A Nova Força (The New Force, no original sueco Skiftet) estreou recentemente na Netflix e já vem chamando atenção do público por seu retrato poderoso e sensível sobre as primeiras mulheres a ingressarem na polícia da Suécia. Ambientada em 1958, a série combina drama histórico, suspense e um forte comentário social sobre gênero, poder e desigualdade — o que levou muitos espectadores a se perguntarem: afinal, a história é real?
A resposta é: parcialmente. A produção é inspirada em eventos históricos verdadeiros, mas com personagens e tramas ficcionais criadas para representar o espírito da época.
Inspirada em fatos reais, mas com personagens fictícias

Criada por Patrik Ehrnst e Rojda Sekersöz, A Nova Força mostra a chegada das primeiras mulheres à força policial de Estocolmo. As protagonistas — Carin (Josefin Asplund), Siv (Nanna Blondell) e Ingrid (Sara Shirpey) — são jovens idealistas que decidem romper barreiras e provar seu valor em um ambiente dominado por homens.
Embora as personagens não existam na vida real, a trama reflete fielmente os desafios enfrentados pelas pioneiras da polícia sueca. Segundo registros históricos, as primeiras mulheres foram introduzidas na corporação em 1908, conhecidas como “irmãs policiais”. No início, elas cuidavam apenas de infrações menores e casos relacionados a crianças e mulheres.
Com o passar dos anos, especialmente a partir da década de 1930, elas começaram a atuar em investigações mais complexas, como crimes sexuais e abusos. Mas foi só em 1949 que as mulheres finalmente passaram a frequentar a Academia de Polícia, recebendo treinamento formal e reconhecido.
O ano de 1954 marcou outro avanço importante: foi quando o governo sueco oficializou o título de “policial” para mulheres, deixando para trás o termo “irmãs policiais”. E, como a série retrata, em 1958 — o ano em que a história se passa — as oficiais femininas começaram a patrulhar as ruas de Estocolmo, especialmente no distrito de Klara.
Na série, essa transição é mostrada com realismo e ironia: as policiais são forçadas a usar saias como uniforme, uma forma simbólica de distinguir as mulheres dos homens na corporação. A escolha, absurda aos olhos de hoje, ilustra a mentalidade machista e o desconforto institucional com a presença feminina naquele ambiente.
A força feminina diante do preconceito em A Nova Força
Um dos temas centrais da série é o machismo estrutural que as protagonistas enfrentam. Apesar de competentes e disciplinadas, Carin, Siv e Ingrid vivem sob constante descrédito de colegas e superiores.
Em entrevista ao Swedish Herald, a atriz Josefin Asplund, intérprete de Carin, explicou que a série é um retrato de “mulheres jovens e determinadas, que querem tornar Estocolmo um lugar melhor, enquanto lutam não apenas pelos direitos das mulheres, mas também pelos direitos humanos em geral”.
Ela ressalta que, embora a situação tenha melhorado muito desde 1958, a desconfiança sobre a capacidade das mulheres em funções de poder ainda existe — um eco do que suas personagens enfrentam no passado.
A Nova Força, portanto, não é um simples drama policial. É uma homenagem às pioneiras que abriram caminho para as gerações futuras de mulheres na polícia — e um lembrete de que igualdade não é um ponto de chegada, mas uma luta constante.
Monica: a história fictícia que revela verdades dolorosas

Entre os vários arcos narrativos da série, um dos mais intensos é o de Monica, uma jovem trabalhadora sexual que cruza o caminho de Carin. Monica é uma personagem fictícia, mas representa a dura realidade das mulheres vulneráveis na década de 1950, quando os direitos e a proteção social eram quase inexistentes.
Na trama, ela trabalha sob o controle de um cafetão violento, Jack, e é frequentemente explorada e agredida. Carin, ao conhecê-la, tenta ajudá-la, mas a história de Monica se revela trágica — marcada por abuso sexual dentro da própria família, gravidez, e uma série de traumas físicos e emocionais.
Em uma das cenas mais impactantes, Carin encontra o corpo de Monica em um lago de Estocolmo, um evento que muda o rumo da série e desperta nela uma obsessão por justiça.
De acordo com os criadores, Monica foi concebida como uma figura simbólica da opressão feminina. Ela não é baseada em uma pessoa específica, mas em inúmeras mulheres reais que foram silenciadas e esquecidas pela sociedade.
Ficção que reflete a realidade
Mesmo com personagens e situações inventadas, A Nova Força se ancora em uma base histórica sólida. A luta de Carin e suas colegas espelha a jornada real das primeiras policiais suecas, que enfrentaram desconfiança, assédio e desigualdade salarial para conquistar seu espaço.
A trama também amplia esse debate ao conectar diferentes formas de opressão: o preconceito institucional dentro da polícia, a exploração sexual nas ruas e o julgamento moral imposto às mulheres que ousavam viver fora do padrão.
Assim, a série se torna mais que um retrato histórico — é uma análise sobre como o poder e o gênero se cruzam, e sobre o preço que muitas mulheres pagaram para serem levadas a sério em seus ofícios.
A importância histórica de A Nova Força
O contexto real que inspira a série marca uma das transições mais importantes da história sueca moderna. Nos anos 1950, o país passava por uma revolução social: os ideais de igualdade de gênero começavam a ganhar força, mas o preconceito ainda era institucionalizado.
A Nova Força captura exatamente esse ponto de virada — o momento em que as mulheres deixam de ser toleradas e passam a ser necessárias nas estruturas de poder. A série faz isso com delicadeza, alternando momentos de leveza e humor com cenas de tensão, refletindo tanto o absurdo das convenções da época quanto a coragem de quem as desafiou.
Uma história ficcional sobre mulheres reais
A Nova Força não é uma história real no sentido literal — Carin, Siv, Ingrid e Monica nunca existiram.
Mas suas experiências e dores foram vividas por muitas mulheres de verdade que enfrentaram o mesmo preconceito, a mesma solidão e a mesma determinação para mudar o mundo em que viviam.
Com direção sensível e reconstituição impecável da Suécia dos anos 1950, a série é uma homenagem àquelas que abriram caminho em meio ao silêncio e à resistência.
Em última análise, A Nova Força é sobre o início de uma revolução silenciosa, que começou nas ruas de Estocolmo e se espalhou por todo o mundo: o direito das mulheres de ocupar qualquer espaço — inclusive aquele que disseram que não era para elas.