A primeira temporada de The Knick

The Knick Primeira Temporada

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The Knick é uma das coisas mais espetaculares que aconteceram na TV em 2014. Ponto. Criada por Jack Amiel e Michael Begler, The Knick investe em um subgênero conhecido (séries médicas) inovando-o. Na virada do século XIX para o XX a medicina definitivamente não era como a de hoje. Ao contrário: as cirurgias, ainda que avançassem notavelmente, muitas vezes resultavam em mortes ou resultados irreversíveis. Os tratamentos eram primitivos e muitos dos avanços que conhecemos hoje estavam longe de acontecer, ou em lento desenvolvimento. Ainda assim, os profissionais da área (não só médicos, mas também enfermeiras e donos dos hospitais) lutavam para melhorar as condições da saúde da época.

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Como relato e reprodução história, The Knick não é menos que impecável. A série aposta em uma direção de arte cuidadosa que atenta para detalhes mínimos que vão dos diversos instrumentos usados nos hospitais ao visual dos prédios e casas. A ambientação e caracterização dos ambientes são tão precisas que The Knick quase parece um documentário ou uma produção que fora realmente filmada no início do século XX. Outra característica notável no programa é o figurino. Das vestes pretas e cartolas dos homens aos uniformes das enfermeiras do hospital, Knick faz um belíssimo trabalho ao mostrar ao público como as pessoas da época se vestiam. É interessante notar, por exemplo, como cada personagem tem suas próprias maneiras de se vestir, como o protagonista John Thackery, que veste-se geralmente de preto, mas calça um contrastante sapato branco. Para encerrar, o realismo visto nas cenas de cirurgias e demais procedimentos é impressionante, podendo chocar os mais sensíveis.

A impecabilidade técnica estende-se, também, à direção dos episódios. Com todos os dez capítulos dirigidos pelo competente Steven Soderbergh, The Knick atinge uma uniformidade visual invejável. A maioria das séries, por exemplo, possui diversos diretores, cada um com estilos diferentes. The Knick, por outro lado, beneficia-se ao ser comandada por uma só pessoa. Soderbergh, aliás, não é qualquer um: vencedor do Oscar por Traffic e do Emmy por Behind the Candelabra (HBO), o diretor é completamente dedicado à profissão. Depois de se “aposentar” do Cinema e abraçar a TV, que segundo ele é um terreno muito mais interessante, Soderbergh faz de The Knick um projeto inteiramente seu: além de dirigir, Steven editou todos os episódios, além de ser o diretor de fotografia da série. O que ele faz como diretor é impressionante: além de extrair atuações excelentes de todo o elenco, Soderbergh ainda realiza um trabalho de câmera exemplar, dando um estilo visual único ao programa.

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Knick colagem
Os pôsteres apresentam os personagens e a realidade da época: ambulâncias, enfermeiras e cirurgiões definitivamente não eram o que costumava – e deveria – ser.

 

Outro elemento digno de aplausos em The Knick é sua trilha sonora original. Criada por Cliff Martinez, a trilha é belíssima em seu total e assumido anacronismo. Tomada por composições eletrônicas, a música pulsante de Martinez parece vir direto de um filme de terror. Ainda que em contraste com o período retratado na série, a trilha combina perfeitamente com o estilo do programa: agressiva, perturbadora, incisiva. Além disso, as composições criadas com Martinez conseguem um feito que poucas atingem: funcionam tanto na série quanto fora dela, merecendo serem ouvidas a qualquer momento.

Mas The Knick não estaria completa sem a presença e a interpretação de Clive Owen. Ainda que amparado por elenco excelente (com destaque para André Holland e Eve Ewson, filha do Bono Vox), Owen rouba a cena sempre que aparece. Até mesmo quando não está presente, o nome de seu personagem é pronunciado e sentido, tornando-se quase onipresente, ou seja, um deus. A figura sobre-humana de poder, aliás, é abraçada com vigor por Owen: Knick desde o início mostra seus médicos como heróis, deuses imperfeitos em suas humanidades, mas obstinados e à frente de seu tempo como profissionais. Pois John Thackery é um indivíduo definitivamente imperfeito: viciado em cocaína (que não época era utilizada em hospitais e vendida em farmácias para combater a dor e anestesiar pacientes), Thack é prepotente, às vezes estúpido e obsessivo. Ainda assim, todos ao seu redor o admiram por sua inteligência e obstinação. É o tipo de anti-herói que devemos odiar, mas que não conseguimos, tamanha a complexidade e fascínio despertos pelo personagem. E Clive Owen merece o Emmy. Não há ator este ano, até então, que tenha nos mostrado uma atuação tão hipnotizante e detalhista como a dele.

The Knick, enfim, é a síntese de tudo de bom que está acontecendo com a produção televisiva atual. Não há mais o tolo preconceito entre Cinema e TV, onde o primeiro exprime toda a qualidade técnica e narrativa enquanto a segunda se contem com restos e sobras. A televisão atingiu um patamar invejável e a série criada por Amiel e Begler é um dos melhores exemplos disso. The Knick foi renovada para a segunda temporada antes mesmo da estreia do primeiro ano. A season finale promete diversas mudanças interessantes, dando a ideia de que a nova jornada pode ser ainda melhor que a primeira.

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.