Adolescência não só é excelente: é a série mais importante do ano

Nomadland, que venceu o Oscar em 2021, talvez não seja o Melhor Filme daquele ano, muito menos da década. Mas certamente é um dos mais importantes. Sem didatismos ou exposições, o longa com Frances McDormand encapsula o que é os Estados Unidos dos últimos anos e o capitalismo num geral. Adolescência, que chega à Netflix no início de 2025, é igualmente eficaz em registrar como os nossos tempos funcionam – ou melhor, deixam de funcionar.

Criada por Jack Thorne (Enola Holmes, Cidade Tóxica) e Stephen Graham (Boiling Point), Adolescência é uma minissérie em 4 episódios em que cada capítulo de uma hora é gravado em uma sequência sem cortes. Em cada um deles exploramos os desdobramentos de um caso chocante: um menino de 13 anos que matou uma colega de escola.

Roteiro acerta no que nos mostra – e no que esconde

Um dos grandes acertos de Adolescência é não fazer do crime um mistério. Desde o primeiro episódio é muito claro que Jamie Miller, o jovem acusado, realmente cometeu o crime. Desta forma, a pergunta que fica não é quem, mas por quê? Na narrativa que se desenrola, aos poucos descobrimos os bastidores da família e da investigação, bem como da psique do menino que insistentemente afirma ser inocente.

O roteiro de Throne e Graham acerta, contudo, não só no que nos conta, mas no que resolve omitir ou apenas sugerir. Aqui, o pai parece esconder um temperamento difícil; ali, os colegas de Jamie revelam que o crime é apenas a ponta de um assustador iceberg. Adolescência, portanto, não é uma história de respostas fáceis, mas de indagações difíceis e conclusões aterradoras.

Afinal, poucas obras no audiovisual, seja no Cinema ou na TV, foram tão eloquentes e certeiras ao comentar a tóxica masculinidade moderna. Além disso, ao chegar no segundo capítulo, a minissérie traça um retrato cruel e absolutamente cirúrgico acerca das relações e dinâmicas escolares. Pouco se viu uma crítica tão contundente e elegante sobre as falhas do sistema educacional no mundo.

Elenco é um dos melhores vistos no último ano

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Mas se essa análise geracional funciona é porque dois elementos, além do roteiro, são irretocáveis. O primeiro é o elenco, inteiramente entregue aos complexos personagens que povoam os quatro capítulos de Adolescência. Por se passar em cenários e momentos diferentes a cada episódio, alguns personagens aparecem por pouco tempo, mas é o suficiente para marcarem a experiência. Neste sentido, Ashley Walters (o detetive Bascombe) e Erin Doherty (a psicóloga Briony) se destacam.

Na linha de frente, Stephen Graham brilha como o pai de Jamie, Eddie. Principalmente no último episódio, Graham revela uma sensibilidade e vulnerabilidade pouco vista em sua carreira. Já o jovem Owen Cooper é um achado, e a despeito do que mostrou aqui, deve fazer sucesso em seus próximos projetos.

Direção de Adolescência é primorosa

Por fim, o segundo elemento que garante o sucesso de Adolescência é a direção de Philip Barantini. Gravados em 4 belíssimos planos-sequência, os episódios são exercícios de tensão e controle narrativo.

O mais notável, contudo, é que cada capítulo tem a sua própria lógica e abordagem: o primeiro é um thriller dramático veloz; o segundo, um suspense investigativo com forte comentário social. Já o terceiro episódio é um suspense psicológico potente, enquanto o quarto é um drama familiar emocionante.



Do início ao fim, portanto, Barantini, tem total controle de sua câmera, e a fotografia da minissérie merece prêmios devido à sua complexidade e eficiência. Além disso, o diretor não se sai bem apenas no quesito técnico, mas também acerta na condução de seus atores, extraindo performances irretocáveis de todo o elenco.

Triste, chocante e, acima de tudo, alarmante, Adolescência é um espelho da nossa comunidade global, conectada por uma internet perigosa, alimentada por um público doente. No fim, a jovem Katie é a única vítima fatal, mas certamente não é a única que sofre com o que acontece antes e depois do crime que aconteceu na ficção – e pode acontecer a qualquer momento e lugar.

Pode estar em curso agora, germinando em algum canto da internet.

Nota: 5/5



Adolescência não só é excelente: é a série mais importante do ano
SOBRE O AUTOR
Matheus Pereira
Matheus Pereira é Jornalista e mora em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Escritor assíduo na época dos blogs, Matheus desenvolveu seus textos e conhecimentos em Cinema e TV numa experiência que já soma quase 15 anos. Destes, quase dez são dedicados ao Mix de Séries. Além disso, trabalha há mais de dez anos no campo da comunicação e marketing educacional, sendo assessor de imprensa e publicidade em grandes escolas e instituições de ensino.