A minissérie britânica Adolescência, da Netflix, não apenas conquistou críticas elogiosas e milhões de visualizações — ela também acendeu um alerta vermelho sobre os efeitos da radicalização online em jovens.
Com apenas quatro episódios, a produção retrata a chocante história de Jamie Miller, um garoto de 13 anos acusado de assassinar uma colega de classe. Mas Adolescência vai além de um drama criminal: é um espelho sombrio do mundo digital que molda as novas gerações.
Um garoto comum moldado pela internet
Jamie poderia ser qualquer garoto — bom aluno, família presente, amigo leal. Mas tudo muda quando ele começa a frequentar fóruns da chamada “machosfera”, um ecossistema online que mistura machismo, ressentimento e ódio contra mulheres.
Esse submundo digital inclui ideologias como a cultura incel (“celibatários involuntários”) e promove a ideia de que homens rejeitados são vítimas de um sistema injusto liderado por mulheres.
No caso de Jamie, a rejeição de uma colega e o sentimento de humilhação pública são o gatilho para uma espiral de radicalização. A série retrata como o garoto mergulha nesses espaços virtuais e começa a enxergar a violência como justificativa — algo que ecoa tragédias reais, como os ataques de Isla Vista (2014) e Toronto (2018), ambos inspirados por essa mesma ideologia.
Não é só sobre Andrew Tate
Jack Thorne, criador e roteirista da série, explicou em entrevistas que Adolescência não quis focar em figuras como Andrew Tate, mas sim no conteúdo ainda mais extremo que circula nas sombras da internet.
“Os meninos não estão assistindo Andrew Tate. Estão vendo coisas muito mais perigosas“, disse ao The Independent. Segundo ele, há uma lógica interna nesses fóruns que seduz jovens em busca de identidade, validação e pertencimento.
Adolescência traz uma realidade que machuca
O ponto de partida para a série foi uma estatística assustadora: em 2023, segundo o governo britânico, mais de 17% dos crimes com faca envolveram jovens entre 10 e 17 anos. Casos de violência envolvendo adolescentes se multiplicaram no Reino Unido — inclusive com vítimas mulheres. Adolescência nasceu como resposta a essa realidade, misturando ficção com uma inquietação social que já está nas manchetes.
Para Stephen Graham, co-criador e também ator da série (ele interpreta o pai de Jamie), o impacto dessas histórias reais foi visceral. “Esses casos partiram meu coração”, afirmou ao Birmingham Live. Sua participação foi motivada por uma necessidade urgente de alertar pais e educadores: os quartos onde os filhos se trancam com celulares não são mais seguros.



Um aviso para todos nós
Ao mostrar como Jamie foi capturado por um discurso misógino e perigoso — mesmo vindo de uma família amorosa —, Adolescência lança um aviso direto: não basta tirar o celular da mão das crianças ou bloquear redes sociais. O problema é sistêmico. Como disse Thorne ao The Guardian, “os pais podem tentar regular isso, as escolas podem proibir o uso de celulares, mas é preciso fazer muito mais”.
Ao final, Adolescência não entrega reviravoltas típicas de dramas criminais. O foco é outro: provocar reflexão. E o que mais assusta é justamente isso. A história de Jamie não parece distante. Ela é possível. E, infelizmente, já está acontecendo.
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