A literatura eterna dos mortos

hannibal

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Há mais mitos e simbologia entre o último dia de outubro e o segundo de novembro que o véu que separa o nosso mundo do lado de lá pode segurar. Na vida real, a fantasia e as brincadeiras do dia das bruxas antecedem uma data nem sempre feliz para quem já se despediu de entes queridos. Contudo, na ficção, escritores e roteiristas se apropriam da representatividade da morte para criar tramas icônicas para a cultura popular – e outras nem tanto.

O clássico absoluto de Bram Stoker, por exemplo, deve ser lembrado em todas as listas possíveis. O romance que explana as consequências da trágica história de amor do Conde ganhou versões memoráveis no cinema. Dos filmes estrelados pelo lendário Christopher Lee a versão definitiva de Francis Ford Coppola (1992), “Drácula” é sempre a primeira referência quando se fala na mitologia dos vampiros. Há quem não ache a escolha do autor de narrar a trama sob perspectiva dos personagens tão feliz assim, mas vale reconhecer a importância da obra para definir tudo o que veio depois no gênero.

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É mais ou menos como Stanley Kubrick fez com “2001: Uma Odisseia no Espaço” no mundo cinematográfico. Você até pode ter suas reservas quanto à linguagem escolhida, mas o que seria do cinema de ficção científica sem a interferência do misterioso monolito na história da humanidade? Dessa forma, Stoker sobrevive pelos tempos juntamente a seu filho mais lembrado.

Se na TV, produções como a própria adaptação Dracula, que já nasceu morta na tevê aberta, e The Vampire Diaries esqueceram do que torna um clássico eterno, programas como The Strain e Penny Dreadful fazem justiça aos mitos. Este último, aliás, tem o mérito de trazer de volta os principais elementos da literatura gótica às telas.

O “horror barato” revisita personagens icônicos como o doutor Frankenstein e Dorian Gray. Mas o maior acerto é justamente flanar acerca do ocultismo de forma tão madura e bem elaborada, sem medo de seguir pelo caminho mais tortuoso do roteiro e exigir de seus intérpretes mais ousados o que não se encontra com tanta facilidade nas telas.

Quem compreendeu essa complexidade tão bem no mundo pós-moderno foi Thomas Harris, que torna o thriller policial uma verdadeira trama de horror. E não estamos falando dos crimes ou cenários eventualmente macabros, mas do que leva um autor ir tão fundo na mente doentia e ao mesmo tempo brilhante de Hannibal Lecter. Não à toa o escritor passeou com a corajosa Clarice Sterling na psique do canibal. No cinema, “O Silêncio dos Inocentes” se tornou um dos títulos mais importantes da década de 1990 e eternizou Anthony Hopkins e Jodie Foster.

O que parecia insuperável ganhou uma versão fora dos padrões e surpreendeu pela forma delicada com a qual introduziu “Dragão Vermelho” na tevê. Hannibal, de Bryan Fuller, exigiu um olhar mais aprofundado e atento do espectador durante as três temporadas do show. Nunca antes a TV aberta foi tão eficaz em tornar essencial uma releitura que, a princípio, não era necessária. Para bem da verdade, ninguém mais poderia ter reaberto as possibilidades de Lecter se não Fuller.

Não por acaso a literatura dos mortos nunca morre. O que me lembra um romance como não lia há tempos – “O Demonologista”. Andrew Pyper aprendeu com os melhores. Um horror clássico que não tem medo de flertar com os demônios e explica o Mal como poucos. Se me permitem arriscar um palpite, é desses que ficam.

Antes de virar a página e escolher um novo nome, tire a poeira daqueles livros mais “obscuros” que permeiam o imaginário popular na literatura e no meio televisivo. Permita um novo olhar. Busque as perspectivas. Lembrar é descobrir.

1 comentário

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  1. Caroline Marques
    Caroline Marques 3 novembro, 2015 at 21:31 Responder

    Ai, Rubens, assim você me deixa saudosa! Reli os 4 do Thomas esse ano devido a ausência da série, outros olhos meu amigo, outros olhos! <3

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