A Netflix precisa parar de renovar séries que não precisam ser renovadas

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Confira o panorama sobre a continuidade de séries da Netflix

Se você é assinante Netflix, sabe que os últimos dez anos têm sido de importante mudança no consumo de conteúdos de mídia no Brasil (e no mundo). Tal fato se deu especialmente com o avanço da internet e a chegada de alternativas à TV e às salas de cinema. Seja pela pirataria de séries e filmes (uma realidade inegável), seja pela ampliação dos serviços de streaming (Netflix, Now, HBO GO, Amazon Prime, etc.), a maneira como consumimos esses produtos mudou de forma profunda, e reflete em alguns aspectos das produções.

As séries de TV, por exemplo, são cada vez menos vistas na televisão. A Netflix assume, então, o carro chefe na popularização de produções que rapidamente se tornam memes na internet, estampas de camisas ou temas de festas.

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Nos últimos anos, com a tendência dos grandes estúdios e emissoras de criarem seus próprios serviços de streaming, a Netflix trilhou uma aposta em produções próprias. Os “Originais Netflix”, rapidamente, se tornaram um selo de sucesso, atribuído a séries como Orange is the New Black e Stranger Things.

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Para o ano de 2018, a Netflix estabeleceu uma previsão de lançar 700 produções originais, fruto de um investimento de U$ 8 bilhões. O objetivo? Tornar seu catálogo independente de outros estúdios e evitar seu esvaziamento com a multiplicação de serviços que já estamos experimentando. Nesse esforço de ampliação, o catálogo se tornou bastante diverso, com produções alemãs, espanholas, latino-americanas e asiáticas; algumas delas alcançando grande sucesso no seu período de lançamento, como La Casa de Papel e Dark.

Mas, afinal, o que isso tem a ver com as continuações das séries? Aparentemente, tudo.

Uma característica marcante dos “Originais Netflix”, desde seu início, tem sido a aposta em projetos autorais. Ou seja, a Netflix parece privilegiar a originalidade e criatividade dos projetos de séries do que estabelecer uma grade mais rígida, caso das emissoras americanas. Isso pode parecer sem sentido, mas uma comparação talvez valha a pena: não é difícil identificar, por exemplo, uma série da The CW, canal de ArrowRiverdale e Supernatural, tanto pelos temas quanto pelos valores de produção; da mesma forma que não é difícil identificar uma série da HBO.

As séries da Netflix, por sua vez, têm abordagens diferentes, públicos bastante variados e, na maioria dos casos, lida com projetos mais fechados, com histórias bem definidas… pelo menos em suas primeiras temporadas. E aqui chegamos na raiz da questão.

Algumas séries lançadas pelo serviço combinaram um grande sucesso de audiência/ou repercussão nas mídias ao desejo da Netflix em emplacar novos hits e tornar seu catálogo cada vez mais autônomo. Isso é ótimo, por um lado, pois teremos cada vez mais projetos diversificados, que podem fugir das tendências gerais das produções americanas. Mas por outro, porém, isso tem causado um sério problema de continuidade (das histórias, não de montagem das cenas).

Suas histórias não precisam de continuidade… 

Histórias que se apresentaram de forma coesa e bem fechada, em suas primeiras temporadas, foram ampliadas com ganchos fracos ou premissas ruins para garantir a continuidade do seu sucesso. Os casos emblemáticos são 13 Reasons Why e Dear White People. São séries que trataram de temas graves e sérios em suas primeiras temporadas e, apesar de causarem controvérsias, tiveram êxito em dar destaque aos assuntos. Entretanto, suas continuações foram feitas com base em uma “forçação de barra” dos roteiros. Para isso, foram aproveitados ganchos fracos a fim de garantirem continuidade a grandes sucessos. E virá mais por aí, já que tivemos a renovação de The End of The Fucking World.

É claro que isso não é uma regra. Há produções primorosas em suas continuações. É o caso da recém-lançada segunda temporada de Atypical e de séries consolidadas, como House of Cards (mesmo com o escândalo envolvendo Kevin Spacey). O problema não está em querer perpetuar suas séries, longe disso. Está sim em tentar ampliar projetos que, claramente, foram pensados de forma fechada (o tal “filme de oito ou dez horas”). Mas, por conta do sucesso, são ampliados de maneira quase forçada.

Hit pra quem te quero… 

O problema se torna mais sério quando consideramos que outras séries, com grande qualidade, não foram renovadas por não se transformarem em um hit; caso de The Get Down, sem dúvidas uma das melhores séries produzidas pelo serviço. Séries de nicho e mais baratas, como a excelente Mindhunter, têm maiores chances de sobreviver nessa lógica, mas o mais provável é que vejamos outras La Casa de Papel e Stranger Things na tentativa de criar sucessos.

Por conta de sucesso, La Casa de Papel foi renovada pela Netflix. Imagem: Antena3/Divulgação

Assim, temos uma mudança gradual do eixo de produção do serviço, privilegiando menos a originalidade e autoria de projetos fechados, e correndo em busca de hits e sucessos para fazer frente às produções de canais tradicionais. Ou seja, o que ocorre é uma pura migração da TV para o streaming, sem haver plataformas e formas de consumir tão mais distintas entre si.

E isso pode ser ruim, pois o “modelo Netflix”, rapidamente incorporado na cultura dos seriadores brasileiros, é o de maratonar séries que possuem histórias mais fechadas, são mais “rapidinhas” de assistir num fim de semana mais caseiro.

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Um lado que precisa ser comentado é exatamente dos próprios consumidores, afinal, a Netflix é uma empresa que interage bastante com seu público, e acaba por guiar suas produções pela reação do mesmo. Dessa forma, talvez seja preciso entender a maneira como consumimos essas séries. Assistimos uma produção de oito, dez episódios por um ou dois dias inteiros, e queremos mais e mais. Mas será que vale a pena o grande esforço para renovação das séries, como no caso de Sense 8? É claro que sempre queremos ter aquelas produções queridas por mais tempo com a gente, mas a ideia de renova-las pelo simples sucesso e desejo da ver mais e mais dos personagens pode atrapalhar a qualidade do produto.

No final das contas, talvez a identidade dos “Originais Netflix” poderia ser essa de “grandes filmes divididos em oito ou dez episódios”, que assistiríamos sem a mesma expectativa de uma série da CBS ou da Warner, já buscando ganchos para temporadas seguintes. Desfrutar ao máximo a história e seus personagens, e ter a oportunidade de revisita-los em novas maratonas.

Assim, talvez, teríamos mais do que uma simples migração da TV para o streaming, e sim, formas diferentes e produzir e consumir séries e filmes.

Tags Netflix

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Luiz Alves

Luiz Alves

Historiador, fã de histórias em quadrinhos e jogador de RPG de longa data. Tem interesse por séries de suspense, como Hannibal, The Killing, Luther etc., de fantasia, como Penny Dreadful; e de todas as séries baseadas em HQs.