5 razões que fazem ’13 Reasons Why’ ser uma série problemática

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A 5 Razões de hoje é bem pessoal. Estava inquieto sobre produzir, ou não, um conteúdo que levanta pontos problemáticos sobre 13 Reasons Why, uma das últimas sensações da Netflix. Mas acho necessário.

Antes de qualquer coisa, e de qualquer interpretação deste texto, preciso confessar algo que talvez seja difícil de expressar: depressão já foi um problema diário em minha vida – e de certa forma, lido com consequências deste problema até hoje, assim como a tentativa de suicídio já foi uma realidade bem próxima.

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Eu não li o livro. Na verdade, sempre tive resistência a este assunto. Mas me permiti assistir a série da Netflix, que foi tão falada e elogiada. E após ler alguns artigos na imprensa lá fora, que expressam dados importantes que cito ao decorrer da matéria, resolvi expressar alguns pontos meus. Obviamente, esse texto não é para desencorajar ninguém à assistir. É apenas uma opinião pessoal, e uma experiência, de quem teve sérios problemas em continuar assistindo a série.

A série simplifica o suicídio e perpetua a ideia de que é preciso culpar alguém…

Todos nós somos afetados pelo que fazemos e pelo que nos acontece. E, às vezes, o que nos acontece é injusto, doloroso ou mesmo traumatizante. Não estou dizendo que essas coisas que as pessoas fazem não importam. Mas quando 13 Reasons confronta assuntos como bullying, rumores e agressões sexuais, que afetam absolutamente a nossa saúde mental, eles trabalham com a ideia de que há um caminho direto e linear para o porquê um suicídio aconteceu, apontando os dedos para os pares, pais ou outro indivíduo, e isso é muito prejudicial. O suicídio é uma questão complexa e não pode ser definido de uma forma simples, colocando a culpa em alguém. Às vezes, o suicídio não tem outra razão senão a depressão intensa ou outra doença mental, como esquizofrenia, transtorno de personalidade limítrofe ou transtorno bipolar. É perturbador ver um suicídio retratado com a pessoa suicida querendo que os outros se sintam culpados, em vez de se concentrar nas emoções e pensamentos da própria pessoa e a necessidade de ajuda.

A série dá base para mitos como “o suicida é egoista”!

Pessoas que acreditam em mitos nocivos sobre o suicídio podem olhar para esta série e “provar” deste ponto. O fato de que Hannah, a garota que morre por suicídio na história, envia fitas pré-gravadas detalhando as razões (tanto os eventos quanto as ações das pessoas) que levaram ao suicídio dela são desconfortáveis. E deve ser. A moral da história é que precisamos reconhecer como tratamos as pessoas e como isso as afeta de maneiras que nem sequer sabemos. Isso é verdade. Mas o que é mais desconfortável é o suicídio de Hannah ser visto como uma maneira de expor o que as pessoas têm feito com ela. E embora seja corajoso confrontar o bullying e levantar-se depois de um uma brusca queda, é prejudicial que isso seja feito postumamente, sugerindo que o suicídio era a única maneira de fazer sua voz ser ouvida.

Desconsidera as diretrizes sobre a elaboração de relatórios seguros e responsáveis ​​sobre o suicídio.

Nós sabemos que Hannah morre por suicídio. É a premissa da história e ela é revelada no início, como o resto da série depende dela. Porém, a produção poderia ter sido eficaz e impactante sem o retrato gráfico e detalhado do suicídio de Hannah, que é uma violação direta da pesquisa realizada pela “Fundação Americana para a Prevenção do Suicídio” e também de outras organizações de prevenção do suicídio, ao apontarem que “o risco de suicídios adicionais aumenta quando a história é explícita e descreve o método de suicídio, usa manchetes dramáticos/gráficos ou imagens e cobertura repetida/extensa, usa o sensacionalismo ou glamoriza uma morte”.

Não trata da doença mental na adolescência.

Nem todos os que morrem por suicídio têm doença mental, mas um transtorno mental e/ou abuso de substâncias é encontrado em 90% das mortes por suicídio. E quando se trata de adolescentes, um em cada cinco tem (ou terá) uma grave doença mental. Com essas estatísticas em mente, não é de se admirar que o suicídio seja a terceira causa de morte entre os adolescentes de 10 a 14 anos e o segundo entre aqueles de 15 a 34 anos. Claramente, estas são questões importantes e que precisam ser abordadas. 13 Reasons Why é uma das primeiras e mais populares produções da mídia mainstream de suicídio na adolescência e ela não fala em momento algum sobre doença mental em nenhum momento. Perderam uma oportunidade crucial para discutir uma questão que afeta a vida de tantas crianças e adolescentes.

Não há exemplo de busca de ajuda bem-sucedida.

Um tema abordado na história é o silêncio. Nenhum dos adolescentes fala com seus pais, professores, funcionários ou qualquer um, sobre seus sentimentos. Como Hannah estava contemplando o suicídio e preparando as fitas, ela teve “uma tentativa” para pedir ajuda. Tendo Hannah indo para o conselheiro e ele não conseguido compreender o seu estado mental, deixando de ajudá-la, a série acaba enviando uma mensagem de que a ajuda é inalcançável. Que há sempre aquele estado de “tarde demais” para ser ajudado. Depois de seu suicídio, seus colegas também não recebem ajuda. Vários personagens têm formas extremamente difíceis em lidar com as fitas e isso não é trabalhado de uma forma positiva. Sei que adolescentes são difíceis de lidar, mas o que seria útil é mostrar como pedir ajuda, como o tratamento e aconselhamento estão disponíveis. Queria que um único personagem mandasse alguém intervir para brilhar alguma luz, para ser uma imagem de esperança, que pudesse ajudar a narrativa a ser uma forma de encorajar a conversa e a busca de ajuda. É preciso haver um exemplo do que fazer, não apenas o que não fazer. Quando apresentamos um sistema falho sem a via para a mudança, isso não ajuda a impedir o assunto que a serie trabalha.

Por favor, mais uma vez reafirmo que esta é minha visão de ver a série. E isso não quer dizer que ela, ou o livro sejam de todo ruim. Eles acertam em algumas coisas, como a abordagem do estupro. A história age como um aviso de como devemos tratar as pessoas bem, estando ciente de como nossas palavras e ações afetam os outros, e isso é uma ótima abordagem. Mas acho que ela fica confusa e perdida às vezes. É histórias como estas que me lembram do trabalho que precisa ser feito na mídia para envolver advogados, clínicos e pessoas com experiência vivida para garantir que estamos apresentando histórias que precisam ser contadas da maneira mais responsável e eficaz possível, junto com a representação de como obter ajuda.

Inclusive, conheça a página do CVV – Centro de Valorização da Vida e veja como há esperanças e pessoas que acreditam que o suicídio não é a única saída.

Anderson Narciso

Anderson Narciso

Criador, editor e redator do site Mix de Séries, é apaixonado por séries desde sempre. Fã incondicional de One Tree Hill, ER, Friends, e não perde um episódio da Franquia Chicago.

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