A origem dos Irmãos de Guerra

Band of Brothers

 

Domingo. Na noite do nono dia do mês de setembro de 2001, na HBO, estreava Band of Brothers. Dois dias depois as Torres Gêmeas do World Trade Center desabavam depois de serem atingidas por aviões seqüestrados por terroristas. A minissérie épica sobre a Segunda Guerra Mundial, que falava sobre bravura, perseverança, irmandade e ajuda/amor ao próximo, sofria um baque e ganhava relevância social ainda maior. No domingo seguinte, quando o terceiro episódio ia ao ar, não só os Estados Unidos haviam mudado, mas o mundo inteiro estava diferente. Na janela de uma semana, entre a estreia e um novo episódio da minissérie, a história contemporânea fora mudada.

É curioso, por motivos que vão além da compreensão, que um marco da televisão, que abordava um evento histórico, tenha estreado na mesma semana de outro acontecimento marcante. Enquanto Band of Brothers trazia o Dia D, outro marco na história, a realidade do século XXI tratava de escrever novas linhas importantes na nossa trajetória. Pouco tempo depois daquela fatídica terça-feira, 11 de setembro, outra guerra começava. Assim, ainda que a minissérie produzida por Steven Spielberg e Tom Hanks tenha sido um sucesso de público e crítica, é possível que sem os ataques e a ameaça iminente de guerra, Band of Brothers teria uma audiência ainda maior. O público talvez não estivesse interessado em assistir conflitos e mortes depois de um evento tão perturbador e marcante.

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Ainda assim, Band of Brothers é mais otimista do que sua premissa pode sugerir. Baseado no livro homônimo escrito por Stephen E. Ambrose, Band of Brothers não é sobre a guerra, mas sobre os homens que lutam nela. Sobre como cada um reage às adversidades, sobre como a guerra atinge e transforma cada homem. Assim como o filme O Resgate do Soldado Ryan, espécie de irmão gêmeo da minissérie, Band of Brothers é sobre pessoas e o relacionamento entre elas. A guerra é apenas o plano de fundo e o catalisador dessas relações. Logo no primeiro parágrafo do livro, Ambrose deixa claro o mote da obra:

 

“Uns haviam sido fazendeiros e mineradores, habitantes das montanhas […]. Alguns eram extremamente pobres, outros provenientes da classe média. Um deles vinha de Harvard, outros de Yale, alguns da UCLA […]. Eles eram soldados cidadãos.”

 

A guerra, afinal, não foi feita de armas ou de tanques. Foi feita de homens. Eles empunharam suas armas e correram em campo aberto. Foram eles, também, que morreram. É por isso que Band of Brothers, em seus impecáveis dez episódios, se sai tão bem: acompanhamos a trajetória de diversos homens durante o conflito; cada um com seu passado e todos com o futuro incerto. Na eventual conexão entre espectador e personagens, nos preocupamos com o destino de cada um. Ao vermos os depoimentos dos reais combatentes da Easy Company no início de cada capítulo, conseguimos entender um pouco mais como era a dura realidade da época, além, claro, de termos uma pequena ideia das marcas deixadas pela guerra.

Neste sentido, a minissérie se sai ainda melhor que o livro. Com o poder da imagem e do som, o programa da TV vai além do que o livro aborda, nos dando uma ideia mais clara – e assustadora – de tudo que aconteceu. A minissérie ainda tem um grande ponto positivo ao seu favor: ao dar rostos aos nomes dos livros, o entendimento e a conexão com a história acontece mais rápida e de forma mais profunda. O livro de Ambrose é repleto de detalhes, tanto sobre o evento histórico quanto sobre os personagens. No processo de adaptação, ainda que seja fiel ao livro, a minissérie deixou alguns detalhes de lado, para que a trama fluísse melhor. Além disso, alguns equívocos quanto a veracidade histórica foram cometidos, mas nada que prejudique a experiência como um todo.

Com erros ou omissões, Band of Brothers ainda é uma forte e competente recriação histórica. Os roteiros dos episódios eram revisados inúmeras vezes e repassados aos sobreviventes da Easy Company para eventuais correções e palpites. Assim, Band of Brothers é um marco na televisão norte-americana. A qualidade técnica é indiscutível, não devendo em nada ao já citado Resgate do Soldado Ryan, de Spielberg. As cenas de guerra são impecavelmente dirigidas e fotografadas, o que explica os mais de 125 milhões gastos na produção, fazendo deste um dos maiores e mais caros projetos da TV. Dinheiro nenhum, porém, poderia garantir o que há de melhor na série e no livro: o cotidiano e a relação entre os irmãos de guerra.

 

Bandofbrotherscolagem
Você lembra deles? Damian Lewis (Homeland), David Schwimmer (Friends); os famosos atores do cinema Michael Fassbender, Tom Hardy (sim, o Bane) e James McAvoy e Michael Cudlitz, visto recentemente em The Walking Dead.
“Camaradas são mais que amigos, mais que irmãos. Sua amizade é diferente da que une amantes. Eles se conheciam e confiavam uns nos outros plenamente. Chegavam a conhecer as histórias de suas vidas, o que faziam antes de entrar para o exército, onde e quando se apresentaram como voluntários, o que gostavam de comer e beber e quais eram suas aptidões. Nas marchas noturnas, ouviam alguém tossir e sabiam quem era; nas manobras noturnas, viam alguém se movendo sorrateiramente através da floresta e, pela silhueta, sabiam quem era.”
Capítulo 1, Queríamos Aquelas Asas
Band of Brothers
Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

3 comments

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  1. Anderson Narciso
    Anderson Narciso 23 março, 2015 at 09:39 Responder

    Que texto espetacular. Muito bom mesmo Matheus. Band of Brothers é uma produção muito boa de se assistir, e este link com o 11 de setembro é formidável. Curioso como as coisas aconteceram…

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