As estrelas perderam a força?

Republican presidential candidate Donald Trump speaks to supporters as he takes the stage for a campaign event in Dallas, Monday, Sept. 14, 2015. (AP Photo/LM Otero)

Imagem editada sob original de AP Photo/LM Otero

Depois de ver, chocado, a vitória de Donald Trump na corrida pela presidência dos Estados Unidos e de ler um artigo no TVLine, surgiu a pergunta: as estrelas da TV e do cinema perderam a força? A resposta rápida é sim. Mas essa constatação vem antes de Trump vencer ou sequer virar candidato, o que já era absurdo suficiente. A figura da “estrela”, do protagonista impávido, tem enfraquecido há alguns anos. Se a máquina de astros de Hollywood chegou ao ápice nos tempos de Bogart e Marilyn, hoje encontra-se frágil.

Não se engane, existem inúmeras estrelas lá fora. Tom Hanks, George Clooney, Julia Roberts, Cate Blanchett, Angelina Jolie, Brad Pitt, todos astros. É inegável, contudo, que eles não gozam, hoje, do brilho de outrora. Não discuto aqui talento, pois todos ainda entregam performances notáveis atualmente, mas o grupo já não possui o mesmo poder, a mesma influência. Se antes eles ditavam moda e costumes, hoje nem tanto. Os motivos são inúmeros, e não valem ser discutidos aqui. Embora a internet pareça fortalecer os artistas e torná-los ainda mais inatingíveis e poderosos, o caminho é de mão dupla; a web também torna as estrelas mais humanas e próximas do público. Além disso, o acesso à informação proporcionado pela rede tira dos ombros dos artistas a pecha de modelos ou influenciadores.

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Em outros tempos, se Lady Gaga dissesse que votaria em Hilary Clinton, isso significaria muito. Se a massiva parte de Hollywood apoiasse Clinton, como apoiou, isso teria mudado os rumos da eleição. Hoje, contudo, não fez diferença. Não bastou Joss Whedon, um dos cineastas americanos mais poderosos da indústria dirigir um comercial com inúmeras celebridades. No vídeo, De Niro, Downey Jr., Ruffalo, Johansson e mais uma caminhão de famosos clamavam para que a população se registrasse e votasse. Embora não falasse com todas as letras, a campanha era claramente contra Trump.

Mas Trump não é uma “estrela”? Sim, ele esteve na mídia por décadas, comandando programa de enorme audiência. Isso pode ter ajudado, afinal os americanos (e brasileiros e praticamente todo o mundo) adoram votar em celebridades. É só ter estado uns minutos na TV e se candidatar a algo que as pessoas votam. Ainda assim, este não foi fator decisivo na vitória de Trump. Enquanto ele, como celebridade, arrebanhava votos, o mar de outras estrelas fazendo campanha contra ele valem muito mais.

Cantores, cantoras, bandas e todo tipo de formadores de opinião declararam apoio à Hilary. Os famosos que apoiavam Trump ou eram estrelas menores ou gente de histórico vergonhoso. Nada disso adiantou. A verdade é que ninguém no mundo conseguiria mudar a mentalidade de quem vota em Trump. Simples. Alguém que vota em um sujeito tão racista, misógino e descontrolado como esse não está preparado para mudar de opinião ou ouvir a voz de um ator. Se o eleitor não se preocupa com o fato de que milhares de pessoas serão negativamente afetadas pela vitória de Trump, por que se preocuparia com campanhas de celebridades?

As pessoas não sabem votar em reality show, por que saberiam votar para presidente? Eles votaram em George W. Bush duas vezes (uma contra Al Gore!), por que não votariam em Donald Trumo? Aqui no Brasil as pessoas votam e querem votar em Bolsonaro, por que se surpreender? Porque absurdos sempre surpreendem aqueles que esperam que as coisas melhorem.

O artigo do TVLine que citei no início deste texto levantava a seguinte ideia: se Jon Stewart não tivesse saído da TV, Clinton poderia ter vencido a eleição. O texto ressalta a força do apresentador e o poder da TV, mas o fato é que nenhuma conjectura fará diferença. Pensar se Stewart faria diferença, se artistas ainda têm força ou se Bernie Sanders teria vencido, não muda a triste realidade que é Trump eleito. E não é porque ele é o presidente dos Estados Unidos. Uma pessoa como Trump ser presidente de qualquer nação no mundo é inacreditável.

Tags Editorial
Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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