A realidade dos Mestres do Sexo

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William Masters e Virginia Johnson revolucionaram os estudos sobre sexualidade humana na década de 60, quando o sexo era um tabu muito maior do que é hoje. Apesar das inúmeras descobertas importantes, Masters e Johnson permaneceram em uma espécie de ostracismo até terem suas histórias relatadas em um livro escrito por Thomas Maier. E quando me refiro a um “espécie” de ostracismo, é porque a dupla é seguidamente citada em textos e trabalhos acadêmicos e que tratam sobre o assunto; ainda assim, seus nomes eram desconhecidos do público. Alfred Kinsey, importante pesquisador do sexo, tem muito mais fama que Masters. A vida e os estudos de Kinsey, aliás, ganharam um filme lançado em 2004 e estrelado por Liam Neeson. A história de Bill e Virginia, por outro lado, viram a luz do reconhecimento apenas em 2009, quando o livro de Maier foi lançado nos Estados Unidos.

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Não tardou, claro, para as propostas de adaptação chegarem para Maier. O cinema fez de tudo para agarrar a incrível história do casal que começou investigando o sexo entre desconhecidos e acabou se relacionando e se casando tempos depois. Quem levou a melhor, porém, foi a TV. Segundo Maier, a história só poderia ser contada apropriadamente com bastante tempo e espaço, algo que só a televisão proporciona. Michelle Ashford tem carreira respeitável na TV e tomou a frente do projeto. Com um grande tema em mãos, restava achar o tom e a equipe, tanto na frente quanto atrás das câmeras.

Masters of Sex, a série, começou a tomar forma. O Showtime abraçou a causa e Maier se tornou consultor oficial do programa. Ninguém melhor do que ele, afinal, para dizer o que é certo e o que é errado na hora de transpor a história real às telas. Assim, o programa parece seguir na esteira de Mad Men, com roteiro afiado e calcado nos diálogos e na filosofia indelével do dia-a-dia. Não há ação ou momentos de catarse. O que vemos é o desenrolar natural da vida dos personagens. É a vida real, nada mais que isso. Ainda assim, Masters of Sex se mostra muito mais emocionante e cativante que Mad Men. A série do Showtime guarda semelhanças com a do AMC (série de época, verborragia, esmero técnico, personagens misteriosos etc), mas se destaca por ser mais dramática e bem mais envolvente.

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Os verdadeiros mestres.

Essa dramatização, aliás, é aprovada por Maier. O autor já revelou em entrevistas que seu livro é uma biografia e a série, como obra de ficção baseada em fatos, deve dramatizar algumas passagens, alterar alguns fatos e criar – ou excluir – alguns personagens. Resta a ele, como consultor, dar limites ao drama e não deixar que a ficção sufoque a verdade. Nesse jogo entre a vida real e a adaptação à TV, Masters of Sex tem se mostrado um dos melhores programas disponíveis hoje em dia. Sucesso de crítica e com público fechado e fiel, a série vem surpreendendo em premiações e já foi renovada para um terceiro ano. Em algum momento, é claro, a série ultrapassará os limites do livro (se é que isso já não aconteceu), mas ainda assim, terá o passado real para se embasar.

Ainda existem inúmeras coisas a serem debatidas e mostradas na série. A história, na verdade, parece nem ter começado: quinze anos após o início dos estudos, Masters deixa sua esposa (Libby, com quem teve dois filhos) para se casar com Virginia. Os dois permaneceram casados por mais de duas décadas, sendo que o relacionamento sexual e amoroso, como mostrado na série, começou bem antes do casório. Bill e Virginia, enquanto casados, continuaram os estudos e aproveitaram certo grau de reconhecimento, sendo entrevistados por programas de rádio e TV, além de publicarem livros relacionados aos seus estudos.

Em 1992, Masters e Johnson se divorciaram amigavelmente. Masters deixou Johnson por uma mulher que conhecera 55 anos antes, ainda na faculdade de medicina. Virginia, em uma declaração que entristece os fãs do casal, disse que nunca amou Bill de uma forma romântica; ela gostava de estar casada com ele, mas nunca o amou realmente. Na série, porém, o amor parece inevitável e o romance aflorado. Coisas da ficção, afinal, que teima em romantizar e dramatizar sempre que possível. William Masters morreu em 2001, depois de lutar contra o Parkinson; Virginia faleceu em 2013. Antes disso, viveram intensas histórias de amor, lutaram contra o preconceito e uma sociedade conservadora; “assistiram” mais de 10000 ciclos sexuais completos (embora o número seja impreciso), apresentaram uma eficiente “cura” para impotência e dizem ter “tratado” a homossexualidade, tendo 71% de sucesso na transformação de homossexuais em heterossexuais. É um ponto obscuro na carreira da dupla que talvez fique de fora da adaptação. Além disso, esse “tratamento” soava duvidoso até mesmo para Virginia, que não acreditava nos dados inconclusivos criados por Masters acerca do assunto.

Muito ainda está por vir, portanto. Por mais que saibamos o que acontece e que, no fim, Masters e Virginia casam, se separam e morram – ninguém é eterno –, a série pode e deve nos maravilhar. A ficção, afinal, tem o dom de recriar a realidade e, assim como ela, nos surpreender.