A franquia Alien finalmente chegou à TV com uma proposta ambiciosa. Criada por Noah Hawley (Fargo, Legion), Alien: Earth é a primeira série de TV ambientada no universo criado por Ridley Scott e leva os fãs de volta ao clima claustrofóbico, sombrio e perturbador que consagrou os filmes originais — mas com uma nova camada de intriga política e reflexões sobre tecnologia.
A produção é exibida pelo FX, mas chegou ao Brasil via Disney+, trazendo oito episódios que se passam em 2120, cerca de 15 anos após os eventos de Alien: Covenant e dois anos antes do clássico de 1979. E os dois primeiros capítulos, “Neverland” e “Mr. October”, já mostram que a proposta vai muito além de apenas colocar o Xenomorfo para atacar humanos em corredores escuros.
Episódio 1 – Neverland: o encontro entre Alien e Blade Runner
O primeiro episódio de Alien: Earth abre espaço para um novo panorama da Terra, dominada por grandes corporações que controlam territórios inteiros no planeta e em colônias fora dele. É nesse cenário que conhecemos a nave Maginot, que lembra muito a lendária Nostromo, mas com uma tripulação que rapidamente se torna dispensável para a trama — algo proposital, já que o foco é outro.
Após uma sequência que homenageia diretamente Alien (com tripulantes acordando da hibernação e trocando diálogos sobre comida e missões), percebemos que a nave carrega uma carga valiosa e perigosa. Não demora para que a ameaça saia do controle, culminando em uma invasão do Xenomorfo. Porém, em vez de acompanhar o suspense prolongado, Hawley corta rápido para o essencial, deixando claro que o objetivo não é repetir a estrutura do filme de 1979 passo a passo.
Entre os tripulantes, apenas Morrow, um oficial de segurança ciborgue, se destaca. Ele toma uma decisão misteriosa: colocar a nave em rota de colisão com a Terra, mais especificamente com Prodigy City — também chamada de Nova Sião — e abandonar qualquer tentativa de resgate. O motivo dessa escolha, claro, fica como um mistério que deverá ser explorado nos próximos episódios.

Wendy e o projeto híbrido de Prodigy City
Paralelamente, somos apresentados a uma das tramas mais intrigantes da série: o trabalho do jovem gênio da tecnologia Boy Kavalier. Controlando boa parte da África do Sul, Austrália e Sudeste Asiático, sua empresa Prodigy desenvolve um projeto polêmico: transferir a consciência de crianças doentes para corpos sintéticos adultos.
Wendy, interpretada por Sydney Chandler, é a primeira híbrida desse tipo. Embora tenha agora habilidades físicas sobre-humanas, como força, agilidade e até um acessório mortal preso à coluna, ela sofre por não se sentir realmente “humana” e por perder experiências simples da vida, como comer ou assistir filmes com o irmão Hermit (Alex Lawther).
Acompanhada pelo sintético frio Kirsh (Timothy Olyphant) e pela mais empática Dame Sylvia (Essie Davis), Wendy integra um grupo chamado “Lost Boys” — todos batizados com nomes da obra Peter Pan. A referência não é sutil e reforça o tema central do episódio: a tentativa de permanecer jovem para sempre, mas com um custo emocional e ético altíssimo.
O destino une as duas tramas quando a Maginot cai em Prodigy City, levando a ameaça alienígena para o coração do projeto de Boy Kavalier.
Episódio 2 – Mr. October: caos no prédio e o banquete do Xenomorfo
O segundo episódio retoma imediatamente após a queda da nave. Enquanto Hermit se junta a dois fuzileiros para investigar o local, Wendy e os Lost Boys iniciam uma missão própria para resgatá-lo. Essa dinâmica gera momentos de tensão, mas também diálogos e atitudes que lembram que, apesar de estarem em corpos adultos, aqueles híbridos ainda pensam como crianças — algo que pode irritar alguns espectadores, mas que faz sentido dentro da proposta.
O cenário principal é um prédio luxuoso de Prodigy City, onde está acontecendo uma festa à fantasia inspirada no século XVIII. Essa ambientação inusitada serve de prato cheio — literalmente — para o Xenomorfo, que começa a caçar os convidados ricamente vestidos sem qualquer piedade. As cenas de violência são intensas e não economizam no gore, entregando o tipo de brutalidade que os fãs da franquia esperam.
Entre os momentos mais marcantes, vemos Hermit tentando convencer os presentes a evacuar, apenas para ser ignorado. O resultado? Mortes brutais que demonstram como a elite local se considera intocável, mesmo diante de uma ameaça mortal.
No clímax, Morrow reaparece e captura o Xenomorfo com uma rede futurista de aparência biológica, levantando ainda mais perguntas sobre suas verdadeiras intenções.
Pontos fortes e problemas iniciais
Os dois primeiros episódios de Alien: Earth mostram um projeto visualmente fiel ao universo criado por Ridley Scott, com cenários práticos, fotografia que remete ao clima original e até a trilha sonora de Jerry Goldsmith sendo referenciada.
Por outro lado, a série ainda não entregou grandes sustos. O Xenomorfo surge de forma um tanto previsível, sem o mesmo impacto do suspense construído em Alien (1979). A opção de Hawley por alternar entre a trama de ficção científica filosófica — no estilo Blade Runner — e o terror espacial clássico pode gerar uma experiência desigual para alguns espectadores.
Outro ponto que chama atenção é Boy Kavalier, construído como um personagem propositalmente irritante, à altura dos executivos gananciosos já vistos na franquia. Ele deve desempenhar um papel central na ligação entre as corporações e o interesse pelo Xenomorfo.
Um novo olhar para o universo Alien
Se Alien: Covenant e Prometheus já haviam ampliado o escopo da franquia ao discutir temas como criação e inteligência artificial, Alien: Earth leva essa reflexão para a TV, com tempo para desenvolver tanto a ameaça biológica quanto o pano de fundo corporativo e tecnológico.
Hawley deixa claro que pretende explorar não só a luta contra o monstro, mas também as relações de poder entre empresas como Prodigy e Weyland-Yutani, bem como a corrida pelo controle da biotecnologia alienígena.
Os episódios “Neverland” e “Mr. October” não são apenas uma introdução ao enredo, mas também um manifesto estético e narrativo: Alien: Earth quer ser mais que um derivado da franquia. Ao mesmo tempo em que presta homenagem ao passado, busca questionar o futuro — e o preço que a humanidade está disposta a pagar por poder e imortalidade.
Ainda é cedo para dizer se essa mistura de horror e sci-fi filosófico vai agradar a todos os fãs, mas a série já demonstra ter potencial para se destacar não apenas como um capítulo da franquia, mas como uma obra relevante dentro da ficção científica televisiva.