As memórias de Orange is the New Black

Orange is the new black

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É sempre grande o número de pessoas que deixa claro sua predileção pela qualidade do produto original ao adaptado. Pudera, levar uma série literária para a mídia audiovisual é um desafio. Orange is the New Black, produção original da Netflix com a Lionsgate, não sofreu com a fúria dos fãs da obra de Piper Kerman. O livro de memórias é o típico exemplo de como a publicação pode ser, muitas vezes, apenas o ponto de partida para grandes histórias.

Criada por Jenji Kohan (que também criou o clássico Weeds), OiTNB aborda a vida de Piper Chapman na penitenciária federal para mulheres após ser condenada a 15 meses de reclusão. Além da mudança da vida confortável de Piper em Nova Iorque pela rotina na prisão, a série também desenvolve as histórias das detentas que a protagonista vem a conhecer. Este é justamente o grande atrativo do show, a mistura de mulheres de diferentes etnias e comportamentos que formam um verdadeiro gueto sócio cultural.

Quem é fã de Orange e não dispensa uma boa leitura, inevitavelmente se interessa em ler as memórias de Kerman. É notável que uma obra é completamente diferente da outra, o que pode vir a ser um choque para quem assistiu a série antes da leitura. Desde os nomes que foram modificados da vida real para o volume de memórias e depois novamente para a tevê, passando por tramas inteiras que não existem no livro; até as características de muitas personagens que não se identificam entre as versões. O exemplo mais forte é Alex Vause. Catherine Cleary Walters, como se chama na vida real, é bem diferente do papel que Laura Prepon interpreta no show. É difícil não sentir falta de Nora Jansen, como é identificada no livro, que após uma breve introdução, só volta a aparecer no fim.

orange livroA maioria das detentas da TV são na verdade uma variação das que foram descritas por Piper Kerman. Crazy Eyes é uma hispânica chamada Morena (e não Suzanne) que segundo palavras da própria autora, parecia uma “princesa maia ensandecida”. O olhar intenso e “bizarro” é retratado no texto, tanto que o apelido está no livro para ajudar a caracterizá-la, porém a personagem de Uzo Abuda não ganha muito destaque na edição. Pop, para quem Piper dedica o livro, é como Red é chamada na obra. Apesar da mudança de nome, as características mais fortes foram mantidas.

Já o papel interpretado por Taryn Manning é uma mistura da ex-viciada em crack, Pennsatucky, com a fundamentalista LaRue, a única mulher do pavilhão que Kerman odiava abertamente. A relação desta última com a protagonista inspirou um dos grandes plots do final da primeira temporada.

Por outro lado, a Pennsatucky do livro é uma mulher preocupada em recuperar a guarda da filha, apesar do evidente distúrbio mental. A passagem de Pennsatucky nas páginas ajuda a autora a esclarecer como essas mulheres prejudicadas por entorpecentes eram tratadas na prisão de Danbury, inclusive discutindo a relevância de leis antidrogas e a ineficácia do governo norte-americano com a forma como lidam com o problema. Além de Tiffany ‘Pennsatucky’, Sophie Burset também é a junção de duas personagens no livro (uma cabeleireira e uma transsexual sem o menor pudor).

Não dá para dizer que o livro tem grande apelo dramático ou uma pegada cômica, como o roteiro de Jenji Kohan faz tão bem. Muitos acontecimentos que poderiam render páginas, ganham poucos parágrafos. A crítica social é certamente um dos grandes acertos, porém é pouco explorada. Aliás, tudo que a obra de Piper Kerman tem de melhor é pouco explorada. Fica a impressão que a autora não quis contar uma história pesada, optando por mostrar um grupo de pessoas em situações mais casuais. O maior problema aqui é que Kerman não faz questão de aprofundar a história de nenhuma detenta, tornando difícil que o leitor crie vínculo com as personagens.

Lançado em 2010 nos EUA e em maio deste ano no Brasil, pela editora Intrínseca, o livro saiu por aqui com o título original para aproveitar o sucesso do show da Netflix. Considere como um leve bônus que contrapõe as histórias que acompanhamos no programa. E mais importante, leia sem nenhuma pretensão de que seja um produto tão bom quanto a série. Deixe que a leitura fale por si.

Equipe Mix

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Perfil criado para realizar postagens produzidas pela equipe do Mix de Séries.

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