Adolescência: História real por trás que a Netflix não contou

Desde sua estreia na Netflix em março, a minissérie Adolescência (Adolescence) tem causado comoção entre o público e alimentado debates nacionais — inclusive no Parlamento Britânico. Mas, afinal, a história é real?

A resposta curta é: não. Adolescência não é baseada em um caso específico, tampouco inspirada em uma única vítima ou agressor. O personagem Jamie Miller, vivido pelo estreante Owen Cooper, é inteiramente fictício.

Contudo, a trama bebe diretamente de diversas tragédias reais que marcaram o Reino Unido nos últimos anos — todas com um tema em comum: a crescente violência entre jovens.

O que inspirou Adolescência?

Segundo Stephen Graham, criador e ator da série, a ideia para Adolescência surgiu após uma série de assassinatos brutais envolvendo adolescentes. Entre os casos que o impactaram, ele cita o assassinato da jovem Brianna Ghey, em 2023, morta a facadas por dois adolescentes; uma garota esfaqueada em um ponto de ônibus no sul de Londres; e outro caso trágico ocorrido em Liverpool.

Não conseguia parar de pensar: por quê? O que está acontecendo com nossos meninos? O que está se perdendo na sociedade?”, disse Graham em entrevista à Radio Times. Ele e o diretor Phil Barantini, também criados em bairros operários britânicos, queriam entender as causas mais profundas por trás dessa onda de violência.

O verdadeiro foco da série

Ao contrário de muitas séries criminais, Adolescência não gira em torno do mistério sobre quem cometeu o crime — o próprio Jamie admite o assassinato de Katie ainda no início. A pergunta que move a narrativa é outra: por que ele fez isso?

A série mergulha nas influências tóxicas do mundo online, no abandono emocional, no machismo que se infiltra em fóruns e vídeos, e em como meninos fragilizados emocionalmente podem se tornar perigosos quando privados de estrutura e afeto.

O roteirista Jack Thorne reforça: “Essa não é uma história sobre raça, é uma história sobre masculinidade.” Ele também desmentiu boatos de que a produção teria “modificado” características de casos reais. “Nada do que está ali é adaptação de um caso verídico. Nenhum personagem, nenhuma situação. Tudo foi criado para refletir um problema maior, social, que vai muito além de um incidente isolado.”

E por que Adolescência é tão importante?

O impacto da série foi tão forte que o primeiro-ministro britânico Keir Starmer anunciou que Adolescência será exibida em escolas de ensino médio do Reino Unido. A proposta é usar a ficção como ponto de partida para discutir saúde mental, masculinidade e violência nas salas de aula.



Mesmo assim, Thorne se mostrou preocupado com o futuro de produções como essa. Ele destacou que, embora a Netflix esteja investindo em projetos socialmente relevantes (Adolescência e Toxic Town, por exemplo), a crise de financiamento na televisão pública pode inviabilizar obras com esse perfil. “Se canais como a BBC e a Channel 4 forem impedidos de produzir esse tipo de conteúdo, toda a cultura desmorona”, afirmou.

No fim das contas…

Adolescência pode não ser baseada em uma história real, mas a verdade que ela expõe é assustadoramente familiar. A série é um espelho incômodo, refletindo um problema estrutural que atravessa escolas, lares, redes sociais — e que, como bem mostra Jamie Miller, não tem um único rosto.



Adolescência: História real por trás que a Netflix não contou
SOBRE O AUTOR
Matheus Pereira
Matheus Pereira é Jornalista e mora em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Escritor assíduo na época dos blogs, Matheus desenvolveu seus textos e conhecimentos em Cinema e TV numa experiência que já soma quase 15 anos. Destes, quase dez são dedicados ao Mix de Séries. Além disso, trabalha há mais de dez anos no campo da comunicação e marketing educacional, sendo assessor de imprensa e publicidade em grandes escolas e instituições de ensino.