American Gods – 1×03 – Head Full of Snow

Imagem: Starz/Divulgação
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É impressionante como “Head Full of Snow” e seu antecessor, “The Bone Orchard”, perpetuaram um tom narrativo tão diferente da season premiere. Enquanto esta se equilibrava entre apresentar a trama e encher a tela de pancadaria e litros de sangue, esses dois últimos focaram-se em introduzir e desenvolver seus personagens de forma simbólica. Mesmo quando o humor aguçado de Gaiman nos arrebata, a delicadeza da maioria das cenas e diálogos surpreende o público – neste episódio, mais do que nunca.

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À medida que o capítulo se inicia, percebe-se que estamos diante da introdução de mais um deus no universo de American Gods. Dessa vez, Anúbis (Chris Obi), o deus egípcio da morte, é o responsável pela melhor cena inicial da série até aqui. O acidente doméstico de uma senhora no Queens, em Nova Iorque, leva-a a uma viagem pós-morte com Anúbis carregada de símbolos que remetem à tradição das crenças egípcias, como a balança e a Pena da Verdade. O atraente trabalho estético destes primeiros minutos de exibição é apenas uma amostra do que ainda está por vir.

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Pouco antes da estreia do seriado, o criador, Bryan Fuller disse em entrevista que uma das mais tocantes e românticas cenas do livro estaria presente neste terceiro episódio. Embora premiá-la, como alguns meios o fizeram, de “cena de sexo gay mais explícita da história da TV” seja um exagero, é essencial destacar a importância do significado dela para os dias atuais. Nela, um jovem muçulmano de Omã conhece um taxista que apresenta-se como um jinn – uma entidade sobrenatural islâmica – e ambos se envolvem após compartilharem as dificuldades de suas vidas na América.

Em um cenário político em que discussões acerca de xenofobia e diferenças culturais ganharam ainda mais força com a ascensão de Trump à Casa Branca e a abordagem radical das conservadoras tradições islâmicas gera consequências mundiais (o ataque à boate gay em Orlando foi uma delas), dois homens muçulmanos transando é muito mais que exemplo da irreverência de um programa de TV – é símbolo de luta e de desprendimento das tradições, uma quebra de tabu.

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E falando nisso, colocar o dedo na ferida de assuntos atuais parece ser uma necessidade de American Gods. Em um dos mais divertidos diálogos do episódio, Wednesday conta a Shadow sobre a existência de mais de um Jesus em solo americano – desde o europeu, de pele branca e olhos azuis, ao latino, que teria atravessado a fronteira ilegalmente.

A química cada vez mais aguçada dos dois personagens, aliás, destaca-se como nunca aqui. O “roubo ao banco” foi o plot perfeito para ressaltar a perspicácia e a cara de pau de Wednesday quando o assunto é conquistar seu objetivo, e ainda mais divertido foi ver Shadow entrar na onda e participar da farsa. É muito bom conhecer uma nova faceta do protagonista, que no final é pego de surpresa pelo retorno de alguém que parecia ter sido deixada para trás na trama.

Por fim, deixo aqui minhas saudações ao trabalho do diretor David Slade, que terminou esta semana sua contribuição à série. Mesmo que seja forte a presença da visão de Fuller e Michael Green – produtores e roteiristas – no show, Slade também divide o mérito pela ótima aceitação que American Gods tem recebido até agora. Embora a trama não tenha sido completamente exposta, ótimos momentos já foram colecionados e o tom mesclado de mistério e humor funcionou muito bem em tela. Resta saber se os próximos diretores entregarão o mesmo resultado.