As Maldições: minissérie da Netflix não sabe se é filme ou série

“As Maldições”, minissérie argentina da Netflix baseada em Claudia Piñeiro, mistura política, corrupção e crise ambiental em apenas três episódios. Vale a pena assistir?

A Netflix lançou recentemente As Maldições (Maledictions), adaptação do livro Las Maldiciones de Claudia Piñeiro, dirigida por Daniel Burman e Martín Hodara.

A trama parte de um suspense político instigante: Román Sabaté, funcionário do governador Fernando Rovira, sequestra a filha do político, Zoe. Enquanto Rovira tenta manter intacto o projeto de lei sobre recursos hídricos, sua família e aliados mergulham em uma rede de segredos envolvendo corrupção, disputas de poder e projetos ambientais.

À primeira vista, parece a fórmula perfeita para um grande thriller político sul-americano. E os temas realmente estão lá: exploração do lítio, a negligência dos governos diante da crise climática, a desumanização do poder, as feridas da paternidade. O problema é como tudo isso é contado.

Uma minissérie curta demais para sua própria ambição

A primeira polêmica já começa pelo formato. São apenas três episódios curtos, algo em torno de três horas de duração. Ou seja, tempo de filme, mas dividido artificialmente em capítulos. O resultado é um meio-termo incômodo: não é um longa enxuto, nem uma série com espaço para explorar personagens e conflitos.

Enquanto tramas centrais, como a relação familiar de Román ou os bastidores da corrupção em torno de Rovira, mereciam maior profundidade, o que se vê são explicações superficiais, pontas soltas e até flashbacks desnecessários que alongam passagens pouco relevantes. A sensação é de que o livro exigia uma adaptação mais robusta, mas os criadores ficaram presos na indecisão de formato.

O que funciona em As Maldições

As Maldições série da Netflix
Imagem: Divulgação/Netflix.

Apesar das falhas, alguns pontos merecem destaque. Alejandra Flechner, como Irene, a matriarca da família Rovira, é simplesmente magnética. Com pouco tempo de tela, ela domina cada cena, trazendo a densidade e a ameaça que faltam ao restante do elenco. Emiliano Kaczka também se sai bem em um papel mais frio e intimidador.

Outro mérito está nas discussões que a trama levanta. O subtexto ambiental, tão atual, expõe a hipocrisia de políticos que desdenham da mudança climática até que a tragédia atinge suas próprias portas. E o olhar sobre a parentalidade — pais ausentes, abusivos ou controladores — adiciona uma camada interessante ao drama.

O que não convence

O grande problema de As Maldições é a falta de fôlego narrativo. Gustavo Bassani entrega um protagonista apático, enquanto Francesca Varela pouco acrescenta em sua performance. Leonardo Sbaraglia, experiente, se destaca, mas não salva o conjunto.

Visualmente, a série também deixa a desejar. Fora algumas boas tomadas abertas de paisagens, o restante é burocrático, sem ousadia na fotografia ou na montagem. Para uma trama carregada de intriga e tensão, o resultado soa mais morno do que arrebatador.



Vale a pena assistir?

As Maldições é uma obra que tinha tudo para ser um thriller político vibrante, mas acabou presa no limbo entre filme e série. O material de origem merecia mais episódios ou, quem sabe, um longa poderoso e direto. O que chegou à Netflix é um híbrido sem força, que desperdiça bons temas em uma narrativa rasa.

Ainda assim, pode agradar a quem busca um suspense rápido, de apenas três horas, com críticas à política e à exploração ambiental. Mas quem espera algo no nível de outros grandes dramas argentinos ou de thrillers políticos intensos, provavelmente sairá decepcionado.



As Maldições: minissérie da Netflix não sabe se é filme ou série
SOBRE O AUTOR
Anderson Narciso
Criador do Mix de Séries, atua hoje como redator e editor chefe do portal que está no ar desde 2014. Autor na internet desde 2011, passou pelos portais Tele Séries e Box de Séries, antes de criar o Mix. Também é criador e editor do portal Folha JF, projeto regional voltado para Juiz de Fora e região. Séries favoritas da vida: One Tree Hill, Friends e ER.