A rica abertura de Banshee

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Em uma análise superficial ou descuidada você pode não dar nada pela abertura de Banshee. Na rapidez do olhar, a vinheta pode parecer simples e até mesmo enfadonha. O fato é que cada episódio traz uma abertura diferente. Não há capítulo da série que tenha começado do mesmo jeito. Algumas mudanças, como veremos a seguir, são sutis; outras, contudo, são notáveis. O grande barato é acompanhar, semana após semana, as diferentes pistas que a abertura nos proporciona. Achar easter eggs e tentar entender a mensagem do trabalho é tão divertido quanto assistir a série em si.

O cuidado com a abertura é tão delicado e complexo que seria impossível discutir todas as nuances dos vídeos. Assim, o foco principal são as aberturas da primeira temporada, que servem muito bem para nos dar uma ideia da qualidade do projeto. Além disso, as abordagens utilizadas no primeiro ano acabaram por se repetir, em menor ou maior grau, nos anos posteriores. Uma das coisas mais fascinantes, e que pouca gente percebe, é que a abertura conta uma história intrincada e relacionada à trama principal. Muitas vezes através de sutilezas, a equipe responsável conseguia entregar elementos da trama ao público sem, com isso, estragar a experiência. Um vídeo que traz todas as aberturas da season 1 juntas nos ajuda a entender e a admirar as ideias.

Para analisar, vamos separar as aberturas por atores/personagens, como no vídeo. O primeiro nome a aparecer é o de Anthony Starr, protagonista do show. Starr vive um sujeito que sai da prisão depois de 15 anos e vai para a cidade de Banshee, onde, em uma briga, mata o novo xerife do local. Buscando um recomeço e temendo o pior, o homem recém libertado adota a identidade do xerife morto: Lucas Hood. Começa assim sua história na violenta Banshee. Nas aberturas, algumas pistas sobre o seu passado e sua persona podem ser conferidos. Pra começar, algumas fotos remetem ao desapego/abandono (repare na mão que solta a mão de outra pessoa e vai embora) e à prisão, lugar onde Hood ficou por anos. Outras fotos trazem uma faca, elemento que, na abertura, representa a violência (guarde essa informação, pois é importante). Além disso, outras imagens trazem Hood fugindo da polícia (o que descobrimos ser uma de suas especialidades: fugir), fotos de uma bicicleta feminina infantil, remetendo à sua filha que nunca conheceu e, por fim, um homem com uma máscara de coelho. Primeiro: o coelho é um animal importante, pois refere-se a um personagem importante na trama; segundo: a máscara indica identidade oculta, desconhecida, o que nos liga diretamente a Hood, cuja identidade verdadeira nunca é conhecida.

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Na parte de Ivana Milicevic, temos alguns elementos que também remetem a sua identidade secreta. Fugindo do passando e tentando recomeçar, vemos fotos de máscaras e fantasia penduras em uma varal, como se estivessem “aposentadas”. Em seguida, temos a imagem de um parque de diversões, que remete a um período mais inocente e feliz da vida da personagem. Fotos de uma criança (provavelmente ela mesma) remetem à infância e passado, o que mostra-se apropriado, já que o passado da personagem é um dos mais complexos na série. Além disso, também temos uma foto da personagem de máscara, como se tivesse sido tirada no mesmo dia que a foto de Hood foi feita. Com o passar dos episódios, a personagem surge nas imagens já crescida e tatuada, comprovando que a menina inocente ficou para trás.

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Logo após temos Ulrich Thomsen, o vilão da trama. As primeiras imagens relacionadas a Proctor trazem homens de um grupo amish com os rostos apagados/distorcidos, o que nos leva ao passado do sujeito, que tenta apagar o seu histórico na comunidade religiosa. Fotos de facas (lembra-se: violência) são vistas frequentemente. Uma foto de Proctor preso, com uma placa de identificação (identidade novamente) se destaca, bem como a imagem de uma mão decepada e de uma jovem sozinha em campos de plantação.

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Em seguida temos o nome do ator Frankie Faison, que interpreta Sugar, um ex-lutador de boxe que passa o resto da vida como dono de um bar em Banshee. É ele o primeiro contato de Hood na cidade. Todas as imagens relacionadas a Sugar na abertura remetem às lutas de boxe. A curiosidade aqui é que vemos Sugar em plena forma entrando no ringue nas primeiras fotos; com o passar dos capítulos, o sujeito vai lutando, caindo e tentando novamente. Na reta final, Sugar já está claramente em fim de carreira, jogando o espectador diretamente à realidade atual de Sugar: o boxe ficou para trás.

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Assim chegamos em Hoon Lee, que dá vida a Job, um dos melhores personagens da série. Nas suas fotos, vemos um busto com uma peruca (remetendo a uma das maiores características do personagem); em outra, temos uma folha cheia de digitais que desaparecem repentinamente, numa clara alusão ao talento de Job em ocultar sua identidade e escapar sem ser reconhecido ou pego. Outras imagens trazem facas e remetem, claro, à violência. Outra foto traz um pavão, conhecido por toda a pompa e estilo, e outra revela sapatos de salto alto e demais objetos femininos. Aqui é o perfeito exemplo da abertura que revela pistas sobre a personalidade do personagem em questão.

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O próximo nome que merece destaque é o de Matt Servitto, que vive Brock na série. Aqui uma história é contada; para termos ideia da situação, é preciso deixar claro que Brock sempre sonhou em ser xerife, o chefe maior do departamento policial local. Tanto é que suas ressalvas e brigas envolvendo Hood geralmente aconteciam pelo fato do recém-chegado a Banshee ser o xerife, sendo que ele, Brock, devoto à profissão, não foi cogitado para o cargo. A primeira foto na abertura do piloto já nos dá a ideia: vemos o pequeno Brock, ainda criança, vestido de policial, nos revelando um desejo antigo. As próximas imagens geralmente trazem a estrela metálica dos xerifes; o grande barato dessas fotos é que o símbolo nunca aparece inteiro ou limpo, dando-nos a ideia de distância/impossibilidade. Em outras palavras, Brock não é e não será o xerife. Repare na estrela quase fora da foto, a outra suja de sangue, uma outra dividida entre duas fotografias e ainda outra fora de foco. Aqui o simbolismo é elogiável.

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Quando o nome de Demetrius Grosse, o Emmett, aparece, as fotografias trazem os três principais pontos de identificação do personagem. Um é o futebol americano, carreira que o personagem não conseguiu construir. Outro elemento é a foto que traz algemas e um estrela de xerife, remetendo à sua carreira policial. O terceiro elemento, este o mais recorrente e importante, é a religião. Vemos seguidamente objetos relacionados à fé e religião. Uma das fotografias está rasgada e traz uma cruz, sugerindo a fé abalada do personagem. Até mesmo um texte de gravidez, relacionado à família e à estabilidade de Emmett, traz uma cruz.

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Um dos melhores momentos da abertura durante a primeira temporada, contudo, talvez seja quando o nome de Ryann Shane aparece. A atriz interpreta Deva, filha de Carrie e Gordon. Com o passar do tempo, porém, descobrimos que Deva é, na verdade, filha de Hood. Note a simplicidade e a força da mensagem passada ao público durante dez aberturas diferentes: no episódio piloto temos a foto de casamento de Carrie e Gordon; no capítulo seguinte, temos a mesma foto e um pequeno pedaço de outra fotografia ao lado. No terceiro capítulo a foto de casamento está com um pedaço a menos, enquanto a misteriosa fotografia ao lado conta com um pedaço a mais. E assim o desenvolvimento acontece: a foto dos pais que Deva conhecia vai se deteriorando enquanto a foto dos novos pais vai se construindo. Isso se dá porque conforme Carrie vai se aproximando de Hood, ela se afasta de Gordon, assim seu casamento, representado na foto, começa a ruir. Para Deva, a noção de família que ela tinha começa a cair e tomar outra forma, misteriosa e mais complexa.

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Para Lili Simmons, que vive Rebecca, a análise é direta. Rebecca é sobrinha de Proctor. A jovem vivia na comunidade amish, mas abandona a vida regrada e conservadora para viver com Proctor. A garota então mergulha em um mundo de sexo, violência, drogas e dinheiro, deixando a inocência para trás. Assim, repare nas imagens durante os episódios: todas as fotos são iguais, o que muda é a quantidade de sangue! A faca novamente representa a violência, e sua lâmina começa limpa e intacta no piloto. Com o passar dos capítulos, gotas e mais gotas de sangue aparecem na faca, demonstrando que a inocência de Rebecca se foi, e sua história agora é manchada de sangue.

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Nas temporadas seguintes a ideia de contar uma história paralela e relacionada na abertura continua, muitas vezes mais complexa do que no primeiro ano. Em todas as temporadas, porém, alguns elementos parecem inabaláveis. As aberturas sempre abordam pontos que também são recorrentes nas tramas centrais da série. Sonhos, identidade e violência são três dos principais pilares. Sonhos, muitos vezes não realizados, são representados em Sugar (boxe), Brock (xerife) e Emmett (futebol americano), por exemplo. A identidade (ou a falta de) surge em quase todos os personagens, mas principalmente em Hood, Carrie e Job. A violência é um elementos que surge em quase todas as imagens, seja representada nas facas, no sangue ou em expressões de raiva e conflito.

Para completar, o que significa o código do cofre? O cofre aparece três vezes, e os números que o abrem são 42, 15 e 68. 42 é o número de mortes da primeira temporada. 15 são os anos que Hood passou preso na cadeia. E 68 remete a Apocalipse 6:8, que diz, em perfeita combinação à série:

Olhei, e diante de mim estava um cavalo amarelo pálido. Seu cavaleiro chamava-se Morte e o lugar dos mortos o seguia de perto. Foi-lhes dado o poder sobre um quarto de toda a terra, a fim de que matassem à espada, pela fome, por meio da pestilência e pelos animais selvagens da terra.

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Confira abaixo a abertura da série. A proposta é interessante: no vídeo, você pode ver todas as dez aberturas (uma para cada episódio) juntas. Assista e tire suas próprias conclusões.

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Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.