As séries que se perderam no meio do caminho

Sabe aquela série que começa boa, mas decai ao longo do caminho?

Uma das maiores frustrações do bom fanático por séries é descobrir que está assistindo algo diferente daquilo que foi prometido. Tem vezes que isso acontece de cara, uma clara falsa propaganda. Em casos mais graves, a série demora anos até mudar o caminho e deixar seu telespectador bravo. Com razão, é claro, pois aquilo que ele amava já não estava mais ali.

Continua após a publicidade

Essa triste surpresa, infelizmente, não vem somente daquelas séries para adolescente que mudam de rumo com base em hashtags do twitter. Um exemplo recente do nefasto fenômeno, é a série Game of Thrones da HBO. Ela foi, por muito tempo, considerada a melhor da atualidade, mas se resumiu em seus episódios finais em técnicas quase de propriedade de séries da CW. Assim, usou casais no minimo controversos para ganhar público e comentários nas redes sociais. Sem o material original e todo o retorno dos fãs, a série garantiu seu lugar no hall “Mais perdida que cego em tiroteio.”

De qualquer forma, Game of Thrones tornou-se um exemplo moderno da frustração de fãs em ver uma série que começou bem, se perder no meio do caminho. Portanto, inspirados por essas polêmicas, e reunindo alguns pensamentos, analisamos alguns cenários que já aconteceram na TV. E também, refletimos sobre alguns fatores em comum: a evolução natural, idade e relevância.

O problema de desenvolvimento

Observando com cuidado, as séries são como pessoas. E assim como os seres humanos, elas passam por certas fases que a levam para um lugar melhor ou pior. O primeiro dos elementos: evolução. Para tratar dele, olhemos para uma das séries mais populares desse século, The Big Bang Theory. Do criador de Two and a Half Men, a premissa da série juntamente aos primeiros episódios parecia clara a respeito do tipo de piada que estava disposta a fazer.

Piadas muitas vezes machistas, eventualmente homofóbicas e esporadicamente racistas envolvendo os nerds. Esse era um retrato do conjunto com o que a série na época que estreou, em 2007. Ao passar dos anos, uma eventual crise de consciência – acompanhada de uma boa evolução – tirou Big Bang daquele lugar. Porém, a colocou em um possível pior lugar para os fãs: o da falta de humor. Resultado? A série passou a não ter mais o que contar. Logo, mal fazia graça e principalmente, já não seguia mais aquela premissa original lá de 2007. De certo modo, pegou-se em um problema de desenvolvimento. Não que a série devesse continuar com as piadas machistas, mas ela precisava amadurecer e evoluir sem perder sua essência. Se a cultura nerd evoluiu, e abraça um legado de respeito, ela também poderia fazer isso.

Imagem: CBS/Divulgação

O tempo

Não podemos falar de evolução sem passarmos pela idade. Quando uma série fica no ar por muito tempo, os sinais da velhice vão aparecendo gradativamente. E muitas vezes, assim como nós humanos, elas não sabem lidar com isso. Vejamos Modern Family, por exemplo. A série tem suas primeiras temporadas a premissa de ver o dia-a-dia de uma família nada convencional, e faz isso com a ajuda de vários atores mirins. Eles, talvez, fossem grande parte da essência de grandes cenas de humor da atração. Não pra menos, Modern Family foi uma gigante das premiações, vencendo incansavelmente Emmys e Golden Globes.

Mas o que aconteceu? Bem, o óbvio: os atores mirins cresceram. E Modern Family, assim como tantos outros projetos, não souberam lidar com a situação. A série mostrava acreditar que quando as pessoas crescem, elas não mudam – isso não dá audiência -, mas se tornam versões maiores do que eram quando crianças. Assim, ao não aceitar o crescimento de rostos conhecidos, Modern acabou se encontrando logo cedo com uma velha conhecida de longas séries: a acomodação. E, de tal forma, não é mais tão moderna como prometia ser.

Imagem: ABC/Divulgação.

Se passamos pela evolução e pela idade, já estamos velhos o suficiente para sermos auto conscientes. O ser humano tem a dadiva e a maldição de muito pensar. Assim, sempre procuramos uma forma de sermos relevantes. As séries nada diferem de nós, elas querem manter seu auge e conquistar o público todo dia. Tudo, como se fosse a primeira vez. Para isso, o mais recomendando seria se adaptar ao que o mundo atual se tornou – uma cursa perigosíssima. Constantemente, as séries escolhem tentar copiar a si próprias em busca de se manter relevante.

Às vezes, o que funcionou antes não funciona agora

Um perfeito exemplo disso é Arrested Development. O – hoje em dia – clássico cult foi cancelado anos atrás pela FOX e ressuscitado pela Netflix em 2013. Os tempos eram outros, o orçamento era outro e a plataforma era outra. Na tentativa de repetir o sucesso que fez o seu retorno acontecer, Arrested investiu em desesperadamente tentar fazer com que o antigo se repetisse, mesmo com condições completamente diferentes – inclusive de disponibilidade de elenco.

Imagem: Netflix/Divulgação

O novo, sempre assustador, foi polêmico em Arrested e as tentativas de momentos flashback com o público, inúmeras. Ao tentar se copiar e manter sua relevância frente ao público, as séries fazem uma aposta perigosa que dificilmente os faz vencedoras. Nessa tentativa, Arrested pareceu algo distante do orgânico e sem metade da esperteza de antes, diferente da originalidade que tanto chamava atenção no inicio.

Ignorar o novo, não saber adaptar as situações de um mundo diferente para uma série de outro momento é sempre um tema em debate no mundo televisivo. Além disso, não levar em consideração o ambiente ao redor é sempre um barato que acaba saindo caro. E que atrapalham sempre a experiência de um público fiel. Portanto, a mensagem que fica, talvez, é de que por mais assustador que seja, as mudanças do futuro sempre vem com algum propósito. Esse, inclusive, é uma das grandes críticas a práticas de revivais, onde uma série que deu certo antes pode não necessariamente dar certo hoje.

Portanto, como mostramos, esses casos de desgastes não é incomum no mundo das séries. E eles são dão por todos esses motivos citados. Diante de uma situação assim, muitos fãs passam pela negação, depressão, barganha, raiva, mas não chegam a tão libertadora aceitação. No mundo dos streamings e grandes negócios com produtos licenciados, parece que a dor de um cancelamento está cada vez mais alheio a realidade do público fiel. Para eles, ficam os personagens, diferentes ou não, ainda aqueles por quem se apaixonaram.

Guilherme Bezerra

Guilherme Bezerra

Pernambucano estudante de Jornalismo na Paraíba. 18 anos. Fã de séries antes mesmo de entender muita coisa que elas mostravam, aprendi inglês com How I Met Your Mother e a amar viagens no tempo com Doctor Who.

No comments

Add yours