A Vizinha Perfeita final explicado: o que aconteceu com Susan?

O documentário A Vizinha Perfeita é uma das produções mais chocantes e surpreendentes da Netflix. Saiba o que acontece no final do filme.

O documentário A Vizinha Perfeita (The Perfect Neighbor), dirigido por Geeta Gandbhir e produzido por Nikon Kwantu, Alisa Payne e Sam Bisbee, é uma das produções mais impactantes e urgentes lançadas recentemente pela Netflix.

Baseado em um caso real que chocou os Estados Unidos, o filme investiga o assassinato de Ajike “AJ” Owens, uma mãe de quatro filhos que foi morta pela vizinha Susan Lorincz após um conflito aparentemente banal.

Através de imagens de câmeras corporais da polícia, gravações de chamadas para o 911 e depoimentos íntimos, o documentário expõe não apenas o crime, mas também as falhas estruturais de um sistema que insiste em justificar o injustificável.

A história por trás de A Vizinha Perfeita é marcada por tragédia e urgência. Em junho de 2023, a ativista social Takema Robinson, parente de Kwantu, contatou o casal Gandbhir e Kwantu para pedir ajuda na divulgação do assassinato de Ajike Owens.

A vítima, descrita por familiares como uma mulher doce e dedicada à família, vivia em uma comunidade unida em Ocala, na Flórida. No entanto, essa harmonia foi abalada pela presença de Lorincz, uma vizinha que frequentemente se irritava com as crianças da região brincando em um terreno baldio próximo à sua casa.

O conflito, alimentado por preconceito e intolerância, culminou na noite em que Owens foi baleada através da porta de Lorincz, diante dos próprios filhos.

Um retrato de uma comunidade em colapso

A força de A Vizinha Perfeita está em mostrar como uma vizinhança marcada pela solidariedade pode ser destruída pela intolerância. Por meio das câmeras corporais da polícia, o espectador acompanha a rotina de um bairro que, até pouco tempo antes do crime, parecia viver em outro tempo — famílias que se conheciam, crianças que brincavam juntas e um senso de comunidade que hoje é raro.

“Susan era uma exceção ali”, comenta Kwantu. “Quando havia qualquer problema, ela chamava a polícia.” As imagens mostram Lorincz ligando repetidamente para as autoridades, reclamando das crianças e de supostos distúrbios. O que começa como uma irritação cotidiana vai crescendo em tensão e culmina no ato fatal.

Os cineastas de A Vizinha Perfeita conseguiram acesso às gravações e relatórios por meio da Lei de Liberdade de Informação (FOIA), apresentada pelos advogados da família Owens. Com horas de imagens, foi possível montar uma narrativa que vai do banal ao trágico, revelando como o preconceito e o medo podem se transformar em violência.



Gandbhir e sua equipe decidiram filmar não apenas para documentar o caso, mas também para garantir que a memória de Ajike não fosse esquecida. A mãe da vítima, Pamela Dias, relata que o projeto ajudou a transformar parte da dor em algo construtivo: “No meio da tristeza, a ideia do filme me trouxe algum conforto. Era algo a que eu podia me apegar além do luto.”

As leis que legitimam a violência

a vizinha perfeita netflix
Imagem: Netflix.

Um dos pontos mais críticos abordados por A Vizinha Perfeita é a polêmica lei “stand your ground”, que permite o uso de força letal se uma pessoa acreditar estar em perigo — mesmo que pudesse fugir da situação.

Essa legislação, em vigor em vários estados americanos, ficou conhecida após o assassinato de Trayvon Martin em 2012 e continua sendo usada como argumento de defesa em casos como o de Susan Lorincz. Após o crime, as autoridades demoraram dias para prendê-la, alegando necessidade de verificar se sua ação se enquadrava na lei.

A demora provocou revolta e manifestações em Ocala. Lorincz acabou sendo presa em 6 de junho de 2023 e, posteriormente, condenada a 25 anos de prisão por homicídio culposo com arma de fogo.

O legado de Ajike Owens

A Vizinha Perfeita não mostra o momento exato do disparo, mas reconstrói tudo que aconteceu antes e depois — as ligações para o 911, o desespero dos filhos e a chegada da polícia. O resultado é um retrato poderoso de uma mulher cuja vida foi interrompida de forma absurda. Para sua mãe, o documentário é uma forma de imortalizar Ajike: “Minha filha dizia que o mundo conheceria o nome dela. Agora, através desse filme, isso se tornou realidade.”

A Vizinha Perfeita estreou no Festival de Sundance, onde Geeta Gandbhir venceu o prêmio de Melhor Direção de Documentário Americano. Mais do que uma denúncia, o filme é um chamado à reflexão sobre os perigos de normalizar o ódio e sobre como políticas permissivas continuam a perpetuar tragédias.

Segundo Gandbhir, a esperança é que a história de Ajike inspire mudanças reais: “Queremos provocar entendimento e empatia. Se esse filme evitar que outra vida seja perdida, já terá cumprido sua missão.”



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SOBRE O AUTOR
Matheus Pereira
Matheus Pereira é Jornalista e mora em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Escritor assíduo na época dos blogs, Matheus desenvolveu seus textos e conhecimentos em Cinema e TV numa experiência que já soma quase 15 anos. Destes, quase dez são dedicados ao Mix de Séries. Além disso, trabalha há mais de dez anos no campo da comunicação e marketing educacional, sendo assessor de imprensa e publicidade em grandes escolas e instituições de ensino.