Carismático, imprevisível e dono de uma energia quase indomável, Pio Marmaï é hoje um dos nomes mais versáteis do cinema francês — e agora conquista o público global com a série Nero, da Netflix. Na pele de um assassino cínico do século XVI, o ator mergulha em um personagem sombrio e intenso, sem abrir mão de seu humor mordaz e da autenticidade que o tornaram uma figura única nas telas.
Nesta matéria, conheça a trajetória, os bastidores e o pensamento por trás do astro que não teme sair da zona de conforto — e que, como ele mesmo diz, “se recusa a seguir a norma”.
Um começo marcado pela curiosidade e pela energia
Nascido em Estrasburgo, Pio Marmaï iniciou sua carreira no teatro, formou-se no Conservatoire de Créteil e rapidamente se destacou pela vitalidade em cena. Sua estreia no cinema, no filme O Primeiro Dia do Resto da Sua Vida (2008), de Rémi Bezançon, rendeu uma indicação ao César de Melhor Revelação Masculina — e marcou o início de uma filmografia tão eclética quanto ousada.
Desde então, Marmaï transitou com naturalidade entre gêneros: da comédia (La Ritournelle) ao drama familiar (Ce qui nous lie), passando por superproduções como Os Três Mosqueteiros (2023), onde interpretou Porthos. “Gosto de me surpreender, de me testar e de me colocar em situações novas. Cada projeto é uma forma de me redescobrir”, contou o ator em entrevista à Numéro.

O herói (ou anti-herói) de Nero
Em outubro de 2025, Pio Marmaï estreou como protagonista de Nero, uma das produções mais ambiciosas da Netflix França. A série, ambientada na França do século XVI, mistura ação, drama histórico e fantasia sombria. Marmaï vive Nero, um assassino desencantado que busca resgatar a filha perdida em meio a uma guerra brutal e a uma seca devastadora.
“É uma série de luta, de sangue e de emoção. É gigante, tanto em escala quanto em intensidade”, disse ele.
Nero é, segundo o ator, um personagem contraditório — violento, mas sensível; cínico, mas capaz de amor profundo. “Adoro personagens que me desafiam moralmente. Nero é um homem ferido, mas também é alguém que ainda acredita, no fundo, que pode mudar o mundo — ou pelo menos salvar o que resta dele.”
Um intérprete que foge da norma
Ao longo da entrevista, Pio Marmaï deixa claro que se define menos como um astro e mais como um observador curioso da vida. “Sou uma pessoa bastante epicurista. Gosto das coisas simples e não me importo com a norma”, afirma.
Essa liberdade o leva a escolher papéis que raramente seguem o caminho mais fácil. Em um ano, ele pode ser um pai viúvo sensível em L’Attachement, um romântico atrapalhado em À Toute Allure (2024) e um assassino filosófico em Nero.
“Eu nunca quis ser o tipo de ator previsível. Às vezes, me perco no meio do processo, e é ótimo. Em Daaaaaali!, por exemplo, eu não entendia nada do que estava acontecendo — e foi libertador. O caos pode ser inspirador.”

Um olhar moderno sobre masculinidade
Nos últimos anos, Marmaï tem explorado uma masculinidade mais vulnerável, fugindo do arquétipo tradicional do herói francês. “Nunca me perguntei muito sobre minha masculinidade. Eu me relaciono com as coisas de forma humana. Sei que posso inspirar personagens fortes, mas me sinto livre para interpretar qualquer pessoa, de qualquer forma.”
Essa abordagem se reflete tanto em seus papéis dramáticos quanto em suas comédias. Em À Toute Allure, por exemplo, ele brinca com o ridículo e o afeto em um personagem que é, ao mesmo tempo, ingênuo e apaixonado. Já em Nero, traz uma força física e emocional que combina brutalidade e ternura.
Entre Dupieux, Tardieu e Netflix: o ator sem fronteiras
Marmaï parece prosperar na alternância entre o cinema autoral e o mainstream. Trabalhou com Quentin Dupieux, diretor conhecido por seu humor absurdo (Yannick, Daaaaaali!), mas também com Carine Tardieu em dramas delicados como L’Attachement.
“Gosto de passar de uma produção enorme para um filme intimista. Preciso me deslocar para continuar aprendendo. Cada novo set é uma oportunidade de resetar tudo e começar do zero.”
Essa versatilidade o transformou em um dos rostos mais reconhecíveis do cinema francês contemporâneo — e agora, com Nero, em uma estrela internacional.
Um ator inquieto, e um futuro possível como diretor
Apesar do sucesso, Pio Marmaï não parece disposto a se acomodar. Ele confessa ter um desejo crescente de dirigir seu próprio filme, possivelmente no gênero terror — um universo que o fascina.
“Tenho vontade de fazer um filme de horror. Gosto desses universos desconfortáveis, sombrios. Talvez haja algo de catártico nisso”, revelou.
Até lá, o ator continua alternando entre papéis excêntricos e emocionais — e, ao que tudo indica, se divertindo com isso.

A filosofia de Pio Marmaï
Em uma frase dita ainda em 2012, ele resumiu o que parece ser o fio condutor de sua carreira:
“Fui criado com a ideia de ser criativo e insubmisso.”
Hoje, aos 40 anos, Pio Marmaï segue fiel a esse lema. Ele é um artista que recusa rótulos, desafia expectativas e busca a verdade em cada personagem — seja um mosqueteiro, um pai desajustado ou um assassino em uma França devastada.
E talvez seja justamente por isso que Nero funciona tão bem: porque, por trás do personagem sombrio, está um ator que se reinventa a cada papel — e que, como ele mesmo diz, “não se importa com a norma, desde que haja algo novo a viver.”