não na velhice, especialmente para as mulheres, e sobre como o tema da herança se torna um campo de disputa moral e emocional”.
Dessa forma, o filme vai além do caso individual: ele se transforma em um retrato universal sobre autonomia e controle, questionando quem realmente tem o direito de decidir o destino de outra pessoa.
Entre a realidade e a reflexão
Sim, 27 Noites é inspirado em uma história real — mas sua força está justamente em como transforma o fato em reflexão. A trajetória de Martha Hoffman ecoa a de Natalia Kohen, mas também a de muitas outras mulheres que tiveram suas vozes silenciadas por diagnósticos precipitados ou por disputas familiares.
Mais do que um drama judicial, o filme é um manifesto poético sobre liberdade e dignidade, lembrando que o verdadeiro confinamento nem sempre está nas paredes de uma clínica, mas nas estruturas sociais que insistem em decidir o que é melhor para os outros.