A quarta temporada de Louie

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Louie talvez seja a melhor série de comédia da atualidade, o que não deixa de ser um fato curioso, já que Louis C.K. fez uma quarta temporada de forte apelo dramático. Em alguns episódios, por exemplo, não houve do que se achar graça, não houve espaço para o riso. O comediante que é o criador, escritor, diretor, protagonista e editor da série, levanta questões profundas sobre o que é certo e errado, sobre passado e presente. Sobre ser pai, filho, homem. Sobre ser uma pessoa solitária e, na maioria das vezes, falha.

São pontos que C.K. suscita e que não vemos na maioria das séries dramáticas, que deveriam gerar debates sobre certos assuntos. E essa é a grande qualidade de Louie. Em quatorze episódios de vinte minutos, a série não busca o riso fácil do público; o objetivo aqui é que o espectador se relacione e conheça o personagem. Louie não quer que gostemos dele; ele não quer nossa compaixão. Sua finalidade, porém, é pintar um retrato sensível e sincero de seu personagem. É a comédia sendo feita em torno do comum, do prosaico.

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O drama nem sempre foi tão presente em Louie, e a diferença pode ser notada entre as primeiras temporadas com essa última. Isso pode ser explicado facilmente. Louis C.K. afirmou que os três primeiros anos formam uma trilogia, e que o quarto ano começa uma nova fase. A ideia é que a série tenha nove temporadas formadas de três trilogias. Estaríamos, portanto, no início de um novo ato que se seguirá pelos próximos dois anos. As diferenças podem ser claramente notadas. Este ano, por exemplo, Louie teve quatorze episódios, com dois capítulos sendo lançados por semana, o que permite que a história se desenvolva não em vinte, mas em quarenta minutos divididos em duas partes. Assim, Louis C.K. investe em grandes arcos dramáticos, o que é raro em comédias, que costumam apostar em histórias curtas que começam e terminam em apenas um episódio. Detalhes pequenos também mudam, como a ausência de abertura. Neste quarto ano Louis C.K. se mostra um diretor e um escritor muito mais confiante, seguro de suas decisões. Em So did the Fat Lady, o terceiro episódio, Louis inclui um longo plano sequência que acompanha um profundo e sincero monólogo de uma personagem. O melhor da cena, porém, é perceber como C.K. se afasta e deixa outro artista brilhar.

Louis C.K., aliás, praticamente não aparece em dois dos melhores episódios da última temporada: In the Woods: Part 1 &2. Ambos os capítulos são focados em Louie ainda garoto, com treze anos, descobrindo a maconha e a difícil arte de crescer. Tudo, claro, tendo reflexo no Louie adulto, que passa por sérios problemas com sua filha mais velha. É coisa de gênio, daquelas que é preciso parar e ver para crer. É impressionante, por exemplo, como um programa tão diferente e profundo como Louie ainda tenha espaço na TV, sendo sucesso de público e crítica. Apesar de toda a realidade e uma dose de pessimismo, Louie ainda encontra espaço para o amor verdadeiro, daqueles clássicos: Louie se apaixona por uma húngara que não fala inglês. Apesar da comunicação praticamente impossível, o amor entre os dois cresce, provando que barreiras podem ser quebradas quando os sentimentos são verdadeiros, além, claro, de expor de forma original a dificuldade com que Louie tem de se expressar; caso sua namorada fosse americana, brasileira ou japonesa, Louie teria as mesmas dificuldades para expressar seu amor e seu ponto de vista, já que o problema está na pessoa, não na língua. O idioma, portanto, é apenas um detalhe, uma ironia.

Louie, enfim, chega ao seu ápice na recente quarta temporada. Narrativamente não houve série do gênero que tenha se mostrado melhor ou mais ousada. Louis C.K. não só constrói diálogos excelentes como desenvolve seu personagem com carinho e cuidado, além de arcos narrativos interessantes e envolventes. É uma das melhores coisas que a TV tem a oferecer nesta atual “Era de Ouro” na qual está passando. Caso você não tenha dado a devida atenção a Louie, reveja seus conceitos e dê uma chance a esta que no futuro pode ser considerada uma das melhores séries cômicas (ou nem tão cômica a assim) da televisão.

Os três melhores episódios da quarta temporada de Louie:

So did the Fat Lady;

Elevator: Part 3

In the Woods: Part 2

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

8 comments

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  1. Avatar
    Tainara H. 24 junho, 2014 at 01:04 Responder

    Exceto pelo fato de que na verdade Veep e Parks & Recreation são as melhores comédias da atualidade, ótimo texto. hehe

    • Matt
      Matt 25 junho, 2014 at 01:06 Responder

      Valeu Tainara! Pois é… assisti o piloto de Veep, mas infelizmente não continuei assistindo, mas pretendo retomar. Já Parks & Recreation eu preciso assistir, pois não vi nada ainda. rsrs

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        Tainara H. 25 junho, 2014 at 01:26 Responder

        Ah, nesse caso é compreensível considerar Louie a melhor comédia em exibição, hehe. Também acho excelente. Parks eu acho difícil não gostar, já Veep é mais específica: ou ama, ou não vê a mínima graça. Mas sugiro que dê uma chance às duas. Quando eu vi Louie pela primeira vez também deixei de lado, depois retomei e hoje eu gosto muito. 😉

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          Rafael Mattos 25 junho, 2014 at 01:49 Responder

          Eu não sou lá grandes fãs de Louie, apesar de eu reconhecer o seu valor atual, mas eu já fui muito fã de Parks e lhe digo que já faz duas temporadas que a série não é mais a melhor comédia atual. Até a quinta de Community (Que derrapou em alguns episódios) conseguiu fazer melhor. Parks era muito boa até a quarta, depois caiu na zona de conforto.

          Hoje em dia, Louie e Veep são considerada as melhores pelos críticos.

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            Tainara H. 25 junho, 2014 at 01:57

            Citei Parks mais pelo meu gosto pessoal, mesmo, e é verdade, decaiu consideravelmente, só que ainda amo. Já a qualidade de Veep e superioridade em relação às comédia atuais (exceto Louie, então) é indiscutível, não dá nem pra compara-la com uma The Big Bang Theory da vida. Community abandonei na terceira…

  2. Avatar
    Tainara H. 24 junho, 2014 at 01:04 Responder

    Exceto pelo fato de que na verdade Veep e Parks & Recreation são as melhores comédias da atualidade, ótimo texto. hehe

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