Animix: Um verão de mistérios

Animix Gravity Falls

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O terreno das Animações é uma página em branco onde tudo é possível. Não há outro gênero ou estilo no Cinema e na TV que possibilite tantas ideias e abordagens como as Animações. Pense, por exemplo, se seria possível realizar Procurando Nemo com peixes de verdade. Ou O Rei Leão. Ou Wall-e. Veja Scooby-Doo e terá a prova: algumas coisas são melhores como Animações, e isso se dá por um simples fato: não há limites para os traços, cores e personagens dos famosos “desenhos animados”.

Gravity Falls – Um Verão de Mistérios, da Disney, é a síntese do que a boa Animação pode proporcionar. Inventiva, original, corajosa, engraçada, esperta, etc., etc. Criada por Alex Hirsch, Gravity Falls é inteiramente feita por animação tradicional. É claro que, nos dias de hoje, as Animações feitas à mão recebem retoques e tratamentos digitais; ainda assim, impressiona a qualidade visual do programa. É Disney, afinal de contas, uma especialista em animações tradicionais. A série, que estreou em junho de 2012 nos EUA e em outubro do mesmo ano no Brasil, se encontra hoje em sua segunda temporada. O primeiro ano está disponível integralmente na Netflix.

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A História

A série acompanha Dipper e Mabel Pines, irmãos gêmeos de 12 anos que são enviados pelos pais para Gravity Falls, uma misteriosa cidadezinha no Oregon. Lá, os irmãos passarão o verão com o Ti-vô (tio-avô) Stan, que é dono da Cabana do Mistério, uma espécie de museu cheio de coisas sobrenaturais. Stan é um avarento solteirão que comanda a Cabana com mãos de ferro e tem dois empregados: o ingênuo Soos e a paixão de Dipper, Wendy. Dipper e Mabel, uma das melhores duplas das animações recentes, logo percebem que Gravity Falls esconde muitos mais do que aparenta. A cada canto há um mistério, uma criatura, uma maldição e uma aventura. O que seria um verão insuportável com o velho Ti-vô, torna-se uma aventura constante. Gravity Falls não se atém ao formato procedural, com um mistério diferente a cada semana, mas investe em uma densa mitologia que não deixa barato para as séries dramáticas povoadas por mistérios e reviravoltas.

Os Personagens

,,dipperDipper Pines – Irmão gêmeo de Mabel, Dipper tem 12 anos e parece muito mais inteligente do que o normal para sua idade. Sempre em busca de uma aventura ou de mistérios para solucionar, Dipper logo percebe que Gravity Falls esconde mais segredos do que pequenas cidades interioranas costumam guardar. Nutre uma paixão platônica por Wendy, funcionária de seu ti-vô Stan que é mais velha e, por isso, parece longe de ser conquistada pelo pobre Dipper. O garoto parece encarar tudo com esperteza e um plano elaborado, sempre com a ajuda de um misterioso diário cuja capa trás o desenho de uma mão com seis dedos e o número três escrito em tinta preta.

,,mabel

Mabel Pines – A inteligência deve ter ficado apenas do lado de Dipper, pois Mabel, 12 anos, é uma inocente e atrapalhada garota que vive se apaixonando pelos caras errados. Mas o que lhe falta em Inteligência, lhe sobra em carinho. Mabel é a típica personagem que mostra sua coragem e sua esperteza em momentos chave da história. Fiel ao seu irmão, Mabel parece encarar com naturalidade todo o lado sobrenatural da estranha Gravity Falls. Mabel distribui amor e doçura para todo lado: seja para o irmão, para Stan, Soos, Wendy ou seu porco de estimação, Waddles.

,,stanTi-vô Stan – Stan é um avarento. Comecemos por aí. Dono da Cabana do Mistério, Stan recebe os irmãos Pines para passar o verão e ajudar na gerência do museu. Stan tem dois empregados: Soos e Wendy. Stan é rígido, mas tem, não muito no fundo, mas quase na superfície, um bom coração. Para o sujeito, o dinheiro é a coisa mais importante do mundo, e por mais que a cidade lhe proporcione coisas sobrenaturais para expor em seu museu, Stan não se preocupa em mentir aqui e ali para arrancar alguns trocados dos desavisados visitantes da Cabana do Mistério. Com o tempo, Stan se apega cada vez mais a Dipper e Mabel, mas esconde segredos obscuros que podem colocar a relação em risco.,,soos

,,wendySoos – Empregado de Stan na Cabana dos Mistérios, Soos é um doce sujeito que, assim como Mabel, compensa a inteligência escassa com muita simpatia.

Wendy – Com quinze anos, a empregada de Stan na Cabana é a paixonite de Dipper. Não demora pra ela ser envolvida pelos mistérios do lugar. Não espere, porém, uma donzela em perigo: Wendy é o oposto disso, sendo corajosa e determinada.

Queda na Gravidade

O que mais surpreende em Gravity Falls é a complexa mitologia que dá base a uma trama digna das melhores séries dramáticas da TV. É raro ver nas animações atuais uma trama tão intrincada e densa, onde personagens e acontecimentos são lembrados ou retomados de tempos em tempos, construindo uma longa história com continuidade surpreendente. Esta continuidade e os episódios ligados um ao outros, portanto, é o que destaca Gravity Falls, fazendo dela um dos melhores exemplares do gênero.

A começar pelas inúmeras referências culturais feitas pela série. Como toda boa animação, Gravity Falls faz referências a outras animações, bem como a músicas, filmes, livros, artistas e elementos próprios de sua mitologia. Tudo, claro, com muito bom humor. Existem dois personagens, por exemplo, que são soldados fortões e se chamam Lolph e Dundgren, numa referência óbvia ao ator de filmes de ação Dolph Lundgren. Além disso, o show ainda apresentagravity falls l&d referências mais sutis. Em certos episódios, ao tentar desfazer um feitiço, Dipper tenta pronunciar algumas sentenças em latim. Dentre elas é possível escutar “Magnum opus”, “Habeas corpus” e “Inceptus Nolanus overratus”. Se você não pôde pegar a piada na frase final, aqui vai a explicação: Inceptus = Inception; Nolanus = Nolan; Overratus = overrated. Inception é o nome original em inglês do filme A Origem, dirigido por Christopher Nolan e protagonizado por Leonardo DiCaprio. Logo, fica fácil: “Inception by Nolan is overrated”, ou, em português: “A Origem de Nolan é superestimado”.

Em um dos melhores episódios da primeira temporada, The Time Traveler’s Pig, onde somos apresentados a Waddles, o porco, através de uma trama intrincada envolvendo viagem no tempo, temos outras referências, a começar pelo título, que faz referência ao livro e ao filme The Time Traveler’s Wife (no Brasil o filme se chama Te Amarei para Sempre). Além disso, somos apresentados aos já citados Lolph e Dundgren, além de inúmeras piadas envolvendo viagens no tempo e paradoxos temporais. Há referência a A Dama e o Vagabundo, quando vemos Mabel e Waddles dividindo uma pizza e uma frase que encerra o episódio com uma piada: “Não aprovado por H.G. Wells”. Wells é um dos maiores escritores de ficção científica, entre seus livros há Guerra dos Mundos e A Máquina do Tempo.

Em Fight Fighters há inúmeras referências a jogos famosos do mundo dos videogames. Entre eles: Pac-Man, Mortal Kombat e Super Mario Bros. E as alusões não param: Waddles, o porco, sai do peito de Stan, em clara homenagem a Alien – O Oitavo Passageiro. A decoração de um restaurante é idêntica à sala dos sonhos de Twin Peaks. Em um capítulo onde vemos dinossauros, mosquitos ficam presos em âmbar e sugerem que Gravity Falls está no mesmo universo de Jurassic Park. O show também não esquece uma das séries de maior sucesso da televisão e referencia Game of Thrones com a cabeça de Khal Drogo e um trono feito de mãos que remete claramente ao Torno de Ferro.

Gravity Falls referência mix de séries

Teorias da conspiração e Easter Eggs

Gravity Falls esconde tanta coisa nas entrelinhas que é impossível perceber todos os detalhes ou citá-los em apenas um texto. Pra começar temos os criptogramas. No final de cada episódio, um criptograma é mostrado. De tempos em tempos, o tipo de criptograma muda e, logo, a tradução também. Os fãs da série pesquisam e buscam pelas chaves que desvendam os criptogramas. Todas as frases fazem referências ou piadas com a temática do episódio em questão.

gravity-falls-decodedSímbolos e criptogramas, aliás, são partes importantes de toda a série. O site Strange Kid Club lançou uma imagem mostrando alguns símbolos recorrentes no desenho, e que muitas vezes passam despercebidos pelo público (veja imagem ao lado). A vasta simbologia aparece escondida e procurar cada símbolo é como procurar pelo Observador nos episódios de Fringe.

Outros easter eggs incluem figuras triangulares que aparecem seguidamente. Um dos maiores vilões da série é uma espécie de “homem triângulo” com um só olho. Este mesmo ser triangular aparece na abertura da série e em vários episódios escondido em algum cantinho. Os triângulos estão nas placas, em algumas janelas e objetos, etc.

Outros dois easter eggs incluem o viajante no tempo gordinho e o número 618. O viajante no tempo tem dois episódios especiais focados nele, mas antes de aparecer ele fica escondido em alguns episódios. Já o número 618 é uma brincadeira particular do criador do programa, Alex Hirsch: o número faz referência ao aniversário de Hirsch e sua irmã gêmea, Ariel em 18 de junho. Ele aparece em relógios, camisetas, livros, etiquetas e muito mais.

Mas a teoria conspiratória mais interessante é o fato de alguns personagens terem quatro dedos, enquanto outros possuem cinco e as mãos desenhadas nas capas dos diários mostram seis dedos. Muitos afirmam que alguns personagens terem quatro dedos faz parte de uma tradição onde os personagens animados geralmente tem um dedo a menos. Em Gravity Falls, porém, tudo é mais interessante do que parece. Dipper, Mabel e Wendy, por exemplo, possuem quatro dedos, Stan e diversos outros adultos têm cinco. Uma das teorias é de que os jovens não possuem todos os dedos nas mãos. Minha teoria particular, porém, envolve um fato simples: o normal é ter cinco dedos, certo? Logo, quem tem quatro ou seis está fora do grupo de pessoas “normais”. A mão desenhada nos misteriosos diários apresenta seis dedos e provavelmente é a mão do desconhecido autor de tais diários. Este autor, por conhecer tantos mistérios e coisas sobrenaturais, é quase um “ser especial”. Dipper e Mabel podem ser considerados seres especiais e talvez sejam descendentes do escritor dos diários; uma herança genética, portanto, altera o número de dedos. Assim, “humanos normais” têm cinco e os “seres especiais” têm quatro ou seis. Pode ser tudo bobagem, mas Gravity Falls ressalta as mãos dos personagens seguidamente, seja em closes, apertos de mão que evidenciam as diferenças ou luvas que possuem dedos a mais ou a menos. Só faltam ursos polares e uma ilha pra coisa ficar ainda mais misteriosa.

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E você, o que está esperando para assistir Gravity Falls? Largue essa comédia besta que você teima em assistir, ou esse drama chato que você só acompanha por respeito aos atores ou boas temporadas que não voltam mais. Quando você encontra uma animação inteligente, cheia de referências e simbologias que brinca com ocultismo, viagens no tempo e seres fantásticos? Já que você perdeu uns minutos lendo este texto, corra e assista o piloto de Gravity Falls, pois vale a pena.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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