A Netflix lançou recentemente As Maldições (Maledictions), adaptação do livro Las Maldiciones de Claudia Piñeiro, dirigida por Daniel Burman e Martín Hodara.
A trama parte de um suspense político instigante: Román Sabaté, funcionário do governador Fernando Rovira, sequestra a filha do político, Zoe. Enquanto Rovira tenta manter intacto o projeto de lei sobre recursos hídricos, sua família e aliados mergulham em uma rede de segredos envolvendo corrupção, disputas de poder e projetos ambientais.
À primeira vista, parece a fórmula perfeita para um grande thriller político sul-americano. E os temas realmente estão lá: exploração do lítio, a negligência dos governos diante da crise climática, a desumanização do poder, as feridas da paternidade. O problema é como tudo isso é contado.
Uma minissérie curta demais para sua própria ambição
A primeira polêmica já começa pelo formato. São apenas três episódios curtos, algo em torno de três horas de duração. Ou seja, tempo de filme, mas dividido artificialmente em capítulos. O resultado é um meio-termo incômodo: não é um longa enxuto, nem uma série com espaço para explorar personagens e conflitos.
Enquanto tramas centrais, como a relação familiar de Román ou os bastidores da corrupção em torno de Rovira, mereciam maior profundidade, o que se vê são explicações superficiais, pontas soltas e até flashbacks desnecessários que alongam passagens pouco relevantes. A sensação é de que o livro exigia uma adaptação mais robusta, mas os criadores ficaram presos na indecisão de formato.
O que funciona em As Maldições

Apesar das falhas, alguns pontos merecem destaque. Alejandra Flechner, como Irene, a matriarca da família Rovira, é simplesmente magnética. Com pouco tempo de tela, ela domina cada cena, trazendo a densidade e a ameaça que faltam ao restante do elenco. Emiliano Kaczka também se sai bem em um papel mais frio e intimidador.
Outro mérito está nas discussões que a trama levanta. O subtexto ambiental, tão atual, expõe a hipocrisia de políticos que desdenham da mudança climática até que a tragédia atinge suas próprias portas. E o olhar sobre a parentalidade — pais ausentes, abusivos ou controladores — adiciona uma camada interessante ao drama.
O que não convence
O grande problema de As Maldições é a falta de fôlego narrativo. Gustavo Bassani entrega um protagonista apático, enquanto Francesca Varela pouco acrescenta em sua performance. Leonardo Sbaraglia, experiente, se destaca, mas não salva o conjunto.
Visualmente, a série também deixa a desejar. Fora algumas boas tomadas abertas de paisagens, o restante é burocrático, sem ousadia na fotografia ou na montagem. Para uma trama carregada de intriga e tensão, o resultado soa mais morno do que arrebatador.
Vale a pena assistir?
As Maldições é uma obra que tinha tudo para ser um thriller político vibrante, mas acabou presa no limbo entre filme e série. O material de origem merecia mais episódios ou, quem sabe, um longa poderoso e direto. O que chegou à Netflix é um híbrido sem força, que desperdiça bons temas em uma narrativa rasa.
Ainda assim, pode agradar a quem busca um suspense rápido, de apenas três horas, com críticas à política e à exploração ambiental. Mas quem espera algo no nível de outros grandes dramas argentinos ou de thrillers políticos intensos, provavelmente sairá decepcionado.