A lenda urbana recifense Amores Roubados

Amores Roubados

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Embora o Brasil seja o país das telenovelas, são as minisséries que mais chamam atenção do público que prefere um produto diferenciado. Seja por contar com poucos capítulos, gerando um maior empenho da produção com detalhes, ou seja por se basear em obras da literatura nacional – o que não é raro. Títulos como O Auto da Compadecida e O Canto da Sereia são bons exemplos disso, e Amores Roubados entrou no time das adaptações com tudo que teve direito.

Escrita por George Moura (O Rebu), Amores narra como a vida amorosa de Leandro, interpretado por Cauã Reymond, muda completamente a vida de Isabel (Patrícia Pillar) e Antônia (Isis Valverde), que são nada menos que mãe e filha. O programa já começa com um flashforward: uma forte cena de ação em que o protagonista foge de um atentado a sua vida, que na verdade só viria a acontecer alguns episódios depois.

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Nascido no sertão, mas criado por sua mãe em São Paulo, Leandro retorna a Pernambuco como sommelier e acaba se envolvendo com três populares mulheres da região. Além de Isabel e Antônia, ele também se envolve com Celeste (Dira Paes), casada com um dos poderosos da cidade, só para complicar um pouco mais a vida do cara. O que muita gente não sabe, portanto, é que o programa é livremente inspirado em um famoso romance recifense chamado “A Emparedada da Rua Nova”.

folhetimO livro é do escritor Carneiro Vilella (1846-1913), que publicou inicialmente sua obra como folhetim no Jornal Pequeno, do Recife, entre 1909 e 19012, e só foi editada para ser publicada como livro anos depois. Vilella contava a história de uma jovem burguesa que foi emparedada viva a mando do próprio pai, após descobrir que estava grávida do namorado. O romance com viés histórico e naturalista traz uma breve lembrança dos contos de Edgar Allan Poe, que usa o “emparedamento” em publicações como “O Barril de Amontillado” e no angustiante “O Gato Preto”.

Existe um mito, no Recife, de que o crime realmente teria acontecido. Porém, não há nenhuma confirmação de fato. O que se sabe é que a história de Vilella causou polêmica na época, por além de retratar bem a sociedade recifense, falar de temas que não eram tão discutidos.

Como toda adaptação livre, bastante coisa foi modificada, mas algumas permaneceram fiéis como o nome do personagem de Murilo Benício, Jaime. Já o final da obra audiovisual é um pouco diferente do clímax escrito pelo autor pernambucano. Os motivos são vários, mas existem dois específicos que cabem ser citados. O desfecho do livro é uma tragédia, quase um conto de horror, o que não casaria bem com a proposta da série da Rede Globo. O outro motivo é que a narrativa de Vilella se passa em outra época, mais especificamente há mais de um século, enquanto a minissérie acontece nos dias atuais. É um contexto de diferenças gritantes.

Em entrevista (UOL), o autor George Moura contou que modificar o final foi uma decisão bem pensada. “No original, a questão central é a moral do século 19. Antônia fica grávida de Leandro e não pode aparecer assim para a sociedade,” explica. “Jaime então propõe à filha que ela faça um casamento de conveniência com João, no original, seu primo legítimo. Era muito comum nessa época casamento entre primos,” comenta. A decisão de emparedar a própria filha surge quando ela se mostra contra a proposta do pai. “Esse caráter moral da punição já não faz sentido em pleno século 21,” completa.

É interessante pôr ambas as obras em perspectiva para perceber lapsos de caráter da sociedade em questão justamente como citado pelo autor, além de lembrar que na época em que se passa o original, a escravidão ainda era considerada algo normal. Enquanto outro aspecto como o coronelismo ainda permanece impregnado, inclusive no Nordeste. São obras que trazem debates embutidos, na literatura e na TV. Cada uma com suas particularidades.

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