Evandro Lins e Silva é frequentemente lembrado como um grande jurista brasileiro, mas seu nome também está fortemente associado a um dos casos mais controversos da história criminal e da luta pelos direitos das mulheres no país: o assassinato de Ângela Diniz. Embora tivesse uma carreira admirável no Direito, seu envolvimento na defesa de Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, marcou de forma profunda sua imagem pública e gerou forte indignação.
A nova série Ângela Diniz resgata esse episódio e o coloca novamente em debate, com Evandro sendo interpretado pelo ator Antônio Fagundes, destacando a dimensão dramática e jurídica desse julgamento histórico.
Lins e Silva entrou no caso como advogado de defesa de Doca, acusado de assassinar sua companheira com quatro tiros, em 1976, em Búzios. Em 1979, no primeiro julgamento, ele adotou a polêmica tese da “legítima defesa da honra”, estratégia que tentou transferir o foco do crime para o comportamento da vítima.
Caso volta à mídia com série Ângela Diniz

Em plenário, a defesa construiu uma narrativa que desqualificava Ângela, classificando-a como desequilibrada e promíscua, enquanto retratava o réu como um homem apaixonado e emocionalmente fragilizado. Essa argumentação, amplamente difundida e repercutida pela mídia, influenciou o júri e resultou em uma pena extremamente branda de apenas dois anos e direito ao sursis, o que impediu a prisão imediata de Doca.
A repercussão nacional foi explosiva. Movimentos feministas denunciaram a decisão como um exemplo cruel de violência institucionalizada contra mulheres e cunharam o lema “Quem ama não mata”, convocando protestos e pressionando por revisão judicial.
A repercussão social levou ao segundo julgamento, no qual a tese foi rejeitada e Doca Street condenado a 15 anos de prisão. O episódio, além de escancarar o machismo estrutural dentro do sistema jurídico, se tornou marco na luta pelos direitos femininos e influenciou debates posteriores sobre violência doméstica.
Hoje, o nome de Evandro Lins e Silva é lembrado não apenas pelos cargos de prestígio que ocupou, mas também como símbolo de uma era em que discursos jurídicos legitimavam a culpabilização da vítima. A série Ângela Diniz reforça que, apesar das conquistas sociais desde então, o caso permanece atual como alerta sobre narrativas que reforçam desigualdades e silenciam vítimas.